E quem vai ligar para o cancelamento de Rubicon?



E lá estava eu olhando sobre meus ombros, desconfiado de que meu plano não daria certo. Levei os dois livros embalados numa sacola plástica, só iria mostrá-los quando tivesse a certeza de que a troca aconteceria. Estava no começo da faculdade, sem dinheiro, e desesperado por qualquer tipo de leitura escapista, de preferência daquelas boas que te prendem num suspense sincero até o final. Já tinha visitado dois sebos sem sucesso, mas no terceiro consegui o que queria. Passei para frente os livros que não mais queria na minha estante e recebi de volta “O Segredo Mortal”, terceiro trabalho de Robert Ludlum, uma novela sobre espionagem, crime e conspiração.

Ler uma novela de espionagem convencional não é como assistir um filme de James Bond. O autor toma seu tempo, os personagens parecem aleatórios e a conspiração muito nebulosa, mas, tal como descer uma escada sob luz de velas, aos poucos as palavras vão ficando mais claras, os passos mais firmes e quando você menos espera está também olhando sobre seus ombros, à procura da solução de um gigantesco mistério. Assim era assistir “Rubicon”, série cancelada essa semana pelo canal AMC e que deveria ter sido não só vista por ser um elegante programa de televisão, mas também lida, como um bom livro.

O primeiro contato que tive com “Rubicon” foi através do piloto que, não muito diferente de um filme, chegou sozinho à televisão, meses antes do resto da trama que se desenrolou em mais 12 episódios. Com um elenco competente capitaneado por James Badge Dale (“The Pacific”, “24″), a série da AMC tinha uma premissa simples, disfarçada por um piloto cheio de silêncios e pausas dramáticas: Will Travers, personagem de Dale, é um analista da API, uma organização privada que recebe das agências de inteligência americanas a tarefa de analisar os mínimos detalhes recolhidos em missões por agentes espalhados pelo mundo.

O objetivo é antever e evitar incidentes terroristas como o 11 de Setembro, que vitimou a família – mulher e filha – de Travers antes de o conhecermos. Trabalhando na equipe de David Hadas (Peter Gerety), seu sogro, Will descobre acidentalmente um código escondido nas palavras cruzadas de diversos jornais espalhados pelo mundo. Supersticioso e intrigado, David alega desconhecer o código para despistar o genro, mas conduz sua própria investigação e é assassinado por isso.

Desconfiado de que David Hadas sabia mais do que havia dito, Will começa sua própria investigação, ciente de que as consequências poderiam ser letais. A partir daqui, o texto pode conter spoilers moderados sobre a trama.

No contexto da API, fomos aos poucos levados a conhecer os nomes que cercavam Travers e suas teorias conspiratórias. O grupo de analistas pelo qual ficou responsável após a morte de David rendia alguns dos melhores momentos da série. As interações entre Miles Fiedler (Dallas Roberts), Grant Test (Christopher Evan Welch) e Tanya MacGaffin (Lauren Hodges) deixavam clara a natureza ambígua e paranóica de seu trabalho. Antes que Jack Bauer ou Ethan Hunt partissem em missão para eliminar potenciais terroristas, era nas madrugadas em claro das salas de organizações como a API que se decidia quem seriam os alvos e, consequentemente, qual seria o dano colateral aceitável ao atacá-los.

Cientes de que vidas inocentes estavam em suas mãos dos dois lados do problema, os analistas da API resistiam ou sucumbiam diante das implicações morais que seu trabalho das 9h às 5h lhes conferia. Se suas famílias estavam se dissolvendo, seus filhos não mais se orgulhavam de você ou se seu problema com álcool e drogas começava a afetar seu julgamento, o importante, no final de cada dia, era tomar a decisão correta.

