O fim não é o fim em HARRY POTTER E AS RELÍQUIAS DA MORTE – Pt2


Aniversário de 11 anos. No lugar do bolo, poeira. Ao invés de abraços, broncas. Debaixo da escada, tudo o que ele podia fazer era esperar que seu mais secreto anseio fosse atendido: um dia ele encontraria um lugar, longe dali, no qual ele seria querido, teria amigos e com sorte uma família. Sua vida seria diferente e seu final seria feliz.


Sete anos depois, suas mãos tateiam o chão em busca de um pedaço sem graça de madeira. Ao seu redor, o mundo que ele desejou para si sendo transformado em destroços. A poeira aspirada enquanto rasteja pelo chão é mais pesada do que aquela que caía dos degraus quando seu primo pesado decidia pular em cima deles. Com o corpo doendo após ter, literalmente, voltado da morte, Harry Potter conclui que devemos mesmo tomar cuidado com o que pedimos, mas acima de tudo, devemos lutar para não perdermos tudo aquilo que conquistamos.

Em Harry Potter e as Relíquias da Morte – pt 2, a magia deixou definitivamente de ser sonho infantil e se tornou uma arma de destruição em massa nas mãos das pessoas erradas. Entre heróis e vilões, o universo de J. K. Rowling abre pouco espaço para os que trafegam no meio. Tachados como covardes, aqueles que oscilam entre os lados de um muro em ruínas representado pela Escola de Magia mais famosa da Literatura, se encontram em pânico durante os momentos finais da aventura na qual o garoto que dormia debaixo da escada almejou para si.

Tendo que lutar para se manterem vivos a todo o momento, o trio de personagens principais retorna a escola para declarar o fim das aulas e o começo de uma sangrenta batalha final contra a opressão de Lord Voldemort e seus Comensais da Morte. Marcadamente antipático, o vilão de Rowling não possui tantos fãs no mundo real quanto na ficção, indo assim contra a corrente anti-heróica de inimigos carismáticos que povoam o panteão da cultura pop.

Arrogante, agressivo e teatral em excesso, Voldemort arregimenta seus acólitos através do medo e da paranóia. Estar ao seu lado é considerado uma decisão esperta para aqueles que planejam viver até (talvez) amanhã. Sua aparência asquerosa é tão organicamente repelente que até mesmo suas vestes absorvem as características de sua maldade e se estendem torturando os personagens ao seu redor naquela que é uma das mais tristes tomadas desse violento final.

Se de um lado, a repulsão causada por Voldemort atinge limites nauseantes, a atração que sentimos pelos personagens “do lado certo” dessa fábula moderna atinge a devoção religiosa. Não será fácil permanecer sentado pelas mais de duas horas de Relíquias – pt2 sem se entregar as lágrimas no momento em que seu corpo e mente já não conseguirem mais segurar.

Se você, como eu, é um leitor da série de livros e, de certa forma, cresceu junto a todos esses personagens, o choro – incompreensível para todos aqueles que escaparam dessa febre – já estava planejado em seu inconsciente. Do ponto em que fechamos as páginas do último livro até a sessão da meia-noite cujo ingresso comprado com antecedência foi nossa prioridade nas últimas semanas, você e eu sabíamos que assim que as cenas que lemos se materializassem na tela grande, o berreiro (discreto) seria aberto.

No que se refere a mim, foi particularmente difícil ver Neville Longbottom caminhando pelas passagens secretas que permitiam a entrada em Hogwarts. Carregando no rosto as marcas de tortura suportada nos meses em que a escola esteve na mão dos Comensais, o jovem que poderia ser o protagonista desse enredo tem seus melhores momentos na tela representados nesse filme específico. Daí pra frente, a defesa mística da Escola, a invocação dos soldados, o resgate na Sala Precisa e a espada de Gryffindor sendo tirada do chapéu diante do maior dos perigos foram naturalmente pratos cheios para a choradeira silenciosa.

Preenchido não somente pelos acontecimentos do derradeiro livro, a escolha de flashbacks e trilha prestam uma homenagem discreta aos 10 anos de sua própria cinematografia. Dirigido novamente por David Yates, Relíquias – pt2 não é um filme que pertence somente a ele. Estão ali as marcas de todos aqueles que tiveram a chance de contar um episódio da série à sua maneira. Das transições sofisticadas criadas por Alfonso Cuarón, do código alinhado de vestimenta pensado por Mike Newell até o tema inocente e mágico introduzido por Chris Columbus, o capítulo final de Harry Potter tem tudo e mais um pouco para encantar seu público, afinal, faz-se necessário reconstituir a ilusão criada nos sete filmes anteriores para poder destruí-la com tanta beleza.

Sem muitas novidades para contar já que a trama dessa segunda parte havia sido quase que inteiramente esgotada na primeira, Harry, Rony e Hermione não mais perdem tempo tentando entender onde tudo deu errado ou como tudo poderia dar certo e partem para a ação ininterrupta num conflito que resulta em diversas vítimas fatais. Dedicado aos capítulos finais dessa longa saga, o filme acrescenta apenas um ponto de virada quando nos conduz fielmente até as memórias de Severo Snape, o único personagem ainda vivo que poderia solucionar o enigma final enfrentado por Potter.

