RESENHA: DE VOLTA PARA O FUTURO – O JOGO, EPISÓDIO 1


DE VOLTA PARA O FUTURO é o único box de DVD que comprei na vida. Isso talvez tire minha credibilidade sempre que eu tentar falar de cinema, mas diz algo sobre os filmes, sobre essa qualidade que eles têm de cativar tanto até alguém que não é muito inteirado nessas tais imagens móveis. Os filmes usam aquilo que há de melhor em qualquer ficção científica que é o fantástico simplesmente como pano de fundo interessante para algo completamente mundano – e se você pudesse ver seus pais crescendo? Vislumbrar eles em momentos de fraqueza e hipocrisia, como os seus?

Além disso, o filme tem lá sua dose de anti-clichê: o cientista maluco não é malvado, ele é até carismático. O jovem herói precisa não conquistar a mocinha, aliás, ele precisa que a mocinha seja conquistada pelo nerd esquisito. Mas também há sua dose de clichê: há um vilão, recompensas materiais por atos bondosos e, afinal, o poder do amor. Tudo se mescla direitinho, o roteiro funciona como um relógio, eu o usaria em uma aula sobre como escrever um bom roteiro.


E aí temos a tarefa de continuar com uma triologia que, pra todos os propósitos, acabou certa. O doutor encontra amor, Marty volta para casa são e salvo – com valioso conhecimento moral sobre si próprio, o que impede uma tragédia futura – e a máquina do tempo está esbugalhada em algum precipício do velho oeste, para jamais correr o risco de impedir algum genocídio. Nisso, o jogo já começa inteligente: vemos a famosa cena em que o cão Einstein se torna o primeiro viajante do tempo, mas do ponto de vista da câmera de Marty. Logo o jogo te dá a opção de selecionar diálogos e eu me senti estranhamente recompensado por saber exatamente qual fala utilizar para manter tudo rolando como acontece no filme. Mas afinal, algo estranho ocorre e você percebe-se controlando um confuso Marty McFly tentando resolver o primeiro mistério do jogo.

Começar o jogo com uma cena do filme é um imenso teste para os atores; parte de mim quase desejou que eles tivessem recortado de uma vez o áudio do filme. A voz de Cristopher Lloyd está claramente diferente – esse tal de envelhecimento humano que insiste em arruinar as coisas – e A.J. Locascio faz um ótimo trabalho imitando Michael J. Fox, mas como é a exata mesma cena do filme que já foi ouvida tantas vezes antes, a inevitável diferença fica lá exposta sob essa lente de aumento. Não demora muito pra se acostumar, entretanto, e a história rapidamente te suga o suficiente para que isso não faça tanta diferença.

O jogo é de um gênero chamado “Point and click adventure”, no qual não é possível morrer ou realizar uma ação que faz com que seja impossível progredir. Ficar parado em alguma seção sem saber o que fazer significa que o jogo está te desafiando corretamente e a satisfação vem de notar algo que te dá uma solução, pensar “hum, será que isso dá certo?”, tentar e, pimba, dá certo! Para quem está familiarizado com os outros jogos da desenvolvedora Telltale, a dificuldade não pareceu particularmente maior ou menor que a série SAM & MAX.


Há um sistema de dicas caso você esteja demasiadamente frustrado e há também algo que te indica o próximo objetivo, o que me soa um tanto a companhia subestimando o seu público, pois com qualquer atenção mínima a história te diz o que, em geral, você deve fazer em seguida. Mas dá pra desligar isso e mesmo ele ligado não fica atrapalhando o jogo. Além disso, por se passar em um universo mais ou menos realista – pelo menos bem mais realista do que a história de uma dupla de detetives formada por um coelho psicopata e um labrador noir – as soluções nunca são nada altamente esquisitas como usar ventriloquismo com um fliperama hiperativo para convencer os clones de que há brinquedos nos circuitos dele. De maneira surpreendente para esse estilo de jogo, se algo parece fazer sentido, geralmente faz e isso dá uma boa sensação de que você está sendo recompensado pelas suas idéias ao invés de sua persistência em clicar pelo cenário.

Falando em clicar, essa é a parte que mais incomoda no jogo. Geralmente nesse tipo de jogo você clica no cenário e anda até lá ou clica no objeto e anda até ele. Em DE VOLTA PARA O FUTURO, quando você quer apenas se mover pelo cenário, precisa ou usar as setas ou clicar em Marty, arrastar um pouco o mouse e ainda mover a seta que aparece na direção que quer andar. É mais intuitivo do que parece pela descrição, mas esse gesto geralmente tão simples de andar pra lá e pra cá nunca parece muito bom. Até o final do jogo, eu fazia uma curvinha pro lado errado antes de ir pro certo; como não é um jogo que exige reflexo ou fazer as coisas no tempo certo isso não atrapalha tanto, mas é sempre uma irritação sentir que você não tem um bom controle do personagem que supostamente está controlando.

Mas, tirando isso, é altamente prazeroso o quanto todo o resto funciona. A trilha do jogo não é exatamente a mesma do filme, mas é excelente como ela aparece na hora certa. Você anda pra lá e pra cá sem saber o que fazer e só ouve a musiquinha de fundo, então faz algo de certo, o que causa uma cena de ação, e a música imperceptivelmente aumenta e faz parte da cena, para logo voltar a se esconder no fundo enquanto você volta a controlar o personagem. Essa trilha, aliada às vozes, realmente dá um ar de legitimidade ao jogo.


E é o roteiro que realmente vende essa legitimidade. Com consultoria do próprio Bob Gale, DE VOLTA PARA O FUTURO – O JOGO, é uma história onde viagem no tempo serve de pano de fundo para algo completamente mundano – um filho que precisa de força para sair debaixo das asas do pai e é tocante ver a história desenrolar, pois assim como acontece nos filmes, há aquela maestria na escrita onde você ri quando deve rir e chora quando deve chorar. Nada é exagerado a ponto de você cair de rir ou precisar de lencinhos para todas as lágrimas, mas você sorri, se emociona e torce para que esses personagens conquistem seus objetivos, não só porque você está cansado de ficar parado encarando esse cozinheiro sem fazer idéia do que fazer em seguida, mas também por se importar com os personagens. Afinal, são exatamente os mesmos personagens que te encantaram há tantos anos atrás e nos convencer disso soa não só como uma conquista da Telltale, como também um presente.

DE VOLTA PARA O FUTURO – O JOGO está sendo vendido no Steam, Xbox Live e PSN. Ele vem em 5 episódios e cada um deve demorar cerca de 2 horas para serem completados, dependendo – claro – do quão rapidamente você descobre as soluções. Comprar o pacote completo dá a tranquilidade de já ter o jogo, mas é possível comprar episódio por episódio na medida em que são lançados. Não é tanto spoiler quanto senso comum dizer que ele acaba em um cliffhanger e há de se profetizar que assim será até o último episódio. O jogo também é com quase certeza o mais próximo que vamos chegar de uma continuação oficial dos filmes e nesse sentido dá pra dizer que ele se deu bem melhor do que a continuação oficial de muitos filmes (olhando pra você, INDIANA JONES); há o probleminha com os controles e vez ou outra você vai sentir que as vozes não estão bem perfeitas, mas no geral elas te convencem completamente, inclusive com a excelente trilha sonora e o ótimo roteiro puxando suas cordinhas emocionais. É um prazer estar de volta.



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