Lady Gaga aspira ser apenas a segunda melhor com Born This Way


Colaboração de Lécio Rabello:

Don’t go for second best, baby…

O assunto mais comentado do mundo pop na última sexta-feira foi o aguardado lançamento de Born This Way, faixa-título e primeiro single do segundo disco de estúdio da controversa cantora Lady Gaga. Desta vez o cerne da discussão não foi uma batida inovadora, uma sonoridade inteiramente estranha às massas, ou uma letra de versos ousados ou estrutura inovadoras. Nada disso. O que catapultou a canção para a liderança dos trending topics internacionais do Twitter e figurou na primeira página de portais do mundo inteiro foi a incrível similaridade entre o novo trabalho e Express Yourself, hit de 1989 do álbum LIKE A PRAYER de ninguém menos que a rainha-mãe do pop. Você sabe de quem se trata.

Desde que o Pop é Pop, o mundo viu desfilar pelas rádios e paradas de sucesso divas e rainhas como Donna Summer, Cher, Mariah Carey, Whitney Houston, Celine Dion, Diana Ross, para citar algumas. Cada qual com um punhado de méritos que passeiam em geral entre belas vozes e melodias poderosas. Por mais êxito que qualquer uma delas tenha tido, nenhuma permaneceu no topo por tanto tempo nem exerceu tanto fascínio sobre as lentes, holofotes e noticiários como Madonna.

Em algo em torno de trinta anos de estrada, Madonna soube transformar suas ideias e ideais em canções, traduzi-las em vídeo-clipes, e divulgá-las através de mega-turnês, brilhantemente dirigidas, coreografadas e iluminadas, tornando-se ao lado do pai Michael Jackson, uma espécie de mãe do Pop. Em resumo, nenhuma outra estrela pop até então havia demonstrado um controle tão absoluto de sua imagem e de seu trabalho, e uma obsessão tão feroz para ser a melhor, a mais comentada, a mais adorada.

Madonna sempre fez do que quis dizer combustível para alimentar sua legião de fãs e opositores. Bons exemplos são a celebração da perda da virgindade (Like a Virgin), a gravidez adolescente (Papa Don’t Preach), a igreja católica e o racismo (Like a Prayer), o franco exercício da sexualidade de Justify My Love e Erotica, e mais recentemente o star system do qual ela é uma vítima e perpetuadora (Hollywood) e a postura anti-Bush (American Life). Cada lançamento era acompanhado do que viria a se tornar tendência em seguida, não apenas na estética e na sonoridade pop, mas também na moda e no comportamento. A cada golpe desferido contra o establishment, Madonna conquistava mais entusiastas e mais algozes. E vendia mais discos.

Sementes da nova ordem mundial pop plantadas, desde o final da década de noventa a mídia não cansou de anunciar o aparecimento de novas Madonnas e, princesinhas do Pop. A então adolescente Britney Spears cultivou a imagem de boa moça até quando pôde, reaparecendo sensual e provocativa em seguida. O mesmo se aplica a Christina Aguilera, que tenta até hoje – sem lá muito sucesso – roubar uma nesga dos refletores de suas colegas para si. De tempos em tempos o pop apresentava como sucessora em potencial qualquer cantora que pusesse em prática um ou outro ítem extraído da cartilha da rainha-mãe.

No final dos anos 90, uma Madonna super-exposta e devastada pela mídia deixou as polêmicas de lado, pôs na prateleira um Globo de Ouro de melhor atriz por seu trabalho em EVITA, e conquistou respeito da crítica e outro sucesso de público com o álbum pop de acento eletrônico RAY OF LIGHT, de 1998, produzido por William Orbit.

Vieram os anos 2000, e com eles o frutífero casamento entre entre pop e hip-hop. Nem Madonna escapou da tendência que, apesar de aparecer em alguns de seus trabalhos do início da década de noventa como EROTICA (1992) e BEDTIME STORIES (1994), sejamos justos, não foi necessariamente ditada por ela. A dance music virou passado, e o pop ressurgiu de mãos dadas com o hip-hop. Era a vez de TLC, Destiny’s Child, Jennifer Lopez, e posteriormente Beyoncé e Rihanna.

Eis que surge uma figura nova de óculos escuros estilizados, com canções ultradançantes, interessantes, e inteligentes, declarações polêmicas, performances e aparições ao vivo memoráveis. Os holofotes então desligados e sedentos por algo novo foram atraídos por aquela moça estranha e meio maluca, que ao cantar uma crítica à indústria da fama, terminava sua performance no VMA’s pendurada numa corda e esvaindo-se em sangue. Com o perdão do trocadilho, “quem é essa garota?” – indagaram muitos.

Sua polêmica apresentação imediatamente remeteu os mais velhos ao ano de 1984, quando Madonna rolou pelo chão do teatro vestida de noiva, na primeira edição do VMAs. Assim como em evento público qualquer Madonna simplesmente despiu-se e mostrou os seios a fotógrafos sedentos de assunto, Lady Gaga deixou o mundo boquiaberto ao surgir em uma premiação vestida com pedaços de carne, rindo de si mesma, da reação do mundo, suscitando discussões que variavam da banalização da carne, do ser humano, a uma crítica a maus-tratos aos animais.

