Goma entrevista: Denilson Monteiro, biógrafo de Carlos Imperial


Carlos Eduardo da Corte Imperial [1935-1992], capixaba, foi uma das figuras mais importantes do Pop brasileiro. poucas pessoas daqui se envolveram de forma tão marcante em várias mídias diferentes: ele foi jornalista, radialista, promotor de festas, compositor, letrista, músico, produtor musical, apresentador de TV, jurado de programa de auditório, ator, diretor de cinema, produtor de teatro, vereador do Rio de Janeiro e figura presente no imaginário do Brasil durante muitos anos com sua postura calculadamente polêmica.

Imperial tinha um exímio faro para o gosto popular. além de ser um dos primeiros divulgadores do Rock ‘n’ Roll e da Disco Music no Brasil. foi responsável pelo lançamento das carreiras [ou mentor de] de Roberto Carlos, Elis Regina[bb], Wilson Simonal, Erasmo Carlos[bb], Tim Maia, Tony Tornado[bb], Fabio, Guilherme Lamounier e muitos outros artistas. se em dado momento Roberto Carlos[bb] era o “Elvis Brasileiro” – nome que Imperial criou – ele mesmo era seu Coronel Parker. algumas das músicas que compôs foram “A Praça” [gravada por Ronnie Von], “Mamãe Passou Açúcar em Mim” [gravada por Simonal] e foi o responsável pelo projeto Pilantragem, que pegava músicas de domínio público e as regravava com uma roupagem suingada moderna.

amante das mulheres, Imperial estava sempre atrás de uma “lebre” – termo que usava para se referir ao que antes de chamava de “brotos”. ainda assim teve durante um tempo o que talvez fosse um dos sogros mais temidos do Rio nos anos 60: Carlos Gracie, patriarca dos lutadores de jiu-jitsu. Impera assumiu pra si o papel de ser um vilão na mídia: preferia receber vaias a aplausos. e nesse espírito era um exímio criador de factóides para promover seus artistas, discos, programas de tv, colunas de revista e filmes; talvez sendo até criador dos primeiros virais do Marketing brasileiro.

toda a vida, obra, e as hilárias histórias de Imperial estão relatadas na biografia DEZ! NOTA DEZ! EU SOU CARLOS IMPERIAL [Ed. Matrix, 2008], escrita por Denilson Monteiro depois de seis anos de pesquisa e que é um dos livros mais divertidos e informativos sobre a Cultura Pop no Brasil que li nos últimos tempos. Denilson tem afinidade com biografias; foi pesquisador de texto e imagem para VALE TUDO – O SOM E A FÚRIA DE TIM MAIA [de Nelson Motta], de imagens para MINHA FAMA DE MAU, a auto-biografia de Erasmo Carlos e transcreveu entrevistas para CLARA NUNES, GUERREIRA DA UTOPIA, de Vagner Fernandes. no blog do livro ele posta algumas imagens e vídeos que complementam o vasto material usado na bio do Impera [como era conhecido pelos chegados].

desde o fim de 2009 Denilson está envolvido na recuperação de outro legado importante de Imperial: sua filmografia como diretor. sete dos oito filmes que dirigiu estão passando por um processo de restauração e começaram este mês a serem exibidos no Canal Brasil [66 da NET]. são comédias povoadas por belas mulheres como O SEXOMANÍACO, o suspense ESQUADRÃO DA MORTE e dramas eróticos como MULHERES, MULHERES, que estreou este mês junto de DELÍCIAS DO SEXO.

Denilson [twitter - facebook] falou com exclusividade para a Goma sobre o processo de criação do livro, de recuperação dos filmes e do papel de Imperial no Pop brasileiro.

Hector Lima: qual seu trabalho no dia-a-dia quando não está escrevendo?
Denilson Monteiro: Faço transcrições de entrevistas; trabalhos de pesquisa de texto e imagem e trimestralmente recebo os autorais do livro. Se alguém estiver precisando dos meus préstimos, é só falar, não fujo de trabalho.

HL: não chegou a conhecer Imperial pessoalmente não, né?
DM: Só vi uma vez, mas não tive coragem de falar com ele.

HL: você trabalhou como pesquisador para VALE TUDO, a biografia de Tim Maia escrita pelo Nelson Motta. o que esse trabalho te ensinou pra escrever o DEZ! NOTA DEZ?
DM: O Nelson foi um curso de como escrever.

