Realidade de Mascar: Oito anos atrás a televisão brasileira tomava seu rumo


Se Lia discutiu com Elenita, se Dourado andou chorando pelos cantos ou se Tessália milagrosamente escapou do paredão essa semana, saiba que nada foi em vão. Em 29 de janeiro de 2002 o fator que determinaria por anos a fio os eventos da casa “mais vigiada do país” foi introduzido já na estréia do reality-show[bb] que continua até hoje mobilizando a audiência no Brasil.

Durante a década de 1990 o Você Decide e o Intercine esboçaram uma tímida interferência do telespectador nos rumos da programação, mas foi em 2002, com apenas 1 mês de Big Brother, que a televisão brasileira deu um salto quântico em interatividade, estabelecendo contato com o país inteiro. Indo além do telefone e introduzindo a internet[bb], o reality abriria precedentes que expandiriam a realidade tanto dos que se colocavam a assistir quanto dos que se submetiam aos olhos e julgamentos de uma audiência maciça.

Para os que participaram da primeira edição do BBB, a analogia exagerada – que Buzz Aldrin me perdoe – seria a de ter ido a Lua[bb]. Saindo da terra do anonimato, Kleber, Cristiana, André e companhia serviram como cobaias de um experimento nada científico. Os que se lembram das primeiras transmissões ao vivo (e eu sou um deles) não esquecem uma das cenas exibidas a exaustão na reprise da TV a Cabo em que Leka tomava consciência – cercada pelos demais participantes no antigo gazebo – de que não importava a posição na qual deitasse, nas palavras dela, a partir daquele momento sua bunda[bb] seria vista em 360 graus por 1 milhão de anônimos assistindo.

A frase que pode até parecer de mau gosto é adequada a um programa que se usa também da sensualidade de seus participantes, tal qual qualquer produto audiovisual que almeje a aceitação pop. E eu não digo popular, é pop[bb] mesmo. Desde antes de o Cinema virar indústria, protagonistas eram – e ainda são – escolhidos não só pelo seu talento, mas por sua beleza. O espetáculo de corpos bonitos e rostos relativamente memoráveis faz parte mais velha estratégia de sedução que perpetua a Humanidade.

Bonitos, empolgados e completamente despreparados, os participantes da edição de 2002 não tinham estratégias, cunhavam jargões a esmo e sequer desconfiavam que frases como “a máscara vai cair” e “voto em fulano por falta de afinidade” se tornariam os clichês clássicos de um programa que completou esse ano dez edições.

Nós, a audiência, igualmente aprendíamos e nos acostumávamos com a realidade novelizada que poderia ser virtualmente manipulada pela nossa vontade ao permitir ou não que um participante ficasse. É fato conhecido por todos que, estúdios, canais de TV[bb] e até mesmo editoras confiam em pesquisas de opinião para decidir os rumos de seu trabalho, ainda assim, o processo que sempre correu por baixo dos panos perdeu gradativamente o sentido conforme o reality-show se intrometia nas conversas de elevador. O debate público sobre os valores morais apresentados naquilo que, edição após edição, foi se assemelhando a um enredo com começo, meio e final feliz, graças à lapidação carnavalizada dos realizadores.

Aprendendo com os erros e evoluindo com os espectadores, o BBB se cristalizou como um evento de verão que mobiliza até mesmo aqueles que tentam escapar dos tentáculos lovecraftianos[bb] que somente a televisão e o cinema souberam nutrir tão bem. Os participantes – todos um dia parte da audiência – aprenderam a mascarar intenções, esconder agendas e jogar um jogo tão perigoso que poderia abalar seriamente suas reputações mesmo após o fim da atração.

Envelhecendo rápido sob efeito das câmeras, ex-participantes tiveram também que aprender a lidar ou com a reentrada no anonimato ou com a possibilidade de voltar aos holofotes em outro veículo.

No BBB 10, cinco deles tiveram a possibilidade de retornar e, quem conseguiu, agora revela na telinha que os anos a mais só fazem bem para atores com personagens definidos. Implacável, o público, que se cansa fácil e tem o carma bíblico[bb] de não perdoar, aguarda o momento de tirá-los para deixar claro que essa é uma novela sob seu controle.

Mesmo que a casa se divida em tribos, que diferentes perfis de participantes sejam adicionados ao caldeirão e que provas como a maratona de dança coletiva já não existam mais (não é do objetivo da atração criar provas que unam a casa como acontecia nas primeiras edições), o Big Brother mantém em seu núcleo a idéia de que o foco desse novo milênio deverá ser – pelo menos na esfera do espetáculo – o indivíduo[bb].

Numa época em que nós postamos no Youtube, criamos nossos blogs e entramos em inúmeras redes sociais na tentativa de demarcar um território que seja somente nosso, o Big Brother Brasil justifica seu sucesso ao tentar emular na televisão[bb] a idéia de que cada um de nós possui um papel e, juntos, manipulamos figurativamente cordas que afetam esse real sempre inédito.

Semana que vêm: Eliane e sua capacidade de criar cenários de briga e reconciliação, Tessália e Michel descobrem-se tanto comentadores quanto jogadores e o que vai acontecer agora que existe um Poder Supremo na casa…



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  • http://mpadrao.blogspot.com Márcio

    Só uma correçãozinha: em vez de 2001, é 2002, no segundo parágrafo.

    No mais, ótimo texto!

  • http://meadiciona.com/deniscp/ Denis Pacheco

    verdade Márcio, tá corrigido.
    valeu!

  • PAULO

    ESTE TIPO DE PROGRAMA, JÁ ESTÁ MUITO ULTRAPASSADO. MAS INFELIZMENTE, A GRANDE MAIORIA, CURTE VER ESSE TIPO DE PORCARIA.

  • Ramiro

    E a Casa dos Artistas 1 ano antes? e o No Limite? e o 20 e poucos anos da MTV?

  • http://meadiciona.com/deniscp/ Denis Pacheco

    Não podíamos votar pela internet em nenhum desses.
    Nenhum deles atingiu 45 pontos de audiência ou chegou a ser transmitido ao vivo mais de uma vez por semana.