Lady Gaga tem mostrado fôlego de rainha ao declarar-se ciente de que é um produto, ao provar que sabe criar polêmicas das boas, e ao apresentar ao mundo no comecinho da carreira uma persona e um universo fashion muito característicos. Tudo isso até vir a público o videoclipe de Alejandro, de onde brotaram claras referências a Express Yourself e Vogue, ambas de Madonna. Ela se expressou sim, muito bem por sinal, e acusada de cópia virou assunto novamente.

Com Born This Way Gaga ela continua expressando o que pensa e sente, porém novamente bebeu na fonte de Express Yourself. Ao contrário do que fez Madonna em Hung Up ao criar letra e melodias inteiramente novas mesmo ao utilizar um sampler de Gimme Gimme, da banda sueca Abba, Born This Way é uma cópia. Não se trata aí de uma referência, um parentesco evidenciado a partir de bases, samplers, ou batidas: Born This Way parece-se muito com Express Yourself. O mote da letra, a apresentação, a estrutura dos versos, tudo remete imediatamente a Express Yourself.

Madonna não raro apropria-se do trabalho alheio sim, porém o faz de maneira sutil, discreta, e muitas vezes imperceptível. É o caso do premiadíssimo e incensado Ray of Light, cuja linguagem baseia-se no pouco conhecido KOYAANISQATSI (filme de 1983 de Godfrey Reggio), clipe dirigido por Jonas Ackerlund – responsável pelos vídeos de Paparazzi e de… Born This Way.

O que acontece é que para as gerações anteriores, ou seja, para o pessoal hoje na casa dos trinta para cima, Lady Gaga ultimamente tem se mostrado uma imitação (meio desajeitada, diga-se) de Madonna. Mas, sinceramente, a opinião desse pessoal que passou dos trinta importa? Aparentemente não. Born This Way, bem ou mal, é uma canção divertida que cuja letra atualiza o conceito feminino de Express Yourself para todas as orientações sexuais conhecidas. Já um sucesso, o single é recorde de vendas no iTunes.

A julgar por seus trabalhos mais recentes, Lady Gaga quer ser Lady Gaga apropriando-se publicamente do trabalho da rainha-mãe. É uma pena, porque a moça tinha tudo para ser ela mesma – as canções e os vídeos de Paparazzi e Bad Romance são exemplos absolutos de criatividade e originalidade. Terá a fonte secado? Ao apropriar-se de maneira óbvia de um ícone tão forte e presente, a moça praticamente cola em sua própria testa o rótulo de nova Madonna, distanciando-se assim da possibilidade de escrever seu próprio manual.

Lady Gaga tem tudo para ser Lady Gaga, mas não o será a menos que pare de bancar a Queen Madonna II. Talvez ela tenha ignorado os versos de Express Yourself que dizem: second best is never enough / you do much better, baby, on your own (ser a segunda melhor não é o suficiente / você se vira melhor sozinha). Talvez não. Talvez para Lady Gaga, ser a segunda melhor e mirar-se no trabalho alheio já seja bom o suficiente.

P.S.: No dia seguinte ao lançamento de Born This Way, (alguém da equipe de) Madonna resolve subir para seu canal oficial do youtube uma performance ao vivo do VMA’s de Express Yourself. Algumas rainhas nunca perdem a majestade.

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  • http://twitter.com/dirrtyego Fábio Melo

    Madonna é sim a Rainha-mãe do POP, Britney sempre será a Princesa do Pop, Christina Aguilera é Christina Aguilera, ela é cantora POP, Blues, Jazz, mas, ao contrário do que se fala, ela não faz a linha POP escrachada, ela simplesmente utiliza as mesmas armas de divulgação, sensualidade agressiva, corpo, postura, palavrões e outras coisas mais que tanto Madonna usou (usa) como Lady Gaga adora usar.

    Lady Gaga é uma profissional, um tanto estranha, mas, uma excelente pianista, marketeira e ótima cantora, mas, jamais conseguirá fazer o que Madonna fez. Britney por sua vez ainda utiliza o seu talento de performance, clipes convidativos e “carisma” para se promover. Até hoje ainda está se aguentando, mas, não por muito tempo. Prova disso: seu single atual, com a mega divulgação, mas, não conseguiu se manter em #1 na Billboard nem por duas semanas consecutivas. Isso também pode acontecer à Born This Way!

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  • Só uma dica, quem dirigiu o videoclip não foi Jonas Ackerlund.. foi Nick Knight…
    sinta-se abençoado por sua credibilidade…

  • Anonymous

    foi corrigido, obrigado por sua bênção, ó sacerdote[iza] da pequena monstruosidade. o que seria de nós sem você?

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