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Sherlock Holmes diz: Elementar, meu caro Guy Ritchie
Chega aos cinemas brasileiros essa sexta-feira a mais recente adaptação das aventuras do personagem criado por Sir Arthur Conan Doyle, Sherlock Holmes. Como todo membro dos arautos da cultura pop, o detetive mais famoso de literatura é também o mais reinventado. Muitos de nós não o conhecemos diretamente pelos escritos do Conan Doyle, mas sim pelos filmes, séries e até mesmo por outros personagens que tem na base da lógica e da dedução um parentesco ficcional com o investigador.
Particularmente, conheci o Sherlock por um conto que nunca foi escrito por Doyle. Para todos os que lembram do exemplar clássico da Sessão da Tarde, “O Enigma da Pirâmide” (medo dessa cena), filme de 1985 dirigido por Barry Levinson e roteirizado com sucesso por Chris Columbus, aquela é a história definitiva que me apresentou (e a toda uma geração de crianças) ao personagem, levando-me aos livros e séries que até hoje são reimaginadas.
Portanto, se lhe disserem que o “Sherlock Holmes” de Guy Ritchie não é assim tão fiel a lembrança original faça-me o favor de desconsiderar, pois no reino dos mitos – sejam eles religiosos ou pop – não existe uma só origem e jamais haverá uma única versão.
O ponto de partida do novo filme é bem diferente de tudo o que já lemos ou assistimos sobre Sherlock Holmes. Ao invés de seguir a tendência do cinema e recontar as origens do personagem, o diretor nos leva ao começo de seu declínio. Bem estabelecido com a Scotland Yard e já nas graças do inspetor Lestrade, o Holmes vivido por Robert Downey Jr. se encontra no ápice de sua fama numa Londres na virada do século. Sua facilidade em resolver os mais complexos casos o levam a ficar por meses sem emprego, já que se torna cada vez mais difícil encontrar um adversário à altura. Não bastando seu estado de inquietação com a falta de trabalho (algo que remete a algumas das melhores histórias de Conan Doyle e aos piores momentos do detetive, forçado a recorrer a outros vícios – dorgas, mano! – para estimular sua mente), Sherlock tem que lidar com o noivado e a partida de seu fiel companheiro, o Dr. John H. Watson, interpretado por Jude Law*.
A separação dos parceiros, não por acaso, torna-se o centro nervoso da comédia, causando nos fãs uma espécie de desconforto irresistível que Doyle jamais teve o prazer de redigir. O “bromance” entre Sherlock e Watson flerta com os de um matrimônio, acabando por roubar a atenção da trama que não é nada diferente de tudo o que já vimos antes.
Se uma coisa é certa nas histórias do detetive inglês será sempre o embate entre o misticismo e a razão (tá, Robert Langdon?). Com exceção de seu maior adversário, Holmes sempre está as voltas com magia até prová-la ser nada menos do que ciência aplicada de forma original. Portanto, quando conhecemos o antagonista Lorde Blackwood (Mark Strong) com suas alegações de poderes ocultos e usos de magia negra, sabemos que é uma questão de tempo para que tudo aquilo que parece inexplicável seja iluminado pelo raciocínio infalível de Sherlock.
Por isso, para incrementar a base requentada de todas as histórias holmesianas, Guy Ritchie se utiliza dos truques em sua manga. Na nova versão, os poderes lógicos e dedutivos são muito bem aplicados pelo detetive em lutas clandestinas. Ok, quando você começa a assistir a primeira cena, pensa imediatamente: isso não vai funcionar. No entanto, depois de meia hora de socos e chutes narrados em slow motion, você até se permite levar pelo lado ‘Mickey O’Neil’ do Sherlock moderno. No que se refere ao lado steampunk da coisa, não se preocupe, Ritchie não navegou nas águas perigosas do filme da Liga Extraordinária. Nada de Nemo-móvel…
A inclusão de Irene Adler (Rachel McAdams está ficando mais bonita a cada filme ou só eu achei isso?) acrescenta também um ponto interessante na continuidade de Conan Doyle. Nunca Irene foi representada tão bem na figura da adversária infalível e apaixonante. Justamente dessa vez, no auge de seu divórcio com Watson, surge uma forte versão feminina para desviar nossa atenção de TANTAS indicações de que existe entre os dois mais do que uma amizade. Coincidência né? Teve gente que não gostou.
Liberdades à parte, esse novo Sherlock Holmes não será conhecido como a melhor versão que você já viu, mas segue muito bem a cartilha mostrando-o como um gênio da Ciência, mestre dos disfarces, cheio de contatos e com aptidão para se colocar em perigo para chegar a solução de um bom mistério**. E tudo isso com direito ao clássico flashback do final em que Holmes desmistifica todos os truques do vilão (e não adianta reclamar ou chamá-lo de clichê, o flashback foi praticamente INVENTADO por Conan Doyle, se essa cena não existisse, seria como ter um Superman sem o vôo).
Não dá pra negar que Guy Ritche fez um filme divertido. Curiosamente, ele me fez pensar que assim como o James Bond de Daniel Craig foi reinventado sob influência de Jack Bauer, o Sherlock Holmes de Robert Downey Jr. deve bastante ao ator Hugh Laurie e seu Gregory House – o médico não passa de um Holmes moderno, né? -, tanto em seu comportamento auto-destrutivo, quanto na sua amizade com Watson (ou seria Wilson?) que ultrapassa os limites da normalidade em prol do nosso divertimento.
E que venha o Professor Moriarty na seqüência, praticamente anunciada como a carta do coringa que o Comissário Gordon deu ao Homem-Morcego no final de Batman Begins… Hollywood não tem tempo a perder!
*Watson foi muito além da oftalmologia nesse filme, não?
**Gostaria muito de ter visto – fan service, mal ae – um dos aspectos mais legais do personagem que é o fato dele não saber tudo. Num dado diálogo de “Um Estudo em Vermelho” (a história em que a dupla se conhece e é minha favorita), Watson tenta explicar para Holmes sobre os planetas ao redor da Terra. Recusando-se a ouvir, Sherlock defende a tese de que a memória é uma coisa finita e nem ele tem tempo ou espaço na cabeça pra guardar tudo, então tem certas coisas que ele prefere esquecer e por isso, não se considerava um gênio de maneira nenhuma. Acho que esse Holmes mais humilde não tem mesmo vez fora dessa cena.
***E quem sentiu falta de “Elementar, meu caro Watson” levanta a mão! \o
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