HL: quando a bio do Tim saiu você já estava firme no trabalho da bio do Imperial. foi difícil mexer com as duas coisas ao mesmo tempo?
DM: Não, foi difícil depois que acabou, pois sem o trabalho no livro do Tim a grana começou a faltar.

HL: como está a repercussão do livro? existe chance de sair uma versão revisada conforme você vai descobrindo novos fatos?
DM: Vai indo bem, só consegui boas críticas e leitores de peso como o Tony Garrido e o pesquisador Rodrigo Faour. Um dia desses recebi um telefonema do André Barcinski, autor da biografia do Zé do Caixão[bb] e produtor do programa dele no Canal Brasil, pedindo o contato do Paulo Silvino. Ele disse que queria entrevistar o Paulo porque depois de ler o meu livro, descobriu um lado muito importante do ídolo como pioneiro do rock nacional. Pra mim isso foi ótimo, já que o livro do André foi uma das minhas fontes de inspiração. O Álvaro Pereira Júnior na coluna que tem na Folha disse que eu desvendei os bastidores do mundo do entretenimento. Até o Zé Pedro falou bem do livro! Bom, o livro tem só um ano que foi lançado, acho que ainda pode levar mais um tempo para um edição maior. História não falta.

HL: qual foi a pesquisa\entrevista que você mais gostou de fazer para o DEZ! NOTA DEZ! e qual a parte mais complicada do processo?
DM: Foram várias entrevistas deliciosas: Erasmo[bb]; Ed Wilson; Roberto Rei e Hamilton; Paulo Silvino; Kate Lyra, uma das mulhres mais bonitas e inteligentes que conheci; Nina de Pádua; William Prado; Renato Barros; João Roberto Kelly, hoje em dia um grande amigo. Tem muita coisa difícil, investigar a vida de uma pessoa não é mole. Principalmente alguém que fez tanta coisa como o Imperial, você tem que catar informação em tudo quanto é lugar. Depois disso, pegar todas essas informações e transformar em um texto que seja interessante para o leitor é outra pedreira, já que você tem que falar apenas a verdade, não pode inventar fatos para a coisa fica mais atraente.

HL: as dezenas – quase centena – de músicas que o Gordo compôs e foram gravadas por tanta gente verão a luz do dia de um jeito mais organizado, como numa caixa especial por exemplo, ou a parte jurídica é muito complicada?
DM: O filho dele, Marco Antonio Imperial, está fazendo um trabalho interessante em cima das músicas, fazendo novos arranjos. Ele também quer fazer uma coletânea com os maiores sucessos em suas gravações mais marcantes. Agora é ver se as gravadoras se animam.

HL: no livro você afirma que Impera não fumava, não bebia nem usava drogas ilícitas. mas pela caça praticamente diária às “lebres” [nota: como Imperial se referia às mulheres em geral] seria seguro dizer que ele era viciado em mulher, como uma espécie de Michael Douglas das antigas?
DM: Eu lembro do pai do Michael, Kirk Douglas[bb] (“Eu sou Espártaco!”) comentando sobre essa história: “O que tem de mais em ser viciado em sexo? Eu sou e nunca tive problema com isso”.

HL: existe algum factóide do Imperial que você ajudou a perpetuar na biografia, como uma espécie de pegadinha post-mortem?
DM: Acho que não, não tenho a coragem dele pra fazer esas coisas.


HL: uma coisa me deixou com uma pulga atrás da orelha: o Imperial não bebia nem fumava mesmo? no livro tem umas fotos dele com cigarro, no especial POR TODA MINHA VIDA do Raul Seixas o ator que o interpreta aparece com um uísque na mão [nota: aos 8:23 deste vídeo] e o Zé Geraldo na sua comunidade do Orkut falou de um causo na praia em que o Gordo estava alto de caipirinha.
DM: Ele realmente não bebia nada mesmo. O João Roberto Kelly me contou de uma vez em que ele tomou uma tacinha de vinho pra impressionar a Sandra Escobar e já ficou trocando as pernas. Eu acho que aquele relato do Zé Geraldo tem confusão com a história da caipirinha, pois todo mundo testemunha que ele não bebia uma gota de álcool. Há pouco tempo, descobri um colega de colégio dele que disse que ele gostava muito de cerveja. Mas é estranho, já que os outros amigos de infância só falam de Coca-Cola[bb].

