Paul McCartney mostra que não existem unanimidades no pop



No meio do caminho entre a Lua e o palco, me peguei desconcentrado por alguns instantes. Ao lado da escada que dava acesso a uma das saídas da arquibancada, eu contive a emoção até onde deu. Paul McCartney fazia seu show carregando na palma de sua mão uma multidão de 60 mil pessoas ávidas por um olhar, um aceno ou um cumprimento do eterno Beatle (sem o “ex”, por favor).

Dentre as milhares de vozes que mesclavam cantoria e gritaria – me incluo aí nessa segunda – reparei que nem todos os presentes no estádio estavam ali para encher a bola da superestrela que até tombo levou em nome do showbiz. Ao meu lado na escadaria uma mulher, que deveria ter aproximadamente minha idade, permanecia encostada de costas para todo aquele alarde.

Intrigado pela presença indiferente à comoção, acabei me distraindo entre uma ou outra faixa do Wings e não resisti a dançar meu caminho até ela, sem quaisquer segundas intenções, devo acrescentar. Fora da fileira, mas perto do corrimão cimentado, percebi que sua atenção estava focada numa única coisa, obviamente mais importante do que qualquer Paul McCartney: contar dinheiro.

Dedilhando um maço de notas de 10, 20 e 50 reais, ela permanecia negligenciando hits para garantir que o lucro das vendas de bebidas e salgados havia sido suficiente para encerrar o dia. Aproveitando o papo em prol da paz que rolava a alguns metros de distância, me desvencilhei das bexigas brancas que flutuavam entre mim e ela, tomei coragem para fazer minha própria tentativa de jornalismo-pipoca e perguntei:

-Não gosta do Paul?

A resposta não veio. O olhar fixo nas notas e a pouca luz na escadaria combinados com a barulheira agora ainda mais beatlemaníaca colaboraram para que eu fosse deixado no vácuo. Tomando um novo fôlego, reformulei minha tática de aproximação e arrisquei ser novamente ignorado:

-Hoje rendeu bastante?

-Ah hoje rendeu!

Sucesso! Voltei meu olhar para o palco, Paul estava no piano e daquele ângulo só podia vê-lo no telão. Tá certo, hora de arriscar mais algumas perguntas, mal não vai fazer:

-Já dá pra garantir a semana num dia de show assim?

-Dá pra garantir até mais que isso, viu.

Fomos interrompidos por um “Mocinha! Aqui ó” não muito distante. Sem querer atrapalhar, dei um passo para o lado e voltei meus olhos e ouvidos para o britânico que fazia charme sem diferenciar os VIPs dos coitados, como eu, que torciam para que ele saísse logo daquele piano tão distante da borda do palco.

Só de esguelha espionei a venda da bebida pensando se conseguiria um tempinho para refazer a pergunta que tinha feito no começo daquela conversa. O jogo com o freguês foi bem rápido, dinheiro, latinha aberta e copo de plástico passado de mão em mão sem derrubar uma gota. Coisa de profissional, claro. Ela não parecia brincar em serviço, mesmo durante um dos maiores shows do ano, talvez o maior na opinião dos 60 mil esperneantes espalhados pelo estádio.

Voltando para o seu lugar enquanto ajeitava o troco no maço de notas recém contadas, finalmente algo chamou sua atenção para o palco: fogos. Era a hora de viver ou deixar morrer e o espetáculo visual foi irresistível demais para ignorar.

-Bonito, né?

Percebendo que não teria sucesso em importuná-la por mais do que alguns minutos, aproveitei o mote do ambiente ao meu redor e chutei pro gol:

-E aí, não curte o Paul McCartney?

-O cara aí? – Respondeu sem nem olhar - Ah é da hora, mas não vim pro show não. Tô trabalhando, né?

Entendi. Paul tinha levantado do piano e era hora de encerrar aquele interrogatório mais do que desnecessário. De saideira, me forcei a falar mais alto que os fãs, dando as costas para o show por meros 30 segundos pra disparar:

-Como é que você consegue trabalhar e nem dar uma dançadinha?

De canto de olho a vendedora me olhou guardando o maço no bolso e finalmente soltou um sorriso ao dizer:

-Se ainda fosse um show com o Ringo…

Abaixei minha cabeça em reverência sem poder me despedir, outro “Moça, tem água?” nos interrompeu e não mais a vi naquela escadaria. Ainda faltavam 40 minutos para o final do show, Paul McCartney esbanjava saúde e a platéia em breve se recusaria a ir embora, como se estivéssemos todos num papo de boteco com o próprio cantor. Quer dizer, quase todos, alguns estavam ali a trabalho, mais preocupados em ganhar o suficiente para garantir não apenas a semana, mas talvez um extra para um show que realmente queriam ver. Quem sabe com o Ringo.

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