U2 3D registra o rock como deveria ser



O ano é 2006, e tudo começa com uma corrida. Desvinculados dos amigos e colegas que passaram a noite na porta do estádio, eles corriam o mais rápido possível por um corredor que parecia não ter fim. Alguns tropeçam nos próprios pés, outros perdiam a carteira, deixavam cair a câmera que não deveria estar ali ou trombavam com colunas que só podiam ser fruto de uma piada entre arquitetos e engenheiros que tentavam retardar a passagem.

Dobrando uma das últimas saídas do túnel de cimento, o prêmio era a luz daquele dia nublado iluminando o centro de um palco que parecia bom demais para ser verdade. Na grade a espera recomeçava até que, ao cair da noite, o sol desse lugar as luzes eletrônicas de um espetáculo megalomaníaco. Assim foi no ano em que assisti o U2 no Brasil e perdi minha carteira na corrida para pegar o melhor lugar possível entre 70 mil pessoas. E assim é o começo de U2 3D, filme de 2008 que mescla os shows feitos pela banda irlandesa em 2006 na América Latina e na Austrália, incluindo ali as duas fatídicas noites no Estádio do Morumbi em São Paulo.

Com uma qualidade sonora sem precedentes e um 3D que não te faz querer arrancar seus olhos de decepção, o filme é nada menos do que um show completo pelo preço de um ingresso de cinema. Com 14 faixas, incluindo alguns singles do disco de 2004, How to Dismantle an Atomic Bomb, U2 3D não é feito para os críticos da banda. Se as incursões do Bono na economia mundial, suas campanhas humanitárias e seu rock de estádio carregado de politicagens e mensagens de paz e amor não são sua praia, o filme que estreou em Cannes em 2007 seguramente não te comoverá.

Durando aproximadamente 1h30, a fusão dos shows latinos do U2 (foco nos realizados em março de 2006, em Buenos Aires) chega a consumir quase tanto quanto um espetáculo ao vivo da banda. Se é graças à qualidade das imagens ou à potência das canções, não dá para afirmar com certeza, mas a sensação de estar ali no escuro, muitas vezes na mesma altura da platéia – com cabeças tridimensionais saltando da tela e nos impedindo de ver Bono e seus companheiros com total nitidez – pode ser classificada como igualmente indescritível.

Quem canta junto (e eu me denuncio aqui!) irá definitivamente reviver a experiência de assistir o show ao vivo, chegando até a se emocionar com as antológicas interpretações de Sunday Bloody Sunday e Miss Sarajevo, essa última forçando Bono Vox a encarnar o próprio Luciano Pavarotti no meio da multidão de devotos.

Capturando artificialmente a atmosfera imprevisível de um concerto, a filmagem de U2 3D não abre brechas para desconfiarmos da sensação de que estamos sim diante de um show ao vivo, ali mesmo no cinema. Em nenhum momento é possível ver câmeras nas tomadas e a proximidade com o público contribui com freqüência para que a ilusão se mantenha até os últimos versos de With or Without You, canção que – ao contrário do show em 2006, encerrado no segundo bis com All I Want Is You – fecha o filme.

Quando as escadas do cinema se iluminam e as pessoas na sala se encaram meio atordoadas, a sensação é de que nós – fãs ou curiosos – acabamos de vivenciar algo que, como todo bom show, é certamente singular. Numa era em que o rock de estádio encontra dificuldades para encontrar novas estrelas, U2 3D cumpre bem o papel de documentar como esse alucinante gênero musical deverá ser eternamente lembrado.

Veja onde U23D vai ser exibido




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