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olha que nerdice: aqui estou eu na madrugada de sábado escrevendo um post sobre o filme mais nerd da temporada. o que eu mais estava estava esperando [olha a quantidade de posts a respeito aqui na Goma] – e o que mais me decepcionou até agora. não me entenda mal, eu adorei o filme como aventura espacial-futurista. a Flávia adorou também, mas ficou chateada ao virar pra mim no final dos créditos [quando toca uma versão atualizada da música-tema do seriado dos anos 60 em que o filme é baseado] e perguntar se eu tinha gostado, só pra ver minha cara torta: =S – eu estava atacado de gastrite, mas ela não afetou meu cérebro fanboy.
dois avisos antes de você continuar a ler:
1- DAQUI EM DIANTE TEM SPOILERS DO FILME INTEIRO, INCLUINDO O FINAL; LEIA POR SUA CONTA E RISCO.
2- eu assisti a todos seriados e filmes do Star Trek durante minha infância, adolescência e idade adulta. meu conhecimento não é enciclopédico ao extremo mas, sim, acho que sou um trekker, fazer o quê. pelo menos tenho uma namorada.
talvez se eu assistir de novo possa gostar mais do filme, mas temo que o gosto ruim que deixou ao final possa ficar mais forte. não me entenda mal, tem muita coisa pra se gostar nesse filme:
- a primeira hora é linda, com os personagens sendo apresentados e sua relação estabelecida;
- os poucos momentos de embasbacamento diante de algo grandioso, como quando vêem a Enterprise atracada numa estação espacial;
- os vários easter eggs espalhados pros fãs [dos bordões dos personagens até o cachorro do Almirante Archer - da série ENTERPRISE - é mencionado];
- Karl Urban como Dr. McCoy – o que melhor pegou o espírito do papel original;
- a presença do Capitão Pike [protagonista, no lugar de Kirk, do piloto rejeitado da série antiga];
- o figurino e os efeitos especiais, impecáveis e que dá uma cara ótima a designs antigos;
- a cena inicial e dramática em que o pai de Kirk comanda a USS Kelvin;
- a cena de Kirk, Sulu e um ‘camisa vermelha’ [notórios bucha-de-canhão] em queda-livre;
- a presença de Leonard Nimoy como o Spock velho, uma das poucas coisas emocionantes.
- a sensação de aventura divertida com bom humor [tem momentos realmente engraçados];

mas depois dessa primeira hora a coisa desandou demais pra mim e achei muita coisa um desperdício. tentar emular o visual dos anos 60 foi legal, mas Star Trek não é só sobre isso. aperta o cinto porque lá vem mimimi.
- quase todas as séries, da original às derivadas [tirando VOYAGER], independente da década em que foram produzidas souberam mostrar essa sensação de maravilhamento diante do desconhecido, do grandioso. no espaço tem motivos de sobra pra isso: uma nave que passa, um buraco negro, uma estrela, uma explosão, nuvens de energia, iluminação espiritual – uma espécie de zen meio hippie daquela época, que seguiu adiante na franquia. nesse filme só tem isso em duas cenas: quando o pai de Kirk bota a Kelvin em rota de colisão com a nave do vião Nero e quando a nave dos recrutas chega na estação em órbita e vêem a Enterprise;
- continuando o raciocínio anterior, tudo acontece muito rápido. não sou velho demais pra reclamar de edição rápida: é uma aventura de verão moderna e tem mais é que ser assim mesmo. mas a seqüência de fatos teoricamente importantes rola de uma forma tão rápida que além de te deixar desnorteado não te prende. as cenas não têm peso nem a importância que mereciam; JJ Abrams é um cara vindo de TV e parece não ter ainda se acostumado com a grandeza do cinema. o filme tem jeitão de piloto de TV e não há lens flares suficientes que deixem as imagens mais relevantes do que são. várias resenhas que li [as poucas que falaram mal] disseram que o filme parece feito por um comitê vulcano, de tão frio que é;
- o que me leva a comentar o acaso: se os tais roteiristas Alex Kurtzman e Roberto Orci achavam que simplesmente ter aquela galera alistada e servindo junto na nave era banal demais? a solução pra fazer os encontros terem uma certa importância é serem… meio forçados. Spock conhece Kirk de um jeito legal, na Frota. Kirk conhece McCoy na nave que leva os aspirantes pra Frota – legal, mas já meio forçado. Kirk dá em cima de Uhura no bar – todos os alistados da Enterprise moravam perto assim? Chekov e Sulu simplesmente estão lá, ok. mas Kirk encontrando o Spock velho depois que é exilado pelo Spock novo e foge de uns monstros foi demais da conta – muito aleatório. e depois ele tropeça no Scotty no posto avançado da Frota no meio da geleira. o conflito entre Kirk e o jovem Spock [mais forte que com o vilão Nero] é resolvido pelo Spock velho dando dicas pro jovem capitão, empurrando o roteiro adiante através de paradoxos.
- esses encontros reforçam a idéia colocada ao longo de todo o filme de que o Destino é foda bragarai e guia nossa vida. Star Trek ao longo das décadas nunca negou esse conceito, mas acima de tudo martelava que o espírito humano triunfa quando desafiado. OK, velhas discussões sobre Determinismo e tal, no LOST tá cheio disso [e o fim desse série me dá mais medo depois de ver esse filme]. mas Determinismo é uma coisa, Preguiça de roteirista é outra.

