Macross Frontier – mecha, música e kabuki no espaço


Macross Frontier, incursão mais recente no universo criado por Shōji Kawamori, durou 25 episódios, exibidos no Japão entre abril e setembro de 2008. A produção se deu em comemoração aos 25 anos da série original, Super Dimension Fortress Macross, sendo uma continuação direta a esta, ao OVA [Original Video Animation] Macross Plus e à série Macross 7.

Essa é uma das provas de que não há franquia imune aos altos e baixos dos roteiros, à presença constante de clichês e às eventuais deturpações de uma mitologia estabelecida — sejam nas histórias em quadrinhos, animações, séries de TV, livros e filmes.

A história transcorre durante o ano de 2059: boa parte da humanidade, juntamente a seus aliados Zentradi, viaja pelo espaço em avançadas frotas coloniais, compostas por naves gigantes que simulam ambientes urbanos e rurais e são acompanhadas por escoltas militares, em busca de planetas habitáveis. Macross Frontier é uma delas, que navega pelo centro da Via Láctea com outra preocupação: repelir os ataques das criaturas conhecidas como Vajras.

É com esse pano de fundo que atuam, como de costume em todas as produções no universo Macross, o trio de protagonistas que irá se envolver num imbróglio amoroso a se resolver apenas no final da história — Alto Saotome, 16, estudante do curso de pilotos da academia Mihoshi e ex-ator de sucesso de uma tradicional família de atores de teatro Kabuki; Sheryl Nome, 17, cantora pop conhecida como a fada galáctica e sucesso em todas as frotas coloniais; e a serelepe Ranka Lee, 16, parte humana e parte Zentradi, fã de Sherly e aspirante a cantora.

Para quem nunca assistiu nenhuma das séries, OVAs ou movies da franquia, Macross Frontier não é necessariamente um mau ponto de partida. Os 6 episódios iniciais, por exemplo, começam com flashbacks e narrações em off contextualizando o telespectador de primeira viagem quanto a eventos-chaves da série original, que exercem influência fundamental para o desenvolvimento da mitologia e a maneira como esta é apresentada agora.

Mesmo que nomes como Hikaru Ichijyo e Lynn Minmay não sejam associados aos personagens que aparecem em algumas dessas explicações, você saberá que a raça humanóide gigante conhecida como Zentradi, adversária dos terráqueos quando estes se encontraram pela primeira vez, foi vencida pelo poder da música humana; outro elemento inerente ao universo Macross e responsável por um sem número de sequências onde personagens conversam, discutem ou usam seus aviões-mechas em combate com músicas-temas de fundo ou diretamente associadas a estas ações.

Outras homenagens e referências também não atrapalham a compreensão da trama.

Os principais problemas de Frontier são o de não saber trabalhar com boa parte dos elementos fixos da mitologia Macross e errar quando tenta incrementá-los. Os Vajras são o exemplo mais claro de ambos: criaturas que evoluem de seres fofos até formas insetóides gigantes, são capazes de desenvolver armamento próprio em sua carcaça (!) e, a cada ninhada, criam resistência ao poder de fogo das armas humanas. E tudo isso sendo uma raça acéfala, estranhamente conectada como uma colméia por meio de uma rainha Vajra.

Desde o primeiro episódio fica evidente que eles servem de massa de manobra para o verdadeiro “vilão” da história. Se o telespectador se deixa levar pelos argumentos do roteiro quando tudo é explicado, bem, ficamos a critério do senso crítico de cada um. O fato é que os Vajras não possuem metade do charme — e coerência, digamos — dos Zentradi como arqui-inimigos dos humanos. Logo, o fator música-que-acalma-os-vilões-e-faz-com-que-os-humanos-vençam-a-guerra-de-uma-maneira-piegas é forçado até os limites da lógica.

O roteiro é repleto de erros similares em outros segmentos.

O relacionamento de Catherine Glass, oficial da N.U.N.S. e filha do presidente da Frontier, com o chefe de gabinete de seu pai, Leon Mishima, é completamente deixado de lado ainda nos primeiros episódios. É relembrado apenas num dos últimos capítulos de forma jocosa por Leon. Como há elementos de conspiração política na série, é difícil entender porque esse desmembramento foi ignorado de maneira tão seca.

