Spoiler: Pânico 4 assassina os anos 2000!


Pelo que me lembro, eu não era o único na sala. Comigo estavam amigos com idades entre 14 e 16 anos que se acocoravam no melhor canto possível daquele cômodo apertado.


Se estávamos confortáveis ou não, essa não era a questão já que logo ali, na televisão de meras 20 polegadas, testemunhávamos cenas nada agradáveis de adolescentes fugindo aos gritos de assassinos mascarados carregando facas ensangüentadas.

Embaçando a linha entre ficção e realidade, emulávamos choque e excitação enquanto assistíamos inertes ao reinício de um subgênero tão polêmico quanto o ‘slasher’. Numa fita VHS rodava “Pânico” de Wes Craven, diretor que voltou para nos espantar mais uma vez em “Pânico 4“, a quarta parte de sua saga suburbana.

[Assim como o título, o texto abaixo não contém spoilers sobre a trama, mas pode entregar elementos da narrativa]

Com 15 anos de distância entre o filme original e sua mais recente continuação, Wes Craven ainda se mantém fiel as regras estabelecidas pelo gênero. Recebidos de volta em Woodsboro, já não estranhamos mais os casarões vazios, a ausência inconspícua de figuras paternas e os hospitais que parecem não possuir funcionários trabalhando em turnos noturnos. Correndo pela cidade com seus celulares a postos, adolescentes que fingem não estar num filme discutem a metalinguagem que os cerca com ares declarados de comédia.

Em suas primeiras falsas aberturas “Pânico 4″ nos avisa que não deve ser levado a sério, ao mesmo tempo, pede discretamente para que olhemos com cuidado para o cenário cinematográfico que cerca o gênero do terror hoje em dia. A discussão constante travada entre personagens e espectadores não se esconde por trás de um enredo e nem tenta fazê-lo: Teria a criatividade atual sido assassinada a golpes de faca? Estaríamos nós numa Era em que nada de novo pode prosperar?

Marcados pela ascensão dos reality-shows, dos filmes de tortura pornô, e pela superexposição instantânea criada pela popularização da Internet, os anos 2000 não se surpreenderiam pelas regras que um dia definiram o terror. Se virgindade e bebedeira entre adolescentes deixaram de ser assuntos polêmicos para a sociedade americana, as novas vedetes do sensacionalismo precisam seguir a linha ditada pela cultura excessivamente midiática que valoriza, acima de tudo, a fama pela própria fama.


Cientes dessa ditadura do sucesso instantâneo, os personagens de “Pânico 4″ são construídos sem pano de fundo e quase sem identidade. A paixão pela cultura pop, antes marginal e representada no outsider Randy, hoje é partilhada por todos em festas disputadas que revolvem em maratonas de filmes de terror trash. A popularização do ‘geek’ se faz presente em cada um dos novatos, sendo incapaz de dar-lhes a distinção que antes era definidora de caráter. Esvaziados de emoção e carentes de traços de personalidade, os jovens massacrados pela faca do novo assassino serial agora despertam risos nervosos num público que não mais se choca, mas que se alimenta comicamente do horror, dentro e fora do filme.

Se em 1996, fazer um filme que mencionava os clichês e estereótipos do passado foi suficiente para renovar e projetar uma franquia, em 2011, refazer os passos do original deveria ser o passo lógico a ser seguido, entretanto, não é isso que Wes Craven e o roteirista Kevin Williamson gostariam que você pensasse. Enganados pela proposta de reunir o elenco sobrevivente dos originais com promissores atores da nova geração, fomos ao cinema pensando que, inevitavelmente, seríamos conduzidos a uma nova trilogia, capitaneada por rostos desconhecidos, cujo sucesso seria instantaneamente ancorado na bem sucedida empreitada dos anos 90.

No entanto, “Pânico 4″ não poderia ter se afastado mais dessa premissa, provando-se o exato oposto ao colocar na fala da personagem de Sidney Prescott que não se deve “mexer com o original” (tradução livre minha!). Ainda que em algum ponto dos anos 2000, Wes Craven tenha se convertido num diretor perfeito para o Intercine (esse mesmo, das madrugadas despretensiosas), seu novo trabalho faz de tudo para transmitir uma única e bem sucedida mensagem: não se pode mudar o passado, muito menos com um pálido remake.



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Goma de Mascar no Facebook

  • http://twitter.com/leciorabello Leco

    Eu adorei Pânico 4, fui de mau-humor esperando uma chatice e me surpreendi. Entendo seu ponto de vista, mas não vejo como poderia ter saído algo melhor do que saiu, uma vez que não podemos ignorar o rumo que a franquia levou com Pânico 2 e Pânico 3.

  • http://profiles.google.com/analuizapimentel Ana Luiza Pimentel

    Agora eles tem que lançar máscaras da Courtney Cox. Que bocarra medonha!

  • Anonymous

    falei pro Denis, quando apareceram as mãos de véia dela tive um pouco de pena de estarem mostrando.

  • Anonymous

    Botoxface em Pânico 5! Todo o terror que a falta de colageno tem a oferecer!

  • andré fernandes

    ótimo filme !!!!!!!não esperava esperava que panico 4 fosse algo realmente bom!mas me surpreendi ,foi melhor que o 2 eo 3 com certeza,uma nova triologia irá surgir ,realmente panico 4 vale a pena assistir .

  • Bruno Ivas

    a menina é a assassina ¬¬