SP Terror 2010: A CENTOPÉIA HUMANA


A maior armadilha que um diretor pode criar para si é estabelecer uma premissa irresistível para a platéia. Descendo até as profundezas do grotesco, Tom Six concebeu sua criação tal qual o Doutor Heiter idealizou sua “centopéia humana”. No entanto, quando a força imagética de uma tortura impensável é tão grande quanto o hype por ela alimentado, fica difícil conduzir uma história capaz de transmitir qualquer emoção que não seja somente agonia.

Independente de carteirinha, “The Human Centipede” bebe de diversas fontes sem necessariamente fazer referência a elas. Passando como original, o filme que se passa numa obscura Alemanha cheia de motoristas pervertidos, cientistas malucos, policiais que não pedem reforço e nenhum sinal de celular. Incapaz de cumprir o objetivo de entrar honrosamente para o zeitgeist pop cultural, o longa – fundamentado no clichê de duas turistas que saem para se divertir e encontram tudo menos diversão – não vai muito além do pesadelo criado por um cirurgião insano [e carente de sentido].

A verdade é que “The Human Centipede” peca por colocar todas as suas fichas em seu título: quão horrível seria fazer parte de uma centopéia humana, uma bizarra fusão cirúrgica que liga seres humanos da maneira mais degradante possível? Uma vez que a obra prima do horror fica pronta na tela – independente de seu absurdismo clínico – o que sobra para os espectadores é testemunhar um bom tempo de bestialização sem ao menos a esperança de reversão ou de vingança das vítimas torturadas.

Combinando assumidamente o horror de mangás japoneses com uma estética fria, ocidental e completamente despropositada, o filme peca por não fazer o que gênero normalmente faz de melhor: incitar o questionamento através do pavor. Com um único diálogo que acende uma meia-luz sobre o comportamento humano e a busca pela redenção, o filme se encerra num massacre caótico sem discutir de verdade os abusos da ciência, o papel da mulher ao resistir ao domínio masculino ou até a natureza dos maiores medos da humanidade.

Prometendo um espetáculo gore e entregando pouco menos de duas horas de uma única situação angustiante, “The Human Centipede” ainda não disse a que veio. Com uma seqüência anunciada para 2011 fica a dúvida: será possível descer mais e ainda ter uma história para contar?



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