Lisbeth Salander é a garota por trás de OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES


Se por acaso a expressão “Trilogia Millennium” não te significar nada, não se aflija. Com tradução recente para o português, os livros do escritor sueco Stieg Larsson ainda não encontraram o grande público em terras brasileiras, mas graças ao primeiro filme de uma série de interessantes thrillers, “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres” que estréia nessa sexta [14 de maio] no país, muitos passarão a conhecer não apenas a revista que encabeça a série de livros, como também a personagem que, nos Estados Unidos, roubou a cena e o título tornando-se “A garota da tatuagem de dragão”, Lisbeth Salander.

Com uma trama sagaz e tão fria quanto o país na qual se passa, “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres” persegue o caminho linear das novelas de mistério escritas por Agatha Christie e Georges Simenon, mescladas ao clima hollywoodiano do suspense moderno. Redescobrindo a fórmula, o filme conta com uma pitada de ineditismo que vem justamente do complexo pano de fundo que enriquece seus personagens principais. O jornalista Mikael Blomkvist (Michael Nyqvist) se mete numa enrascada ao denunciar um grande caso de corrupção corporativa na capa da prestigiada revista Millennium. Considerado culpado por forjar evidências para a matéria que o tornou famoso, Blomkvist é condenado a seis meses de prisão e forçado a se afastar da carreira jornalística.

Eis que entra em cena Henrik Vanger (Sven-Bertil Taube), um poderoso industrial que enxerga no jornalista um profissional com o faro apurado necessário para conduzir a investigação de um desaparecimento familiar há 40 anos. Tomando a decisão de contratá-lo graças à ajuda de uma companhia especializada em investigar pessoas, Vanger acaba atraindo o interesse da hacker e investigadora da firma em questão, Lisbeth Salander (Noomi Rapace).

Na união das diferentes visões surge o ponto chave de uma trama que, apesar de ter os pés firmados na fórmula detetivesca, pinta um quadro dos mais interessantes sobre as interações de seus complicados personagens, todos ligados de alguma forma aos traumas que fizeram de Lisbeth – a peça central na história, mas não do caso – uma mulher com talentos únicos.

Violenta e violentada ao extremo, a jovem de 24 anos que se traveste de gótica dos pés a cabeça, e é muito mais do que uma expressão cuspida de um movimento musical enfraquecido. Forçada a se virar sozinha por questões que não são totalmente evidenciadas em seus poucos flashbacks, Lisbeth esconde como pode os segredos de uma infância num manicômio judiciário, resultado de uma sentença dada após ter cometido um grave crime, capaz de balizar para sempre sua perspectiva sobre o universo masculino. Comparada pelos próprios suecos à personagem infantil Pippi Longstocking [que em sua série de livros e filmes recebeu a alcunha de "A mulher mais forte do mundo"], Lisbeth Salander já pode ser considerada uma nova e marcante presença no hall internacional de heroínas duronas.

Mikael Blomkvist

Sob a ótica da sexualidade, ponto nevrálgico de “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres”, tanto no que se refere ao objeto principal da investigação – um assassino em série que mata exclusivamente mulheres – quanto nas relações estabelecidas entre os personagens, especialmente entre Salander e seu guardião legal Nils Bjurman (Peter Andersson), o filme é um labirinto a ser percorrido com cautela freudiana. Num dos mais fortes momentos do roteiro, assistimos sadicamente a resposta dada por Lisbeth às atitudes do advogado que mantinha seus bens cativos no que talvez tenha sido uma das mais violentas demonstrações de levante feminista [e humano] já evocados na tela grande.

Mergulhados num universo que combina nazistas, crimes sexuais, traições familiares em um enredo novelesco, o inesperado casal de detetives suecos convence os espectadores conforme desvendam as pistas que levariam a um inevitável confronto no coração da família Vanger, e que se estende para explicar como os destinos da hacker e do jornalista estão, a partir de agora, unidos por um objetivo maior em comum.

Apesar de longo demais e de abusar dos clichês na tentativa de provocar reações emocionais até seu minuto final em um público involuntariamente exaurido, “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres” é um forte representante dos suspenses investigativos que promete tomar o mundo de assalto a tempo de ser reimaginado pelos americanos num remake que estreará nos próximos anos. Se funcionar, tudo indica que a próxima década está nas mãos da Srta. Salander!

[compre: livros de Stieg Larson]



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