Todos os caminhos levam a HARRY POTTER E AS RELÍQUIAS DA MORTE – Pt1



Como nasce uma ideia? De um tombo no banheiro ao pendurar um relógio ou fruto de um sonho numa madrugada febril? Raramente. Uma ideia nasce das experiências de seu autor, resultado de uma tempestade de referências acumuladas durante toda uma vida, misturadas a esmo numa espécie de roda da fortuna mental que sorteia partes de cá e de lá para formar uma coisa nova e, com sorte, crescer até se tornar uma construção original. Quando J.K. Rowling, autora do fenômeno literário “Harry Potter”, concebeu sua mais famosa criação muito se falou – e ainda se fala – sobre os méritos de sua ideia. Seriam os Dementadores reflexos dos Nazgûl de “Senhor dos Anéis”? Dumbledore representaria apenas uma atualização do Merlim das lendas arturianas? Harry Potter deve ou não deve seus óculos e sua vocação mágica à criação de Neil Gaiman que conhecemos como Tim Hunter? A resposta talvez seja “sim” para todas as questões acima, mas por isso o universo criado por Rowling deveria ser considerado menos original? Não, e aí vai a explicação:

Ciente de que uma ideia é resultado de milhares de pensamentos que pulularam pela Humanidade muito antes de termos esse entendimento, a criação de J.K. Rowling nada mais é do que o resultado lógico de uma combinação de inspirações que resultaram na construção de personagens marcadamente originais e que partiram de um mito heróico comum a todas as histórias do gênero. Não apenas inspirações literárias, mas também de experiências reais que, no caso de Rowling, incluem um período anterior ao sucesso, quando trabalhou no escritório londrino da Anistia Internacional, recolhendo depoimentos de vítimas de perseguição e tortura por regimes ditatoriais no continente africano. Fica a recomendação do discurso dado pela autora aos formandos de Harvard em junho de 2008 em que ela aconselha sobre os benefícios do fracasso e o poder transformador da imaginação.

Em seu sétimo livro e filme, Harry Potter não mais representa o jovem de 11 anos que se descobriu um dos maiores bruxos do mundo ao lutar contra um vilão não corpóreo de nome pomposo. Agora, a caminho de encontrar as tais “Relíquias da Morte”, Harry é um personagem notadamente tridimensional que se irrita com sua própria inabilidade de controlar o mundo ao seu redor, e em sua complexidade ele não está mais sozinho. Spoilers moderados a seguir.

Se uma ideia é um parasita resiliente, como Hollywood já tentou nos ensinar em outro de seus blockbusters, aquela que deu origem ao Potterverso tornou-se dona de si mesma há bastante tempo. Ainda que comparações continuem sendo feitas, não há dúvidas de que Harry, Rony e Hermione criaram vida junto aos fãs e caminham pelas próprias pernas rumando por uma sinuosa estrada. Do maravilhamento com uma escola incrustada num castelo mágico cheio de fantasmas benevolentes e corujas que serviam de correio para o cruel cerceamento da liberdade de ir e vir, o percurso trilhado por esses personagens aproxima-se cada vez mais de uma realidade que, dessa vez, é contada como um filme de terror. Com sangue nas mãos, Hermione Granger – forçada a se apagar da memória dos pais logo no comecinho da história – não encontra tempo para lavá-las antes de encantar a área ao redor com feitiços de proteção. Sequestradores e comensais a espreita não vão esperar que os ferimentos de Rony se curem, e Harry Potter não demonstrará paciência ao ser assolado pela culpa daqueles que morreram em seu nome enquanto carrega com ele e dentro dele pedaços da alma de seu arqui-inimigo.


O ponto de virada que marcou o afastamento da infância também marcou a evolução de personagens que se desgarraram de suas inspirações iniciais para virarem, de fato, ideias novas. Navegando por um oceano de coadjuvantes igualmente bem construídos, o trio de protagonistas que chegou vivo ao último capítulo dessa que não pode mais ser chamada trivialmente de “aventura” percebe que a separação feita entre mundo mágico e realidade já não faz mais sentido. Seja percorrendo as ruas de Londres, seja se perdendo pelos cantos do Ministério da Magia, não existe mais a sensação de segurança que antes deixava claro quais os espaços seguros para se pisar. Em Hogwarts – que mal pudemos ver nessa primeira parte do final – a situação se complica já que seu maior protetor não está mais presente. Coagidos pelos comensais misturados aos professores, os alunos não escondem sua rebeldia na única cena em que Neville Longbottom – possivelmente, o outro escolhido – os enfrenta de pé pelos corredores do trem Expresso.

Entre a fuga, a busca das horcruxes que mantém Voldemort imortal e a caça das relíquias que poderiam tornar seu possuidor o mestre da morte, a frustração toma conta dos protagonistas que brigam para se manterem amigos e, ocasionalmente, deixam que o mal humor tome conta de suas conversas. Resistentes a inclusões dos diretores, os fãs com certeza deixarão passar a emocionante cena de dança entre Harry e Hermione, tomada quase que instantaneamente por um silêncio sombrio que se espalha por todo o filme. Possivelmente, o mais silencioso da série até então.

Sem os rompantes de uma trilha sonora mágica para preencher as cenas, “As Relíquias da Morte” faz um bom uso das poucas palavras trocadas em aproximadamente duas horas e meia de filme. A ação dosada divide espaço com o tédio proposital da fuga, culminando na inevitável captura dos heróis e conduzindo o espectador a enérgica cena que definitivamente sinaliza uma ruptura com a adolescência mágica. Como um estranho num cenário ao qual não mais pertence, o elfo doméstico Dobby – ausente dos filmes desde a segunda parte, mas presente nos livros que se seguiram – retorna levando os espectadores no cinema a um misto de empolgação com tristeza. A voz doce e a aparência simpática do elfo destoam da mansão desoladora e das circunstâncias perigosas nas quais o filme se encerra. Em seu discurso final, Dobby se sacrifica no resgate dos amigos que conquistou, numa cena que tinha tudo para parecer inverossímil, mas que transborda realismo até um derradeiro funeral.

A somatória de tristeza, raiva e risos nervosos nos conduz a um final que ainda não é o que esperávamos, fazendo dessa primeira parte de “Relíquias da Morte” algo incompleto. Quem sai do cinema sai ciente de que em pouco mais de seis meses teremos a chance de revidar e transformar as circunstâncias trágicas que se acumularam até então em um final satisfatório. Final decorrente de uma ideia que começou como uma clássica jornada do herói, uma atualização das novelas de cavalaria que pega sim várias referências por seu trajeto, mas conseguiu, como toda boa obra de ficção, construir o seu próprio caminho até a originalidade inquestionável.

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