- falando em preguiça, o vilão Nero é um problema e nem é culpa do Eric Bana. JJ Abrams tirou a cena dele fugindo da prisão Klingon onde passou boa parte dos 25 em que esperou o Spock velho vir do futuro pelo buraco negro de onde ele também saiu pra se vingar do genocídio de seu povo, cuja culpa ele atribui a Spock – que tentou salvar seu planeta, sem sucesso. quiseram dar a Nero uma motivação e força ao estilo Khan, mas nem de longe ele consegue. no máximo é uma ameaça do nível do Shinzon, o clone de Pìcard em NEMESIS. o V’ger do primeiro filme da franquia é sensacional perto dele.
- o que mais me fodeu a vida: esse vilão destrói Vulcano e a mãe do Spock morre no processo. repito: destrói Vulcano e a mãe do Spock morre no processo. comoassim, Brasiu? a mãe do Spock e seu planeta de origem aparecem muitas vezes na série clássica, nos filmes, nas séries derivadas. a desculpinha solução dada pelos gênios escribas é fazer os personagens perceberem que estão numa realidade paralela. WTF? como percebem isso? também não sei. uma das justificativas é Spock dizer que o pai de Kirk nunca morreu nas mãos de um romulano. ah, então tá. eu não sou de defender cânones cronológicos de uma franquia, mas não vem com essa pra cima de mim. se não tivesse rolado isso eu não teria levado essas outras coisas chatas em consideração e teria adorado o filme.
- no fim do filme [é, vou quebrar uma regra pessoal e contar o fim] o Spock velho fica no passado, assim de boa. ele acha melhor ajudar os vulcanos restantes a se reerguerem do que ir com a Enterprise mais pro passado tentar impedir Nero de matar o pai de Kirk e destruir todo seu planeta. em toda a história de Star Trek mudavam o passado numa boa por uma causa maior, quando ele era ameaçado por vilões desse jeito. se era pra re-introduzir uma franquia por sua origem nunca contada com tantos detalhes, pra que alterá-la logo de cara? como fã antigo sou minoria, mas me pareceu muito idiota deixar elas-por-elas.
- não sou xiita de adaptações: acho que tem de adaptar mesmo. mas pra que tentar adaptar pra começo de conversa se você não vai aproveitar o espírito da coisa, justamente o que seria o motivo da adaptação? e pra que sacrificar o planeta-natal do Spock no processo?
adoro os filmes do Batman do Christopher Nolan e não são adaptações extremamente fiéis aos gibis, mas a essência do sentimento original e a emoção que evocam estão lá. o mesmo infelizmente não posso dizer desse filme aqui.
como falei acima, o filme é muito divertido, vai ter muita gente vendo e comentando merecidamente e vale ser visto no cinema, se você acha que essas coisas não vão te incomodar [e se saber o final não vai te incomodar mais ainda - desculpe mas precisei].
vale muito mais ver o STAR TREK – THE MOTION PICTURE, a primeira ida da tripulação original aos cinemas, em 1979:
vida longa e próspera pra você, JJ Abrams, o suficiente pra poder acabar o LOST e desfazer na continuação do Star Trek essa cagadinha.

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