E o que dizer do episódio 8, High School Queen, ponto no qual tudo começa a desandar? É nele que Sherly decide permanecer na Frontier — já que a Macross Galaxy, frota na qual residia, foi destruída por um ataque Vajra —, matricula-se no mesmo curso de Alto na academia Mihoshi e passa quase todo o capítulo correndo atrás de sua calcinha pela escola. Não dá nem pra considerar tamanha baboseira como fan-service funcional.

Mas nada é mais desnecessário e superficial do que o fato de Alto ser um ex-ator de Kabuki e ter uma rixa com o pai, também ator. Espera-se que a desavença entre os dois, relembrada em momentos diversos de vários capítulos, sirva de alguma maneira para fortalecer a caracterização do protagonista e suas decisões quanto indivíduo. O roteiro, no entanto, falha incrivelmente em extrair algo desse relacionamento — preferindo recorrer ao apelido de Alto, “princesa”, em momentos cômicos ou de drama.

Sim, “princesa”: é comum no teatro Kabuki que atores façam as vezes de personagens femininas. E estes atores costumam ter um perfil físico feminino, algo que Alto possui.

O character design da série é, à propósito, irregular. Não há uma uniformidade entre o elenco da série. Parece que reuniram personagens de animes distintos para atuar em Frontier.

O mesmo não se pode dizer dos designs dos valkyries, que na animação atuam por meio de computação gráfica quando em forma de mecha, e dos cenários. A riqueza nos detalhes revela o costumeiro empenho dos japoneses em desenvolver máquinas, ambientes e qualquer elemento de pano de fundo em itens críveis e atraentes.

A trilha sonora é outro ponto alto. Algo a se esperar quando se tem a talentosa e experiente Yoko Kanno destacada para tal. Conhecida por seu trabalho em Cowboy Bebop, a compositora, arranjadora e musicista não é estranha ao universo Macross: são dela as composições do OVA Macross Plus e da música Angel Voice em Macross Dynamite 7.

Valkyries em computação gráfica e Yoko Kanno liderando as composições musicais casam nos melhores momentos da série: os confrontos entre os humanos e Vajras. Explosões, perseguições, reviravoltas. Ainda que o motivo de ‘desavença’ entre estas duas raças se revele raso nos episódios finais, suas batalhas são um delírio visual frenético à parte; a trilha sonora deixa tudo mais divertido.

Ainda que esses acertos não se sobressaiam aos erros listados previamente, não se pode descartar Macross Frontier por completo. O esforço em renovar a franquia é extremamente válido, mesmo que permaneçam os clichês centrais da mitologia Macross. Os minutos finais do episódio 25, que se presta a “resolver” o triângulo amoroso dos protagonistas, são um claro indício de que a ideia é fundamentar novas produções, atraindo novos fãs. E o sucesso desta investida mais recente no universo criado por Kawamori no Japão é a prova de que os produtores obtiveram êxito — ainda que uns e outros se prestem a discordar do produto final.

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  • Denis

    Parece bastante interessante. Uma espécie de BSG kawaii. preciso assistir!

  • http://bit-hunter.net/cafedamanhadoscampeoes/ Pablo

    Hahaha

    Acho que cê vai curtir a Ranka, então. =)

  • http://www.interney.net/blogs/maximumcosmo/ Alexandre

    É bem o que eu acho da série, mas sinceramente: só escancara o grande problema – Macross não tem um universo consistente por trás. O Macross original era uma história que funcionava por si, mas na hora de virar franquia, forçaram a barra de toda forma, na base da tentativa e erro. É diferente, digamos, do universo clássico de Gundam, aonde as coisas parecem acontecer quando não estamos olhando.

  • http://twitter.com/nelsonhenrique Nelson H Almeida

    Tô terminando de ver a primeira série Macross, de 82 (mas já assisti o Movie de 84 e o Movie Plus) e vou ver as demais até chegar ao Frontier, estou ansioso pra ver esse série.