Com relação ao cigarro, o Marco Antônio diz que ele chegou a fumar durante um período. Mas a Maria Luiza Imperial [filha de Carlos] diz que era impossível, que ele só aparecia mesmo com cigarro para tirar onda. Eu sei que quando ele casou com a Andrea, ela estava com 17 anos e fumava. Parou devido aos conselhos dele e até hoje mantém esses hábitos saudáveis. O Luiz Adolpho diz que ele só se metia a fumar quando brigava com a Sandra Escobar.

HL: acabei de ler NEM VEM QUE NÃO TEM, a bio do Simonal escrita pelo Ricardo Alexandre, e as duas são irmãs complementares. do seu jeito a obra do Imperial também foi um pouco injustiçada pela História. não de maneira trágica como Simonal[bb], mas a visão que se tem da Pilantragem [eternizada no disco PILANTRÁLIA] dá a impressão de ser um projeto musical muito mais raso do que o tempo acabou mostrando. no documentário do Simonal, por exemplo, fala-se até sobre a riqueza musical do projeto. você acha que Imperial merece um revival mais encorpado? o esquecimento é pior que as vaias que ele tanto gostava.
DM: Claro que não ser lembrado é a pior coisa que pode acontecer com o Imperial, e é contra isso que eu, os filhos dele e amigos como o Netto da Mofo TV, que dispõe os vídeos do Gordo no Youtube, lutamos. Mas é isso mesmo, o trabalho dele é vítima de uma grande injustiça, fruto da caretice que ainda teima em sobreviver. Mas um dia disses, na coluna do Joaquim Fereira dos Santos, o Ruy Castro colocou “Mamãe Passou Açúcar Em Mim” como um os grande clássicos a MPB. A coisa está melhorando para o gordo.

HL: de onde partiu a iniciativa para a restauração dos filmes que o Imperial dirigiu: de você ou do Canal Brasil?
DM: A iniciativa foi minha. Quando eu estava na Cinemateca do MAM identificando copiões e cópias dos filmes do Imperial em 16mm levadas por mim e pelo Marco Antônio o responsável pelo setor de conservação, Hernani Heffner, falou a respeito. Aliás, um pouco antes, Remier Lion Rocha já havia falado disso. Eu entrei em contato com a emissora em 2004 e o negócio só foi se resolver ano passado, depois da ajuda da advogada dos filhos do Imperial, Fernanda Freitas, ter ajudado nas negociações.

HL: você está diretamente coordenando a restauração ou servindo de consultor?
DM: O Marco Antônio fez várias viagens a São Paulo para levar os negativos ao laboratório para fazer a telecinagem, foi um verdadeiro herói[bb]. Eu fiquei tirando as dúvidas e procurando pistas da localização de alguns filmes.

HL: por que se decidiu começar este mini-ciclo pelos últimos filmes que ele dirigiu e não em ordem cronológica?
DM: Eu acredito que o problema tenha sido devido a ordem como os filmes foram sendo entregues ao canal. Nós tivemos problemas em localizar alguns e na liberação de outros. Não houve condição de respeitar a ordem cronológica.

HL: alguma coisa se perdeu no meio do caminho? estarão nesse ciclo todos os 8 filmes com direção dele?
DM: O Rei da Pilantragem também teve problema com o som. Por sorte havia uma cópia em VHS de onde o trecho danificado pôde ser retirado. Infelizmente, estamos com problemas com Um Marciano em Minha Cama. Um rolo de imagem sumiu. O Esquadrão da Morte está com problema com o som, mas há a possibilidade usar uma fita em 16 mm que estava na casa do Imperial.

HL: qual desses filmes você considera que mais tem o espírito brincalhão e musical de Imperial, e que deve ser visto obrigatoriamente?
DM: Eu gosto muito do Sexomaníaco, mas O Rei da Pilantragem, embora oficialmente tenha sido dirigido por Jacy Campos, é o que mostra o Imperial mais brincalhão. Sem falar que é estrelado pelo Paulo Silvino e conta com participações de ídolos como Yara Cortes, Monsueto, Wilza Carla, Lúcio Mauro e até o cantor da multidões, Orlando Silva[bb].

HL: Sabe se vão passar também mais filmes da longa filmografia de Imperial como ator?
DM: O Canal Brasil já vem exibindo muita coisa do Imperial. São filmes como Independência ou Morte, Tempo de Violência, O Dono da Bola, A Viúva Virgem, Mulheres à Vista, muita coisa. Infelizmente, alguns filmes ficaram perdidos. Por exemplo, não se sabe de uma cópia de Minha Sogra é da Polícia, que tem aquela cena clássica dele acompanhando Cauby Peixoto[bb] juntamente com Roberto e Erasmo [nota: assista abaixo]. Existe também um filme que ele fez em Pernambuco, O Palavrão, no qual faz o papel de São Pedro, que conta apenas com uma cópia que está com o dono de um centro cultural lá em Recife. E claro, eu queria muito ver O Monstro Caraíba, do Júlio Bressane.

