Harvey Pekar e as melhores histórias


Uma homenagem ao quadrinista falecido há uma semana. Por Rodrigo Alonso, originalmente publicado no Sblargh.

Geralmente, as melhores histórias são sobre aquilo que elas não são.

Histórias de terror são sobre os medos e ansiedades: histórias de vampiros são sobre sexualidade, lobisomens e bruxas sobre puberdade masculina e feminina respectivamente, “Frankenstein” fala sobre a relação entre o natural e o não-natural, seja na questão do cientista que ultrapassa limites éticos ou do próprio monstro que, como tantas pessoas, é considerado como algo que não deveria existir e de fato não existiria senão pela corrupção humana.

Biografias e mesmo autobiografias de grandes nomes da história são histórias sobre povos, nações e épocas. Atualmente estou assistindo a série da HBO chamada “John Adams” [trailer], sobre o primeiro vice-presidente norte-americano e uma das peças essenciais por trás da independência daquele país.

A série emociona pela forma habilidosa pela qual contrasta o grande com o pequeno, como a guerra contra o império britânico e sua marinha na costa de Manhattan e a guerra contra o microscópico e ainda incompreendido vírus da varíola, assim como o contraste entre as enormes palavras da declaração da independência e os pequenos medos individuais.

E toda esse pedaço de história é contado refletido na figura do homem John Adams, o advogado, que se inspira na confiança de estar criando um governo feito por homens e respeitoso aos direitos naturais da humanidade, mas também pela sua propriedade e família ficarem à meio caminho entre Boston e o exército britânico que invade Massachusetts.

A responsabilidade de interpretar John Adams, de personificar a grandiosidade de suas idéias e palavras e a pequenez inerente de sua humanidade, é de Paul Giamatti e embora seja natural das obras de biografia de grandes nomes incorporar sua grandeza (David Morse projeta a aura de George Washington aparentemente sem esforço), Giamatti teve, anteriormente, um bom treinamento no menos-que-grandioso da humanidade: Harvey Pekar.

Algumas vezes, as melhores histórias são exatamente sobre aquilo que são: “Bom Dia, Tristeza” de Françoise Sagan é sobre uma garota; “O Poderoso Chefão” de Coppola é sobre máfia. “American Splendor“, de Harvey Pekar, é sobre Harvey Pekar.

Se histórias biográficas geralmente nos falam sobre povos, nações e épocas; então “American Splendor” deveria nos falar sobre algum momento dos anos 60, sobre Cleveland, sobre os Estados Unidos da América. Mas não há em “American Splendor” muito daquilo que nos faz entender a época como tipicamente os anos 60 e nada em particular que diferencia o mercado que frequenta em Cleveland do mercadinho que frequento no meu bairro de Santo André. Tampouco seria exato deixar isso tudo pra lá e dizer que essa é apenas a história de um homem, tornada interessante pelo efeito natural da lente de aumento.

As histórias de Harvey Pekar, com seu humor e mal humor, trazem uma espécie de graciosidade narrativa que opera pelo contraste, seja porque esse carrancudo impaciente de fato se importa com as pessoas e sinceramente ama a música que coleciona, seja por alguma observação que surge inesperada de uma anedota qualquer que ocorreu no seu cotidiano. Essas histórias dependem, ao mesmo tempo, do difícil trabalho em manter o interesse do leitor em uma história que é sobre exatamente o que ela é, com toda a pequenez que isso implica, como também dependem do também difícil trabalho em criar observações que sejam relevantes e não apenas anedotas.

É verdade que Harvey Pekar nos falou sobre velhinhas em supermercado, sobre a experiência no ônibus, sobre seus excêntricos colegas de trabalho, mas nós também acompanhamos o ano em que ele vislumbrou a morte, o momento em que ele adotou sua filha, o primeiro encontro com sua terceira esposa. Em um estilo de história em que o ponto focal é um indivíduo, Harvey Pekar nos ofereceu o pacote inteiro do que é ser um indivíduo, das pequenas anedotas aos grandes momentos.

Muito foi dito nesses dias após sua morte sobre o quanto ele se manteve autêntico por toda sua vida e sendo que sua vida eram suas histórias, elas também trazem consigo essa elusiva propriedade da autenticidade, que parece estar mais lá quanto menos se busca, mas de resto, não há tanto o que se dizer em seu obituário, uma visita à livraria e temos lá sua vida, não do ponto de vista do jornalista refletindo sobre acontecimentos e datas, nem simplesmente daquele ponto de vista por detrás dos olhos, mas do genuíno ponto de vista do artista que, usando a si próprio como espelho, nos garantiu algum vislumbre de eternidade.

Mais uma vez, obrigado, Harvey.



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