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#Tim Festival: Kanye West, o astronauta emo preso no planeta ego

ontem quando cheguei na grade do show do kanye west, dentro da arena montada dentro do parque ibirapuera [que incorporou as árvores no espaço coberto], eu tuitei: “o palco parece simples’. me enganei feio; devia ter ficado um pouco mais pra trás – apesar de ver o rapper bem de perto, não vi direito o belo cenário que ele trouxe pro seu show ‘glow in the dark’ ontem em são paulo.
também me enganei sobre a banda, invisível atrás do telão; achei que eram bases pré-gravadas em que ele cantava por cima, mas as músicas estavam todas em versões esticadas, com timbres mais orgânicos do que as ouvidas em disco [retrabalhadas por Kanye com sam spiegal, mike dean, jeff bhasker]. tudo era ilusão no show visual estilo Epcot Center \ 2001 \ Ark 2 que abriu com cenas do espaço e ecos dos vocoders de daft punk na música ‘stronger’ – o mantra que guia kanye na jornada do herói em sua pequena ópera espacial.
tal como um Capitão Taylor [do PLANETA DOS MACACOS] ou um HOMEM QUE CAIU NA TERRA ao contrário, kanye acorda no planeta inóspito pra se ver derrotado e isolado de casa; ele quer voltar mas seu computador jane [referência à personagem do livro O ORADOR DOS MORTOS, do autor de sci-fi orson scott-card] diz que ele tem de se superar primeiro.
muito se reclamou da megalomania do kanye no show, de ele fazer o computador o chamar de ‘estrela mais brilhante do universo’ e ‘maior astro’, mas essa pataquada de ópera é um monólogo interno, é uma metáfora de como o cara é inseguro mesmo sendo o artista de rap mais fodão do momento. todas as músicas são mais ou menos costuradas de forma temática com o conceito do show pra ilustrar o caminho interior que kanye percorre pra superar as próprias nóias. auto-ajuda na forma de balanço entoado por todos os seus hits [uma hora e meia de hits] e conceitos retro-futuristas.
essa busca não é fácil: o cara enfrenta o cansaço [de si mesmo?], bebe água de um cantil, esbraveja entre colunas de fogo [reais], conversa com entidades alienígenas [bolas luminosas que vêm do alto], tenta ativar sua nave-plataforma que sobe num rastro de fumaça, mas é vencido pelo medo e engolido por um dinossauro ET, vê-se perdido e chama pela mãe morta, um Pequeno Príncipe sem ninguém pra cultivar preso em seu próprio planeta-ego.
o set da noite [foto de um show gringo, de repertório quase igual ao nosso] teve como bônus – depois de uma conversa com a platéia sobre a dificuldade de trazer o show pro brasil e de sua vida no último ano – a música “love lockdown”, do disco ainda inédito ’808 and heratbrakes’, cujo ritmo mais deprê deu uma certa amargura pra jornada que tinha acabado tão pra cima. outro ponto negativo pra mim foi o fato de a banda de 9 componentes – incluindo o dj craze – estar escondida atrás do telão-cenário. mas beleza.
e é buscando forças epra tentar mudar as energias de seu maior inimigo interno [ele prometeu parar de falar merda e encher o saco em premiações na TV se conseguisse voltar pra casa] que ele consegue fazer jane despertar nele uma espécie de kundalini violeta – assim como a jane do livro de scott-card pode fazer um personagem virar um semideus – que lembrou também o hadouken de DRAGON BALL e a energia do AKIRA.
é sua energia negativa ególatra se transmutando em criatividade, crescendo no telão atrás de si à medida em que o mantra ‘o que não me mata me deixa mais forte – harder, better, faster, stronger’ vem chegando de novo, cantado pelos robôs anjos da guarda daft punk. e ali ele consegue alçar vôo novamente, voltando pra casa e fazendo as pazes consigo mesmo, pontuada por ‘homecoming’ e ‘touch the sky’. o set inteiro:
“Stronger Intro”
“Good Mornin’”
“I Wonder”
“Heard’em Say”
“Thru The Wire”
“Champion”
“Get em High”
“Diamonds”
“Monster Sequence”
“Can’t Tell me Nothin”
“Flashing Lights”
“Drunk n Hot Girls”
“Spaceship”
“All Falls Down”
“Golddigger”
“Good Life”
“Jesus Walks”
“Hey Mama”
“Don’t Stop Believing”
“Stronger”
“Homecoming”
“Touch The Sky”
“Love Lockdown”
o astronauta está bem consigo mesmo, mas sente falta de alguém ao seu lado. só as ‘pussies’ que ele pede a jane não devem servir, de repente ele precisa de um amigo do sexo masculino também, e que o mundo saiba disso. é fácil pegar raiva de um artista pop megalomaníaco e tão moderno como kanye west, que entende seu eletro-rap emo como um produto completo que ele tem de cuidar da parte musical à visual, por sua postura arrogante [e os roqueiros ainda têm dificuldade de engolir um negro que está por cima e se acha, assim como com Simonal e Michael Jackson]. mas pra quem esteve disposto a embarcar na viagem espacial – pro espaço interior da mente – do cara, foi um puta show.
o palco [maquete no começo do post, visão geral aqui] foi iluminado por john macguire – o mesmo da pirâmide do daft punk. o dinossauro foi feito pela jim henson’s creature shop, estúdio do famoso criador dos MUPPET’S; e as gostosas douradas foram filmadas pelo diretor de clipes hype williams.
vídeos de ontem:
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