Não apague as luzes, Ninjas Assassinos espreitam nas sombras


Que me perdoem as máquinas homicidas, os macacos falantes e Robert Neville, mas se um holocausto nuclear varresse a vida do planeta Terra nenhum deles sobreviveria tão eficazmente quanto um ninja. Ninjas vão além das baratas no quesito resistência. Escondendo-se nas sombras, eles se aproveitam de todas as brechas para cumprir sua missão assassina, decepando alvos antes que possam soletrar a palavra “shuriken”. Mais letais do que qualquer virus, ninjas são assassinos silenciosos para os quais não existe vacina e o único jeito de combatê-los é com uma dose de seu próprio veneno: outro ninja.

Pouco impressionado? Você não está só, pois essa é a pouco impressionante história de Ninja Assassino, filme que estréia hoje nos cinemas brasileiros. Com a promessa de muito sangue, o longa dirigido pelo australiano James McTeigue [V DE VINGANÇA] entrega justamente aquilo que se espera dele: pancadaria (entre ninjas).

Mirando num público que não manifestará qualquer descontentamento quando seu filme favorito não for indicado ao Oscar, Ninja Assassino joga um apanhado de referências de ação no liquidificador, tentando tirar da mistureba uma história minimamente exeqüível. Raizo – interpretado pelo ator coreano Rain [o Taejo Togokhan de SPEED RACER] – é um jovem órfão adotado por um clã milenar de ninjas assassinos. Treinado para matar desde a mais tenra idade, ele resiste a dessensibilização paramilitar de seus anos na escola de artes marciais, rebelando-se contra a figura paterna do mestre Ozuno [o veterano Shô Kosugi] quando perde o amor de sua vida, Kiriko.

Ao fundir inúmeros elementos arquetípicos para contar a história de um matador arrependido (de Jason Bourne pra baixo), NINJA ASSASSINO extrai o mais ralo caldo das boas referências nas quais fora baseado. O roteiro assinado por Matthew Sands e J. Michael Straczynski [criador da impactante série BABYLON 5] parece propositalmente não fazer muito sentido, na tentativa de não irritar a platéia com milongas dramáticas ou amarrações inteligentes.

Para os que conseguem – ou desejam – ver além do fiapo de trama, NINJA ASSASSINO é uma colagem de tudo o que faz do cinema de ação algo atemporalmente excitante. Estão lá o ponto de virada em que o herói toma um posicionamento moral na defesa de inocentes (exatamente igual ao que vimos recentemente em BATMAN BEGINS quando Bruce recusa-se a matar pela Liga das Sombras), a cidade futurista e chuvosa, fusão de uma homenageada Hong Kong (que lembra vagamente as tomadas noturnas do soturno HAK HAP estrelado por Jet Li) com a modernosa Berlim, e a aura fascinante do guerreiro solitário representado nos inúmeros personagens de Takeshi Kitano.

Entretanto, a nobreza das referências acaba perdendo espaço para a tentativa de suntuosismo visual, herdada dos seus trabalhos de McTeigue como diretor assistente em produções cujo foco eram os revolucionários efeitos especiais [trilogia MATRIX]. Verdade que não é a primeira vez que o australiano recebe materiais ricos em referência, mas acaba se deixando levar por sua preocupação estética [vide o terrível INVASORES].

Até entendo que para cada transposição de um gênero não-ocidental haja conflitos e perda de sentidos na traduçao. Tal como acontece com conceitos ocidentais quando transportados para o oriente – quem assistiu os animes TRINITY BLOOD ou ANGEL SANCTUARY pode bem dizer a confusão com a qual o catolicismo romano se fazia representar no contexto japonês -, mas a verdade é que é difícil perdoarmos quando a homenagem tem um resultado tão raso.

Com um elenco de apoio igualmente fraco – Naomi Harris, a Tia Dalma de PIRATAS DO CARIBE, mal consegue disfarçar a descrença na própria personagem – NINJA ASSASSINO peca por querer representar o mais puro cinema de ação, acabando por se transformar apenas num pastiche de filme de luta que tenta, em vão, emular uma bela plástica ao gore típico do mais sanguinolento subgênero das artes marciais.

Ainda assim, se para você a chance de ver lutadores destroçando-se uns aos outros na telona supera qualquer fracasso no campo da originalidade, vá lá, NINJA ASSASSINO tem pelo menos o compromisso com seu divertimento. E não se preocupe com críticas, elas sumirão como ninjas na sombra assim que as luzes do cinema se acenderem e sua memória começar a apagar o que acabou de assistir.

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