Não bastando levar em consideração o peso de suas escolhas e as consequências de se investigar as pessoas com quem trabalhava, Will permanecia sob vigilância até mesmo em sua diminuta vida pessoal. Comportando-se quase que de forma estóica, seu personagem estava cercado por duas intrigantes mulheres. Na API, Maggie Young (Jessica Collins) fazia as vezes de sua assistente, ao mesmo tempo em que vigiava o comportamento do chefe e tentava conquistar mais do que sua confiança. Em casa, sua vizinha Andy (Annie Parisse) servia de refúgio para um analista que temia – e estava certo em temer – a eterna vigilância de seus inimigos. Ambas secretamente motivadas a manter Will por perto e protegê-lo de si mesmo.

Supervisionando os times independentes de analistas estava Kale Ingram (Arliss Howard), potencialmente o melhor personagem de “Rubicon”. Enigmático, Kale era um ex-agente secreto, especializado em operações sigilosas, que parecia saber muito mais sobre a mecânica da API do que todos os ali envolvidos. Ainda que discreto sobre sua vida pessoal, Kale não escondeu de Will sua homossexualidade assumida e sua ambiguidade ética. tornando-se o parceiro do analista em sua busca pela verdade por trás da morte de seu sogro e mentor.

Correndo por fora da trama principal, mas relacionada diretamente a ela, acompanhamos a rotina de Katherine Rhumor (Miranda Richardson), ex-mulher do industrialista Tom Rhumor, que cometeu suicídio nos primeiros minutos do piloto de “Rubicon” ao receber um trevo de quatro folhas – marca conspiratória que volta e meia reaparecia na série. Atacada pelos críticos, o papel de Katherine é um dos culpados pelo abandono de espectadores que não tiveram a sagacidade ou a paciência de aguardar seu encontro com Will e o devido engatamento da trama. Somente na metade da temporada, com o esclarecimento sobre o grupo empresarial Atlas Macdowel, o gancho final se fez mais claro e o envolvimento do espectador se fixou em caráter devocional.

Por trás da conspiração – que aqui não revelarei em mais detalhes – estava Truxton Spangler (magistralmente interpretado por Michael Cristofer), chefe da API, membro do grupo Atlas Macdowel e articulador de uma interessante aliança entre Estado e corporações. Truxton não escondeu – desde o primeiro momento em que surgiu – que por trás de atrapalhadas tentativas de fumar pelo vitrô de seu escritório, havia uma mente calculista, um orador político e um conspirador que conseguiu esconder até o fim seus reais interesses ou proteger os interesses daqueles que o cercavam.

Em sua antológica conversa final com Truxton, Will finalmente arranjou coragem para ameaçar expor os segredos que custaram diversas vidas e que consumiram sua sanidade nos últimos meses. Fumando abertamente seu último cigarro no terraço que se tornou testemunha do desenrolar dessa trama, Spangler não precisou medir palavras ao servir de voz aos roteiristas de “Rubicon” e perguntar, como se desafiando o espectador: “Você acha que alguém vai se importar?” (“Do you think anyone will give a shit?”). Retornando para sua sala e deixando Will saber que ele também havia recebido um trevo de quatro folhas, Truxton assistiu as luzes da API se apagarem enquanto o público aguardava a notícia de sua continuidade ou cancelamento.

O ritmo lento, focado nos diálogos e nas expressões consternadas de seus personagens, não foi o melhor amigo de “Rubicon” que enfrentou problemas internos no próprio canal com a troca do showrunner Jason Horwitch pelo produtor Henry Bromell. Inspirada em clássicos como “Todos os Homens do Presidente“, a série alçou voos ousados sem fazer alarde e por isso, se encerrou silenciosamente, como o fechar de um bom e já saudoso livro.

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  • braun1928

    É uma pena, porque foi uma série que eu adorei assistir. A história foi muito bem bolada, diferente do convencional. Todos meus amigos que assistiram, gostaram. Foi o mesmo com FlashForward, que foi excelente — principalmente depois da parada que sofreu no fim do ano. Mas, fazer o que….

  • Livia Nardi

    Enquanto isso Smalville na décima temporada. Inexplicável.