Resenha: Não pense muito no roteiro de ILHA DO MEDO, ou você pode enlouquecer


Falar mal do trabalho de um cineasta do calibre de Martin Scorsese é tarefa que requer desprendimento quanto ao conjunto de sua obra. Como qualquer artista, o diretor criado no Queens nova-iorquino nunca deixou de estar sujeito aos altos e baixos, às produções maiores e aquelas nem tanto. Ilha do Medo, sua mais nova parceria com o ator Leonardo DiCaprio, é um filme que busca a atmosfera do grandioso, das homenagens, e se perde ao colocar a direção acima do bom andamento do roteiro.

Adaptação do livro homônimo (considerando o título original em inglês, Shutter Island), é a terceira obra do escritor norte-americano Dennis Lehane a ganhar a telona — Sobre Meninos e Lobos (Mystic River) e Medo da Verdade (Gone Baby Gone) foram os primeiros.

A produção conta a história do agente federal Teddy Daniels (DiCaprio), que, juntamente ao novo parceiro Chuck Aule (o sempre mediano Mark Ruffalo), segue para a Shutter Island, onde está localizado o hospital para criminosos insanos Ashecliff. Lá ele irá investigar a misteriosa fuga de uma presa/paciente responsável por assassinar os filhos, mesmo que o psiquiatra-chefe da instituição, o Dr. John Cawley (Ben Kingsley, salvando o dia), não pareça muito disposto a ajudá-lo.

O principal problema do filme parte da sinopse dada acima: ela muda duas ou três vezes no decorrer da projeção, e quem assistiu algum dos trailers sabe que o roteiro promete muitas coisas que esse plot não aborda. Normal, considerando que se trata de um suspense e as reviravoltas são mais que necessárias. Faltou cadência, no entanto, para que elas acontecessem com naturalidade. O destrinchar do plot principal vai se dando de maneira incongruente, e as pistas falsas que recebemos só nos ajuda a descobrir sobre o que trata a história já na metade do filme.

Diferentemente dos bons e grandes filmes de Scorsese, quando o roteiro serve para que o diretor destile todo o seu virtuosismo, a direção aqui não anda de mãos dadas com o script. A ótima trilha sonora imperativa, capaz de acuar o telespectador, parecia denunciar que certas expectativas não seriam atendidas. Do mistério da fuga mirabolante à conspiração governamental, chegando ao clímax que tem um flashback fantástico mas embalado num conceito batido — e, como dito, bem claro na metade do filme —, fica claro como o diretor se perdeu nas homenagens aos gêneros que constam na produção.

Com exceção de Ruffalo, que não se compromete, vale destacar a entrega dos atores ao universo do filme. DiCaprio é uma crescente só, explodindo no flashback final, e dando aquela piscadela imaginária para a audiência no encerramento dúbio. Kingsley tem função interessante, começando como vilão e terminando, de certa maneira, como mocinho. Jackie Earle Haley (Watchmen, Human Target) tem uma participação clichê, mas eficiente. Já Michelle Williams, que faz o papel da esposa de DiCaprio, impressiona, seguindo o caminho inverso do personagem de Kingsley.

Tais atuações não se perdem por completo, claro, já que Ilha do Medo não é um filme necessariamente ruim, mas indeciso. Depois de Os Infiltrados, ótimo filme elevado a patamares maiores graças a um Oscar dado tardiamente, era de se esperar que Scorsese variasse numa nova produção. Pena que houve um deslize ao tentar algo mais elevado.

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