Violento como deveria ser, mas esperançoso e, de certa forma, até ingênuo – fazia tempo que não víamos Harry ser aplaudido em Hogwarts – a segunda parte das Relíquias da Morte faz de tudo para abrandar o sofrimento dos fãs que o assistem.

Com pouquíssimos alívios cômicos e momentos de tensão de sobra, o roteiro, mergulhado em questões sobre vida e morte e carregado com 10 anos de informações sobre aquele mundo, vai se despedindo da mesma maneira em que as torres, pontes e salões de Hogwarts perdem sua cor e encanto à medida que se transformam em destroços chamuscados. Entre os corpos estendidos pelo caminho estão alguns rostos terrivelmente familiares, sejam de alunos que iam de uma sala de aula a outra enquanto nosso trio principal lutava contra basíliscos e montava em testrálios rumo à Londres, sejam de casais, amigos e irmãos que nos deixam órfãos de sua companhia durante momentos difíceis em que a guerra parecia perdida.

Ainda assim, para todos os que acompanharam a história do garoto que sobreviveu, nada estava perdido até que a última troca de feitiços entre Voldemort e Harry fosse violentamente realizada diante das ruínas de uma escola quase irreconhecível. Entre o discurso esperançoso de Neville Longbottom e o duelo final, a mensagem que todos sabíamos que iríamos encontrar nessa conclusão é a de que não importa o quão árdua tenha sido a batalha, ela nunca será o fim da história, mas sim o começo de incontáveis narrativas, mesmo que não possamos conhecê-las.

Depois do choro e do sorriso final antes dos créditos rolarem na tela, você talvez experimente uma sensação de dormência no corpo. Não haverá nada de errado com sua saúde ou sua cadeira, as saídas estarão ali iluminadas e você poderá se levantar a hora que quiser… Só que você não vai querer fazer isso de imediato. Ao seu lado, dependendo do quão investidos eles estiveram nos últimos anos, os demais espectadores tentarão segurar mais lágrimas, enquanto você repetirá para si mesmo que é apenas um filme, baseado numa série de livros para crianças, que cresceu com você, mas não é real. Nem poderia!

Apesar disso, tanto para mim quanto para você, o mundo complexo criado por J. K. Rowling, composto de palavras inventadas capazes de produzir resultados literalmente mágicos, vai nos parecer tão real quanto às cadeiras daquele cinema. Entretanto, as luzes se acenderão, a história vai parar de ser contada, as lágrimas serão enxugadas e teremos que seguir em frente, pois nós lemos e sabemos que agora tudo ficará bem. Será seguro voltar para casa e continuarmos com nossas vidas.

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  • Rosegomes

    Parabéns, o seu texto é ótimo!
    Obrigada por compartilhar.

  • Srta Bia

    Denis, adorei o texto. Muito mesmo! É a despedida de uma parte de nossas vidas, pessoas que acompanharam por tantos anos os livros e os filmes. A cena com Neville e a espada é a que mais espero com certeza. Porque mais que Harry, Rony e Hermione, Neville representa a sobrevivência pura. Alguém que teve os pais torturados e mortos e cresceu sendo o garoto tímido da escola, mostra que os bravos e corajosos surgem quando mais se precisa deles. Até caiu uma lágrima enquanto lia o texto, não quero nem pensar quando o filme acabar.

  • Rafael Campos

    A crítica mais sensata e bela que li sobre todos os filmes de Harry Potter. Sou fã também por saber que ele desperta textos como esse.

  • Anonymous

    Somos todos fãs aqui, valeu gente :P

  • Anonymous

    Somos todos fãs aqui, valeu gente :P

  • Raphilde

    Parabéns, seu texto é muito emocionante
    percebe-se que saiu do fundo do coração parabéns!!! xD

  • http://twitter.com/dierkes Chris Dierkes

    chorei um pouquinho aqui :,)

  • http://twitter.com/paulinhaaline Paula Romano

    Lindo texto, obrigada por ele! :)

  • Dark Zero X

    Embora não goste de assistir os Harry Potter,acho interessante os textos e comentários publicados sobre a obra…a meu entender o que se encerrou foi a Saga de Harry Potter e seus amigos, porém a História de Hogwarts pode continuar através daqueles que os sucederem, mesmo sendo os seus familiares ou aqueles que poderão se inspirar no Legado da Família Potter e cia…Seja como for quais serão as surpresas preparadas por JK Rowling no futuro?Alias o que falta para essa geração celular/smartphone/game/internet é fantasiar um pouco…

  • Rickmartini

    Avada Kedavra!!!

  • Felipe

    Sem dúvida melhor narrativa que já li sobre Harry Potter. .. descrição perfeita dos sentimentos sentidos rsrs..parabéns me emocionou novamente.