Gomics #2 – NEMESIS 1 e BILLY BAT vol 1


Duas HQs resenhadas a fundo nessa segunda edição: a estréia do novo supervilão de Mark Millar e o mangá de Naoki Urasawa.

NEMESIS #1
Marvel Icon
Mark Millar: roteiro
Steve McNiven: Arte

“E se o Batman fosse um puto”? A tagline do aguardado e muito alardeado novo projeto autoral da dupla de CIVIL WAR dá um tom provocativo que deve agradar quem estiver com 12 anos e… for impressionável. A história trata de um vilão fantasiado que é o homem mais inteligente do mundo e cheio de recursos, cuja missão [na falta de heróis oponentes] é humilhar os melhores policiais de cada nação? Em teoria é uma boa e simples premissa, mas como tudo que Millar faz foi exageradamente vendida como a coisa mais genial desde a criação do Homem-Aranha. Na prática é a pior HQ dos últimos meses.

O Nemesis, ironicamente coberto de um alvo branco da cabeça aos pés começa a história acabando com a raça do melhor investigador japonês com requintes de crueldade gigantescos: não basta torturar e executar o inimigo, deve-se fazer seu corpo ser trespassado por um trem que logo após despenca dos trilhos no meio da cidade. O que fazer em seguida? Ah, claro, vamos aos Estados Unidos zoar por lá, seqüestrando o avião presidencial e jogando ele em um centro urbano, afinal americano tem trauma disso. Uuuuhh, ousado!

A arte de McNiven conta a história, mas de qualquer jeito e muito na correria: há páginas de 3 painéis a rodo, splash-pages desnecessárias e sem arte-final propriamente dita; nada contra finalização digital mas aqui não funcionou. O crossover CIVIL WAR da Marvel mostrou que o cara sabe desenhar e bem, mas aqui em seu trabalho autoral tudo saiu meio chutado; a grana só vai entrar mesmo quando for vendido o direito de licenciamento, certo?

O texto do escocês Mark Millar é ainda mais preguiçoso. NEMESIS tinha tudo pra começar como uma história divertida e sem complicações, mas o autor está tão acomodado em sua nova posição como assessor de imprensa de si mesmo que a revista não parece uma HQ e sim um release, uma promessa cínica que nunca se cumpre. O slogan infantilóide da capa vende a revista como a HQ que “vai fazer KICK ASS parecer uma merda”; KICK ASS parece Shakespeare perto disso.

Nemesis lembra vagamente o Fantomex dos New X-Men de Grant Morrison, que também bebia de fonte parecida: é como se víssemos o anti-herói italiano Diabolik mais aqui repaginado pela Image no começo dos anos 90. De fato, não duvido que daqui uns anos Millar seja tão esculhambado como Rob Liefeld, um autor adorado e imitado pelos moleques da época e renegado por ela quando cresceram.

Ninguém está cobrando profundidade de uma história em quadrinhos que em nenhum momento pretende ser uma obra de Arte multi-facetada de significado muito profundo. Mas Millar desaprendeu a fazer bem histórias de ação cinematográficas divertidas e descomplicadas, com diálogos cheios de frases de efeito prontos pra cair nas graças do Cinema.

Aqui se concretiza o problema que senti no final do seu ULTIMATES e que ele carregou pra todas as obras posteriores: todos os personagens falam de maneira igual, todos são chatos e arrogantes [inclusive o policial americano, propositalmente parecido com Viggo Mortensen].

O que sai da boca deles são apenas bravatas de um adolescente bobo e cansativo tentando impressionar a família na sala de jantar e todo mundo responde “ahan, Cláudia, senta lá“. E quando KICK-ASS chegar esse adolescente vai estar impossível.