HL: eu sempre confundi o Imperial com o ator Maurício do Valle; nos anos 70 nunca houve algum causo a respeito da semelhança das figuras gigantes e cabeludas?
DM: Muita gente acha que o Imperial trabalhou com Os Trapalhões[bb], mas era o Maurição. Tem um flme, Belbel, a garota propaganda, em que o Maurício faz um produtor de TV que anda de carro conversível e pega as menininhas de forma bem cafajeste. A trilha do filme é do Imperial. Falei com o Maurice Capovilla, o diretor, queria aber se o personagem era inspirado no Gordo. Ele disse que não, que o personagem já existia no livto do Ignácio Loyola Brandão. e que o Imperial não era um era violento, era um sujeito muito doce e amigo.

HL: há planos de esses filmes dirigidos pelo Impera serem lançados em DVD?
DM: É lógico que há essa vontade, basta aparecer alguma empresa interessada e com uma proposta decente.

HL: os filmes vão de comédias malucas leves, suspense policial a dramas eróticos pesados. como você avalia a evolução dele como diretor e dos temas que abordava?
DM: Como na música, ele queria fazer sucesso. Posso usar como exemplo uma frase que disse sobre o sucesso que fez como produtor teatral: “eu leio uma peça e se gosto, tiro as encucações e monto”. Ele fazia assim com os filmes, fez comédias eróticas quando viu o sucesso de A Viúva Virgem; mudou o nome de Como Abater uma Lebre para Banana Mecânica para pegar o pessoal que não pôde ver Laranja Mecânica[bb], proibido pela Censura na época; fez filmes com uma carga maior de erotismo quando viu o sucesso de O Império dos Sentidos. Ele sabia aproveitar as oportunidades.

HL: há por acaso planos para uma cinebiografia do Impera, adaptando seu livro ou para um documentário sobre ele? que ator você acha que o faria bem na tv ou cinema?
DM: Eu recebi propostas para um longa e um amigo que fez um documentário de sucesso está dizendo que tem vontade de fazer um sobre o Imperial. Eu sempre vi o Alexandre Borges[bb] como Carlos Imperial.

HL: fale dos seus projetos atuais, como o documentário sobre Paulo Silvino.
DM: É, estou juntamente com o Marco Imperial, Fábio Assuf e Glaucus Arruda trabalhando nesse documentário sobre o Silvino (Paulo Silvino: loooucura), algo com que sonho há anos. Além disso, estou trabalhando num livro sobre Ronaldo Bôscoli e junto com o filho caçula dele, Bernardo, num documentário sobre ele. Também com o Bernardo e o Vinicius Manne, estou trabalhando num programa da série Retratos Brasileiros (Canal Brasil) sobre o Aloísio T. de Carvalho, o diretor de Minha Sogra é da Polícia. E tem o roteiro Do jeito que ele me aquece, que estou terminado de escrever com a minha parceira, Clarice Messer. É uma história de amor ambientada na Copacabana de 1958, com juventude transviada e rock ‘n’ roll.

HL: o livro provoca uma nostalgia grande pelo Rio dos anos 60 e 70, a vida cultural fervilhando e os “malandros do asfalto” como Imperial circulando safos por essa floresta, sempre criativos e mais espertos que os que se julgavam espertos. você acha que faz falta uma figura hoje uma figura como o Impera no imaginário brasileiro, ou o lado negativo do “bom cafajeste” se estragou no século 21?
DM: Claro que falta um Imperial, mas tem muita gente boa aí. Sem falar que a gente tem essa coisa maravilhosa que é a internet pra ajudar. O que falta é as pessoas se mexerem mais. Você está fazendo isso.

HL: bondade sua! pra terminar: Imperial sempre foi muito ligado nas tendências do momento. o que você imagina que ele estaria fazendo se estivesse vivo hoje: jurado de reality show musical, produtor de artistas emo \ funk \ country, produtor de filmes sobre dramas sociais, ator de novela da Globo ou aposentado e rindo de tudo isso à distância?
DM: Ele poderia estar em A Fazenda ou se apresentando como candidato a marido da Dilma Rousseff.

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