Virtuality – The Edge of Never


Aos poucos, a televisão americana tenta recolocar em suas grades de programação um gênero que ciclicamente enfrenta altos e baixos desde os anos 60, a ficção cientifica. Fruto de uma dessas tentativas de emplacar o sci-fi nas noites dos grandes canais de televisão, “Virtuality”, é mais uma interessante, mas infelizmente ineficaz, promessa.

A premissa por si só mistura outros produtos da ficção. É inevitável não enxergar o longa “Sunshine” (um dos meus favoritos do agora oscarizado Danny Boyle) em cada um dos corredores da gigantesca Phaeton, a primeira nave interestelar criada em 2050 e projetada para procurar vida inteligente em outros sistemas solares. Entretanto, durante seu curso pela vastidão do espaço, seus 12 tripulantes recebem a notícia de que o planeta que deixaram para trás pode não estar lá quando eles retornarem.

Sem muita explicação, Ronald D. Moore, produtor renomado da versão recente de Battlestar Galactica e seu spin-off Caprica (destaque também para sua longa experiência em Star Trek, Roswell e a fantástica Carnivàle), não esclarece qual exatamente é a mazela da vez. Imagens cataclísmicas são exibidas a esmo para sensibilizar os astronautas de que sua missão assumiu a máxima prioridade: a salvação da humanidade.

Com 10 anos a frente de atingir um planeta habitável, os astronautas têm que suportar o peso da sua recém imbuída responsabilidade, ao mesmo tempo em que lidam com si próprios, num espaço confinado, cheio de egos inteligentes e inflamados. Para ajudá-los a superar seu isolamento espacial, um sistema de realidade virtual que mescla “Matrix” e “Holodeck” providencia as mais diversas fantasias e zonas de escape, funcionando como uma terapia durante a jornada.

Dentre os personagens destacam-se o carismático capitão Pike (conhece esse nome?) interpretado pelo estranho-rosto-familiar de Nikolaj Coster-Waldau, a botânica Rika (Sienna Guillory), o Dr. Roger Fallon (James D´Arcy), Sue Parsons, a piloto da Phaeton, interpretada pela sempre excelente Clea DuVall e o casal de astrofísicos gays Val Orlovsky (Gene Farber) e Manny Rodrigues (Jose Pablo Cantillo). Todos imersos em conflitos pessoais que vão desde histórias traumáticas de abusos sexuais até a revelação de um controverso relacionamento extraconjugal dentro da própria nave.

Até aí, um piloto de ficção cientifica com elementos clássicos conhecidos, entretanto, e se todo esse drama fosse capturado pelas câmeras da Phaeton, editado por um produtor a bordo da nave e reenviado a Terra no formato do “ultimate reality-show”? Eis que surge o elemento que diferencia “Virtuality” do roteiro ordinário e a posiciona como uma complexa e interessante mescla de crítica à própria televisão e a recepção da sociedade aos novos formatos de entretenimento.

Não bastando as horas e horas de conflitos internos, pesos na consciência e debates morais sobre a missão da Phaeton, “Virtuality” bagunça ainda mais o elemento humano ao introduzir um perigo virtual. Dentro da realidade de escape dos astronautas, uma entidade imaterial espreita e aterroriza os tripulantes, fazendo-os questionar a própria terapia e a própria realidade, já que seus traumas no mundo virtual e no mundo real não parecem assim tão diferentes.

Cogitando debater em profundidade os sentidos de lealdade, traição, ordem e até mesmo vida após a morte, “Virtuality” prometia ir muito além do seu piloto (que, apesar de longo, aglomera tantos acontecimentos e tantas possibilidades que chega a atordoar ou a cansar o espectador), fazendo o que melhor faz a ficção cientifica em qualquer que seja a época: criticar sob uma cortina futurista a sociedade e os comportamentos do presente.

Sem previsão de efetivamente virar uma série devido a baixa audiência (conceito cada vez mais relativizado em se tratando da televisão americana), “Virtuality” permanece como um tele-filme sem final que, quem sabe, inspirará novas e mais bem resolvidas tramas de ficção fantástica.



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  • http://www.twitter.com/roger_brandao Rogério Brandão

    a pergunta que não quer calar: qual graça você vê naquele twist tosco do sunshine? hahahahahaah… bora p/ uma mesa de bar p/ discutir. XD

  • http://meadiciona.com/deniscp/ Denis Pacheco

    Ahhahhahahhaa
    Nao eh exatamente no twist q eu me divirto. Gosto da situacao do filme, gosto daquele elenco metade oriental, gosto da fotografia, da cena em que eles observam mercurio e da ideia “dannyboyleana” de q o “vilao” eh sempre um dos nossos, rs

  • http://www.twitter.com/roger_brandao Rogério Brandão

    só agora li de cabo a rabo o texto e pensei: PQP, transformaram o sunshine em série. mow chupinhação pelo que entendi.

    o ‘hung’ que promete. comédia com gostinho amargo. thomas jane mandou bem no ep 01. depois que assistir me fale as influências da série.

  • http://bit-hunter.net/cafedamanhadoscampeoes/ Pablo Casado

    Tecnicamente, Sunshine é ótimo. Mas aquela história, meu Deus.

    Mas fiquei curioso de ver essa série aqui. E o Hung também.