Dollhouse e os Robôs Universais da Rossum


Em 1921, o escritor tcheco Karel Čapek escreveu uma das mais importantes peças de ficção científica da história, R.U.R. (Os Robôs Universais da Rossum), a primeira a utilizar o termo robô que, posteriormente, viraria sinônimo de futurismo até os dias de hoje. Cunhados pelo irmão de Karel, Josef Čapek, os robôs da Rossum não eram inicialmente criaturas mecânicas como Fritz Lang imortalizaria em Metropolis. Diferente de Maria, os robôs universais Marius, Helena e Sulla eram seres fabricados biologicamente podendo ser facilmente confundidos com humanos e que possuíam in natura a capacidade de pensar por si mesmos.

Ainda que parecessem felizes ao servirem os humanos, os robôs da Rossum começaram a tomar consciência de sua escravidão, o que os levou inevitavelmente a uma violenta guerra por liberdade. Ao final do conflito, a humanidade encontrou seu derradeiro final.

Em fevereiro de 1938, a história de Čapek foi convertida numa adaptação de trinta e cinco minutos filmada e transmitida pela BBC tornando-se a primeira ficção científica a ir ao ar na televisão.

Em fevereiro de 2009, mais de 70 anos depois, Dollhouse estreou na FOX americana sem grandes pretensões. Inicialmente acompanhada por aqueles que já haviam entrado em contato com trabalhos anteriores de seu criador, Joss Whedon, a série que contava a história de um grupo de pessoas escravizadas e forçadas a emprestar seus corpos para diferentes personalidades, cresceu muito além de sua premissa, limitada a fórmula do monstro-da-semana.

Depois de provar ser incapaz de ampliar a audiência, Dollhouse foi cancelada em seu segundo ano, mas teve a oportunidade de fechar sua história num total de 26 episódios. Chegando ao episódio final na última sexta-feira, o show deu um salto temporal ao ano de 2020, levando seus personagens – que começaram como pessoas vazias e incapazes de se relacionar com o público – a um futuro pós-apocalíptico no qual a tecnologia criada para sobrepor personalidades e apagar mentes fugiu ao controle da gananciosa corporação Rossum – rá! – e espalhou o caos pelo mundo, dividindo os humanos entre irracionais “butchers”, “dumbshows” ocos e os remanescentes “actuals” que permaneciam com suas memórias originais.

Spoilers a partir de agora:

Enquanto Echo se unia a Ballard na perseguição dos imortalizados imperadores de Neuropolis – antigos executivos da Rossum que saltavam de corpo em corpo usufruindo opulentamente do pouco luxo que restou em uma espécie Roma desconstruída – parte do grupo se reunia numa comunidade de ludditas, repudiando toda a forma de tecnologia responsável pelo fim o modo de vida como conhecíamos. A antes poderosa Adelle, chefe da Dollhouse LA, agora se limitava ao cultivo de um jardim enquanto aguardava o resgate de seu protegido, Topher Brink, o cérebro por trás do apocalipse.

Na estrada, Tony escondeu-se de Priya/Sierra e de seu próprio filho, assumindo a personalidade de Victor. Fazendo do mundo sua cúpula do trovão, o soldado da Dollhouse se uniu a um grupo de viciados em tecnologia para proteger seus familiares e amigos replicando artificialmente a habilidade de Echo.

Paralelamente, seguindo a linha temporal de Epitaph One – a não exibida primeira parte do apocalipse neural – Zone e Meg (Felicia Day) acompanhavam a pequena Echo/Caroline implantada no corpo de uma criança na busca pelo paraíso seguro. Ao se encontrar com sua contraparte adulta e evoluída, mini-Caroline descobre que para vencer a guerra, todos ali teriam que retornar a Los Angeles, descer até a Casa das Bonecas e ajudar o agora perturbado Topher a salvar o mundo, ironicamente, com uma última peça de tecnologia capaz projetar um pulso que resetaria todas as mentes de uma única vez.

No ato final, retornando a Dollhouse, Echo perde Ballard para uma bala certeira – no mais gélido sadismo – e o grupo enfrenta uma conspiração final de tech-heads que não queriam abdicar de suas habilidades. Ajudados por Alpha, o psicótico e agora evoluído doll que restabeleceu a casa em segurança, o conflito é facilmente resolvível num episódio sem surpresas.

Cientes do fim inevitável, Adelle, Echo, Sierra, Victor e Alpha assistem Topher se despedir de Bennett numa gravação enquanto resolvia o deus ex machina que reiniciaria o planeta. Subindo até o antigo escritório de Adelle, Topher montou a bomba neural que o mataria ao mesmo tempo em que concederia uma nova chance para a humanidade. Salvando o mundo com seu suicídio, o cientista antes amoral não viu seus amigos caminharem pela cidade devastada na esperança de reconstruí-la.

Dentro da Dollhouse, Echo caminhou para a cadeira que a fez ser quem ela era e aceitou o último presente deixado por um Alpha não mais apaixonado. Implantando a personalidade de Ballard em sua própria mente, Echo se uniu ao handler por quem sempre fora apaixonada deixando-o fazer parte de seu composite de personalidades. E assim, cortando o coração dos que permaneceram até o último minuto acreditando que esse não seria o fim, Echo voltou ao seu casulo para o sono final.

Encerrando Dollhouse com pontas soltas o suficiente para dar aos fãs algumas décadas de especulação, Joss Whedon fez o que sabe fazer de melhor: estimulou a imaginação de seu público. Homenageando o sci-fi, Joss nos deu dois anos de uma série que desenvolveu uma considerável complexidade, unindo robôs em sua primeira encarnação – e digo isso pensando em Replicantes e Cylons – a uma trama que daria orgulho ao próprio Gene Roddenberry e seu mote principal: a perseverança da humanidade diante de tudo.

Mesmo estando na emissora que fabrica ídolos americanos, contrata a ex-candidata a vice-presidente Sarah Palin como comentadora comentarista (!) e faz duras críticas à política democrata, Dollhouse fez da FOX um veículo vanguardista e provocador.

Transmitindo em TV aberta conceitos como abuso corporativo, escravidão moderna e perda da noção de identidade, a FOX deu aos seus espectadores a chance de provar que todos estão aptos a entender e refletir sobre os mais elaborados conceitos. Independente de qualquer cerceamento por nichos supostamente intelectualizados, a rede de televisão aberta provou – de forma desproposital – que é no mainstream que o homem triunfará.



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