Realidade de Mascar: Porque nem tudo que reluz é Dourado


Os participantes podem mudar, mas a batalha pela relevância permanece a mesma a cada nova edição do Big Brother Brasil. Cruzando audaciosamente a metade do ciclo de quase três meses, o BBB não precisa mais se esforçar tanto para vencer essa guerra. O ditado ‘Falem mal, mas falem de mim‘ já pode se sagrar o vitorioso desde os 77 milhões de votos declarados no programa da última terça-feira.

Por algumas semanas, eu hesitei em dar continuidade a essa coluna sem ter um ponto para explorar. Talvez a complexidade dos participantes fosse um dos temas possivelmente destrinchado. Fato é que nesse BBB 10, graças a volatilidade dos instáveis moradores da casa, está difícil enxergar com nitidez o lado iluminado da Força. Se antes minha confiança em Lia como a vilã da edição era inabalável, hoje sinto como se tivesse levado uma rasteira ao perceber que faltam ali heróis que a tornem realmente uma inimiga. A antipatia generalizada que sinto por Eliéser, Michel, Anamara, Fernanda, [continue a lista], me impede de botar a mão no fogo por qualquer participante.

E você pode perguntar: Seria isso ruim? De maneira nenhuma. O grande trunfo dessa nova edição do Big Brother é justamente o elenco errático e excessivamente humano que se apoderou da trama de tal modo que não sabemos qual será seu final. Isso para uma novela da vida real que sempre nos pareceu tão roteirizada é, por si só, um motivo de louvor.

Ainda que esteja um pouco entristecido pela minha falta de confiança generalizada nos personagens desse ano, devo fazer aqui um exercício de neutralidade – por falta de um conceito melhor. A exaustiva discussão homo-hetero-fóbica motivada tanto pela participação de um núcleo abertamente gay quanto pela presença de Marcelo Dourado pode até parecer desproposital, mas presta um serviço muito grande a rotina dos brasileiros. Trazer a polêmica para o debate cotidiano só tem a acrescentar, mesmo que expondo trágicos extremismos dos dois lados. A catarse do público com a aceitação ou não de certas posturas é um esforço sem precedentes da televisão em trabalhar sim a mente dos seus espectadores, fazendo-os pensar, por si mesmos, a realidade televisionada.

Ou seja, em 2010 a culpa pelas opiniões polêmicas não será atribuída a um canal, um participante ou um time de edição, mas sim ao próprio receptor. E será na relação dinâmica do conflito entre receptores e o programa de TV que se estabelecerão os pesos de certas pautas na agenda do dia-a-dia e, consequentemente, serão lhe atribuídos papéis e importâncias até que a máquina da sociedade possa continuar a evoluir.

Certa vez citei o clássico (e manjado) texto do filósofo Walter Benjamin, “A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica”, numa dissertação e fui acusado por uma professora de deturpar o conceito original. Como ela provavelmente não lerá essa coluna, volto a usar o argumento de que quando Benjamin declarou que o fim de aura de uma obra se daria a partir de sua reprodutibilidade [o termo indústria cultural não surgiu por acaso], o pensador não poderia antever duas frentes: a primeira, a da democratização da arte – debatida exaustivamente na Academia – e a segunda, a da criação dos reality-shows que filmam e transmitem o inédito 24 horas por dia, utilizando-se desses ineditismos para gerar narrativas e consequentemente expor uma nova manifestação artística e midiática.

Pois sim, professora, eu considero o BBB arte e o fato dele estimular o debate e ser discutido no cotidiano só firmam mais meu pensamento. Que venha a segunda metade da décima edição, estarei aqui para discordar, rebater e confrontar.

PS: Como o título já sugeria, não manifestarei aqui minha opinião sobre Marcelo Dourado. Tenho minhas convicções e debaterei com quem quer que seja sobre a minha dificuldade de aceitá-lo enquanto vencedor. Empurro com a barriga e deixo a questão, como sempre, para um post futuro…

[compre: livros de Walter Benjamin]



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