O Evangelho Musical segundo um fã mesquinho


Se você já escutou de sua avó, pai ou chefe que dinheiro não traz felicidade sabe muito que a ausência dele também não torna ninguém mais feliz. Tendo esse lugar-comum em mente, já parou para pensar qual é o verdadeiro valor de um ingresso de show hoje em dia?


Primeiro temos o ingresso de fato, que em determinadas casas de São Paulo, não sai por menos do que 150 reais, a pista, seja o show de bandas nacionais ou internacionais. Em seguida, taxas de entrega, taxas de (in)conveniência, custos de deslocamento tanto na ida quanto na volta, somados ao tempo perdido enquanto se espera pacientemente de pé pela entrada da banda supostamente amada.

Pesando a mão-de-obra pessoal e o preparo psicológico requerido, o simples fato de aceitar ir a um show pode ser encarado como um compromisso consigo mesmo de querer aproveitar ao máximo a experiência. Se o som não estiver bom, a banda não estiver inspirada ou o azar não criar circunstâncias ainda mais atenuantes, a certeza de que o concerto será agradável é quase garantida, restando apenas uma peça elementar no caminho da apreciação: você.

É você quem vai alimentar aquele espetáculo com a sua disposição, seu conhecimento prévio da banda e seu desejo de fazer valer o investimento financeiro e pessoal. Geralmente em dias de semana, os shows de São Paulo retiram o espectador de sua rotina das 8h às 17h e o atiram num desvio nada padrão de comportamento. Ali, diante do palco, suas preocupações deixam de ser a hora de sair da cama ou o quanto de trabalho ainda precisa terminar, e são substituídas pela ansiedade de se estar cara a cara com uma de suas bandas favoritas.

Num mundo em que a música se tornou quase sinônimo de consciência graças a invenção agora arqueológica do walkman, estar num show é a chance de externar as frustrações e epifanias antes confinadas ao poder de clausura dos fones de ouvido. Substituindo artificialmente o que se entende por reza na (perdoem-me!) pós-modernidade, a música que você escuta no caminho para o trabalho é o que te faz falar com sua deidade particular diariamente.

E se isso não te soar estranho, há de convir comigo que a analogia adequada para definir sua ida a um determinado show tem sustentação na mesma metáfora religiosa. Por isso, o deixar de lado o isolamento espiritual e ir a uma apresentação ao vivo pode sim equivaler a uma visita a um templo.

Lá estão os pregadores, e cá está o fiel, que quer acreditar nas rimas declamadas e embarcar nas melodias características em um fundamental transe cujo objetivo jamais ficará claro, e nem deveria. Unido com seus irmãos incidentais, você cumprirá a liturgia tentando entrar em acordo com o nível de devoção e empolgação oferecidos pela banda, que toma o palco-púlpito de assalto.


Se de alguma forma as escolhas sonoras, o ritmo da apresentação ou a incapacidade de conexão da banda com o público atrapalharem seu envolvimento, caberá a você romper com a concepção dogmática que o motivou a pegar um considerável trânsito, gastar seu dinheiro contado e enfrentar uma noite mal dormida. Entretanto, se as expectativas que possuía ao comprar o ingresso forem devidamente atendidas e a banda cumprir seu papel no palco, por que não embarcar no doutrinamento com hora para acabar?

Por mais que a analogia religiosa faça sentido em quase todas as comparações, um show raramente se qualifica como um espaço de conversão. Presumivelmente os acólitos ali reunidos já são devotos, mas nem sempre essa presunção possui a força de regra e é incrustado nessa brecha que jaz o ponto de quebra entre a apreciação e a frustração.

Portanto, na próxima vez em que você decidir sair de sua rotina, deslocando-se para partes nunca dantes navegadas da sua cidade e perdendo não apenas horas úteis como horas de sono, considere esses apontamentos: Como anda sua fé na banda em questão? Quanto do seu tempo está dedicado a escutá-la com fervor? Qual a sua capacidade de entrega quando estiver ali, entre o vão e o tablado, abaixo das guitarras e do microfone?

Caso sua conclusão se aproxime, mesmo que remotamente, do ateísmo musical, faça um favor para si e para mim: fique em casa essa noite e reze por um show do qual você sinceramente gostaria de fazer parte.



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