Goma entrevista: Lúcio Manfredi, autor de DOM CASMURRO E OS DISCOS VOADORES



Esse é o primeiro post de uma série em que entrevistamos os autores dos livros da coleção Clássicos Fantásticos da Editora Lua de Papel / Leya. A proposta é reescrever obras consagradas da nossa Literatura com elementos de Fantasia e \ ou Ficção Científica, da mesma forma que foi feito nos EUA com ORGULHO E PRECONCEITO E ZUMBIS, mas de uma forma ainda mais orgânica, com os elementos fantásticos surgindo de aspectos já presentes nas obras originais.

A idéia rendeu obras divertidas, em tons de aventura bizarra, ironia sinistra e o maravilhamento de personagens de mais de cem anos atrás diante de situações incríveis. A primeira tiragem de 32 mil exemplares esgotou rapidamente, e a Lua de Papel vai lançar a segunda tiragem muito em breve de DOM CASMURRO E OS DISCOS VOADORES [de Lucio Manfredi], SENHORA, A BRUXA [de Angélica Lopes], O ALIENISTA CAÇADOR DE MUTANTES [de Natália Klein] e ESCRAVA ISAURA E O VAMPIRO [de Jovane Nunes] .

Em DOM CASMURRO E OS DISCOS VOADORES, a trama romântica sofre a interferência de seres alienígenas e andróides, disfarçados sob os personagens originais de Machado de Assis. Como no livro original, o ciúme de Bentinho continua presente – mas agora existe mais um motivo para sua desconfiança: a ligação entre a amada Capitu e seu melhor amigo Escobar pode não ser deste mundo.

O autor desta releitura [ou remix] é Lúcio Manfredi [twitter], escritor e roteirista de televisão. Ele já teve contos publicados nas antologias COMO ERA GOSTOSA MINHA ALIENÍGENA, DEZ CONTOS DE TERROR e GALERIA DO SOBRENATURAL, além dos romances ABISMO DO TEMPO e ENCRUZILHADA. Na TV colaborou com o roteiro das minisséries A CASA DAS SETE MULHERES, UM SÓ CORAÇÃO e nas novelas COMO UMA ONDA e CIRANDA DE PEDRA na Globo. Conheço Lúcio pela internet há uns bons anos de listas de discussão e o convidei para fazer uma HQ para a coletânea INKSHOT, que sai ano que vem. Mas só no lançamento deste livro acabamos nos encontrando ao vivo pela primeira vez para uma conversá rápida pouco antes de ele ser conduzido por homens de terno preto para uma localidade confidencial.

Hector Lima: O que pesou na escolha exatamente desse elemento fantástico para a sua versão do clássico?

Lúcio Manfredi: Eu queria fugir do óbvio, que seria fazer da Capitu um zumbi ou do Dom Casmurro um vampiro. Não que eu tenha nada contra, adoro histórias de zumbis e vampiros, mas são as figuras do imaginário mais exploradas por essa vertente de releituras dos clássicos sob um prisma fantástico, e eu queria explorar outras possibilidades. Além disso, apesar de já ter escrito histórias de terror, me identifico mais com a ficção científica, e mais ainda com a literatura slipstream, que procura encarar a realidade quotidiana pelo prisma do fantástico, transitando entre os gêneros e cruzando fronteiras. Uma versão de DOM CASMURRO em chave de ficção científica é quase uma materialização do ideal slipstream, então a minha cabeça gravitou naturalmente pra essa direção.

HL: Qual a maior dificuldade em termos de estilo escrita dessa nova obra remixada?

LM: No início, foi manter a voz narrativa do Bentinho e, ao mesmo tempo, introduzir a minha própria perspectiva sobre a história. Bentinho é um narrador não-confiável, que não entende direito muita coisa do que acontece em volta dele e distorce outras coisas deliberadamente, características que eram importantes pra abordagem que eu pretendia dar. E depois, ele oscila entre o distanciamento irônico, o sarcasmo e o derramamento emocional, e essas flutuações dão um sabor delicioso ao texto do Machado, que seria uma pena perder. Mas, depois do primeiro terço do romance, a escrita começou a fluir com naturalidade e eu espero ter alcançado um equilíbrio entre a fidelidade ao original e o meu próprio ponto-de-vista.

HL: Os elementos Steampunk estão na moda da Literatura Fantástica atual. Por acaso sua obra lida com a reação da sociedade a uma tecnologia que ainda não havia sido inventada naquela época?

LM: Não. Eu gosto de steampunk mas, de novo, queria fugir do óbvio. Quando se fala em uma história de ficção científica passada no século XIX, o steampunk é a primeira ideia que vem à cabeça, e isso às vezes não deixa a gente perceber que existem outros caminhos igualmente interessantes e ricos, tanto pros autores quanto pros leitores. A única tecnologia que aparece no livro é alienígena e, mesmo assim, não é o foco principal. Como no original do Machado, o foco continua sendo a relação entre o Bentinho e a Capitu.

HL: Como vê a reação de eventuais puristas da Literatura que torcem o nariz para a esse tipo de releitura?

LM: Honestamente, é o que menos me preocupa. Puristas, sempre vai ter. O próprio Machado foi execrado pelos puristas da época, que o acusavam de imitar muito os autores ingleses. É a fábula do velho, do menino e do burro: não dá pra agradar a todos, inevitavelmente alguém vai torcer o nariz. O que é um direito desse alguém, diga-se de passagem. Se o cabra acha que misturar Machado de Assis com discos voadores é uma heresia, isso quer dizer apenas que este livro não é pra ele. Mas uma obra sempre acaba encontrando o seu público. E uma das definições de um clássico é a de que é uma obra que sempre possibilita novas leituras, visões diferentes. DOM CASMURRO E OS DISCOS VOADORES é isso, uma releitura de um clássico pelo prisma da literatura fantástica. E o fato de que o livro do Machado permita essa releitura só reforça (como se isso fosse necessário) a grandeza do original.

HL: Se adaptassem sua versão para o cinema, que atores brasileiros na sua opinião viveriam bem os personagens?

LM: Boa pergunta. Ainda não parei pra pensar sobre isso, mas acho que, para os papéis de Bentinho, Capitu e Escobar, eu preferiria atores novos, em vez de nomes consagrados.

Em breve a segunda entrevista da série com autores da coleção Clássicos Fantásticos.

[outros posts da série: Natália Klein]

[compre: DOM CASMURRO E OS DISCOS VOADORES]



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