O redemoinho punk do Rise Against no Brasil


Não dá muito bem para descrever a sensação de estar numa enorme fila aguardando um show. Se a banda é uma de suas favoritas (e geralmente é, afinal você se colocou numa fila por ela e está pagando para isso), a situação fica ainda mais complicada.

Primeiro você observa o céu e vê as chances de o tempo virar enquanto você está fora da casa de shows, ali, exposto. Logo em seguida, se conforta com o fato de que não é mais o último da fila – uma multidão agora lhe segue, todos em sua indumentária característica, indicando que estão ali por um propósito em comum.

Sozinho no seu lugar, você passa a reparar no visual de seus colegas incidentais e questiona o fato de não estar usando uma camiseta da tal banda. Não demora para perceber que muitas outras pessoas estão usando camisetas de outras bandas, e o critério da aleatoriedade se estende a limites nunca dantes navegados. Num show de punk rock – esse que aguardo na enorme fila que já dá a volta na quadra – vale Ramones, vale Metallica, vale Rammstein, vale Sinatra, val… Sinatra? Pois sim, vale tudo. Perdendo uma boa oportunidade de me destacar na fila com minha camiseta dos Gipsy Kings [Love and Liberté, Tour de 1993], me contento em vestir uma blusa preta sem estampa, e calças jeans bem ao gosto de Conner Kent.

Conforme o tempo passa e o passo começa a tomar velocidade, a ansiedade aumenta e sua relação íntima com a banda vem à mente. Como já declarei em posts anteriores, meu passado no colegial envolveu uma mal sucedida aproximação com os skatistas da turma, apesar de não ter feito uso do meu skate na época (sim, eu comprei um), o gosto musical absorvido pelo contato acabou, de alguma forma, me marcando. Entre fitas k7 com singles gravados da trindade Bad Religion, Pennywise e NOFX, encerrei minha adolescência adotando o punk rock acelerado como trilha sonora particular e não muito bem associada à minha imagem.

Já distante do ensino médio, mas ainda carente de bandas que me lembrassem a época, adotei em 2003 os caras do Rise Against como salvadores do meu apreço pelo hardcore. Na época, o segundo disco Revolutions per Minute serviu de marco para uma nova fase pessoal, mas foi mesmo em 2006, com The Sufferer & The Witness, que o vocalista Tim McIlrath e o resto da banda realmente me ganharam como devoto. Lotado de singles, o quarto disco do Rise Against foi o que levou muitos dos presentes ao show do último sábado, 26, ao Carioca Club em São Paulo.

“Nossos fãs do Brasil têm nos pedido para tocar aqui por anos. Nós finalmente conseguimos nos organizar e mal posso esperar para honrar o seu pedido”, declarou Tim McIlrath numa entrevista por e-mail pouco depois de ter aterrissado em São Paulo. Fã de Sepultura e declaradamente pedindo desculpas por não conhecer mais da cena punk brasileira, o vocalista do Rise Against não hesitou em falar do novo disco [Endgame], prometendo e cumprindo desvendar um de seus novos singles no show de São Paulo. “O novo álbum é sobre o desmantelamento da civilização e como a falta de atenção para com as advertências sobre o estado do planeta resultaram em desastre. Em vez de pedir ao ouvinte para salvar o mundo, ele assume que falhamos”. Entre tentativas de conscientização e mensagens de esperança sobra espaço para outros temas que “incluem a homofobia, a disparidade econômica, o cinismo, Nova Orleans, como também alguns momentos mais pessoais”.

Agorafóbico em condicional, não sou muito fã de shows, mas decidi ir a esse sozinho por estar ciente de que me sentiria em casa na multidão. Entre turmas de colegas da escola, grupos de tatuados e amigos cujas bandas se inspiravam no som tocado pelo Rise Against, o público ali presente tinha em comum uma admiração verdadeira pela banda. Diferente de concertos em festivais – cuja pluralidade de fãs sempre desgasta a força de uma ou outra banda –, o Rise veio para fazer uma apresentação pequena e intimista. O calor no local talvez tenha sido um tanto mais íntimo do que havíamos planejado, mas poucos ali se importaram de verdade com o suor inerente aos pulos e gritos em quase 2 horas de músicas aceleradas.

Simpático com os fãs, McIlrath fez questão de dar uma palhinha de sua poderosa voz durante o show de abertura da banda Berri Txarrak, capitaneada pelo empolgado Gorka Urbizu, diretamente do País Basco. Combinando um setlist de sucessos com uma ou outra canção de seus primeiros dois discos, o Rise Against fez em sua primeira visita ao Brasil o que prometia fazer há 10 anos: entusiasmou seus fãs. Entre redemoinhos punk – dizer ‘roda’ seria uma atenuação grosseira –, tentativas bastante perigosas de mosh e jatos d’água atirados pelos próprios integrantes da banda na galera, sobrevivemos nos apoiando não apenas em nossas pernas, mas principalmente nas letras afiadas que discursavam sobre amor, suicídio, guerra e as contradições do mundo do Trabalho.

Antes do show, Tim McIlrath deixou de lado a guitarra, seu principal instrumento político, e me falou sobre o mundo pós-Bush e a Era Obama. “Eu estou feliz que Obama acabou com o estrangulamento do Bush à América. Mas eu acredito que ele é muito mais centrista ou até mesmo mais de direita do que muitos esperavam. Estou animado para ver a reforma da saúde finalmente fazendo progresso, e eu ficaria mais animado se ele reduzisse o tamanho do orçamento militar e o envolvimento americano no Oriente Médio. Fiquei feliz pelo fim da política ‘Don’t Ask, Don’t Tell’ no exército, mas espero que ele não tenha medo de corrigir os erros das administrações anteriores.”

Sobre o mundo em que vivemos, a posição dele e da banda, que é mundialmente conhecida pelos seus marcantes posicionamentos políticos, é esperançosa. “Tudo o que está acontecendo neste mundo tumultuoso nos dá força para cantar e nos rebelarmos contra”, acredita. “Em uma época em que o jornalismo se tornou uma indústria claramente com fins lucrativos, o Wikileaks, por exemplo, foi uma posição corajosa e talvez a última fronteira da responsabilidade. Das revoltas no Oriente Médio até os barcos que cruzam os mares do sul para perseguir baleeiros japoneses, os arquitetos do futuro estão em cima daqueles que tentam impedir o progresso.”

Entre trombadas, versos de protesto, pisões no pé e mais alguns litros de suor que encharcavam o piso frio e bastante escorregadio, fomos conduzidos a um final apoteótico capaz de nos fazer esquecer por alguns minutos o fato de que aquela noite, com a banda ali tão pertinho, estava inevitavelmente para acabar.



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