Será que Millar perdeu seu mojo de tanto gastar tempo enrolando jornalistas com seus factóides que nada têm a vender além de tentar chamar a atenção de Hollywood? NEMESIS parece mais uma proposta desesperada de filme ruim que uma HQ boa; se o negócio dele é vender filmes está na mídia errada.
[Hector Lima]

[compre: NEMESIS na Amazon]

BILLY BAT VOL 1.
Editora Kodansha
Naoki Urasawa: roteiro e arte
Takashi Nagasaki: roteiro

Junot Diaz, escritor vencedor do prêmio Pulitzer pelo livro A Vida Breve e Bizarra de Oscar Wao, afirmou, após a leitura do mangá Monster, que Naoki Urasawa “é um tesouro nacional no Japão”. Exagero ou não, é impossível ignorar o fato de que toda produção de Urasawa seja cercada de elogios. Muitos.

Um dos principais artistas da linha seinen (HQs produzidas para o público de jovens e adultos entre 18 e 30 anos), o mangaká tem o suspense como uma das principais marcas de seu trabalho. Em Billy Bat, série que estreou no Japão em outubro de 2008 na revista Weekly Morning, ele está lá: inicialmente entendida como um misto de Disney e Sin City, o título revelou ser uma história em quadrinhos dentro de outra história em quadrinhos.

Kevin Yamagata, quadrinista nipo-americano em ascensão graças a sua série em quadrinhos Billy Bat, que possui altas vendagens nos Estados Unidos, descobre que pode ter plagiado inconscientemente o personagem de um mangá. Decidido a conseguir a permissão do autor do original para continuar produzindo as HQs do seu Billy Bat, ele retorna ao Japão pós-Segunda Guerra, em 1949, onde havia estado anos antes. Lá, descobre que Billy Bat é um símbolo ancestral, centro de uma conspiração que pode ter ramificações globais.

Quem conhece o trabalho de Urasawa sabe que há uma cadência do autor no revelar de informações ao leitor, ainda que o virar de páginas seja rápido e cada final de capítulo termine com um gancho fulminante. E aqui ele divide os créditos pelo roteiro com o parceiro de trabalhos anteriores Takashi Nagasaki, responsável pelo script da adaptação cinematográfica de 20th Century Boys, editor do mangá e supervisor do anime de Monster e colaborador de Pluto.

O Vol. 1 de Billy Bat estabelece bem o terreno da série. A simbologia, seu tema principal, vai ganhando importância narrativa à medida que a imagem de Billy Bat revela-se não ser um mero MacGuffin que motiva o suspense.

Há toda uma discussão sobre o poder do símbolo na sociedade (em diversas épocas) tomando forma a cada capítulo, complementada por toques místicos. A última página deste volume é um WTF? em alto e bom som.

E se você, caro leitor, ficou afim de ler Billy Bat em português, bem, não se anime muito. O único mangá de Urasawa que chegou a ser publicado no Brasil foi Monster, pela Conrad, que não foi concluído. Boatos sobre problemas para a renovação de contrato com os japoneses e baixas vendagens marcam a história da série no nosso país.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, Monster não foi apenas publicado na íntegra pela Viz, como outros dois trabalhos famosos do autor, os já citados Pluto e 20th Century Boys, estão sendo publicados atualmente pela mesma editora — que deverá assumir, provavelmente, a versão em inglês de Billy Bat futuramente. Resta esperar que a Conrad (ou outra editora) possa dar continuidade a publicação da obra de Urasawa no Brasil. (Pablo Casado)

[compre: mangás de Naoki Urasawa]

Atenção editoras: enviem seus lançamentos para resenharmos; entre em contato para saber como.



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  • http://pideto.wordpress.com v.

    li Nemesis. achei divertido. sangue e sadismo. é basicamente isso. não é obra de arte, não é divertido como kick ass – como ele promete – mas é legalzinho.
    mas só achei isso. espero que melhore nas próximas 3 edições.

    puta merda, quero muito ler Monster. >.<

  • http://meadiciona.com/deniscp/ Denis Pacheco

    “O slogan infantilóide da capa vende a revista como a HQ que “vai fazer KICK ASS parecer uma merda”; KICK ASS parece Shakespeare perto disso.”

    HAHHHAHAHHAHHAHAH