Como se defender de um homem segurando um consolo?


Já dá pra sentir o tom de “Brüno” - novo filme de Sacha Baron Cohen – nas batidas do pop eurotrash que acompanham os créditos iniciais. Atirados contra o espectador durante pouco menos de uma hora e meia, os clichês são as principais armas do controverso humorista inglês, hoje mundialmente famoso por ter criado uma nova proposta de comédia documental cuja mecânica já nos é manjada, mas que inacreditavelmente continua a funcionar.

Se em “Borat” e “Ali G Indahouse” os alvos do personagem título eram, respectivamente, a ignorância da sociedade americana ou as idiossincrasias ridículas da juventude moderna inglesa, em “Brüno” as vítimas são as celebridades, ou ainda, o “celebrismo” hipócrita daqueles que alimentam a bilionária indústria do entretenimento.


Pode-se dizer que – como uma espécie óbvia de Michael Moore que abraçou lascivamente o politicamente incorreto – Baron Cohen continua, na verdade, a atacar seu único e preferencial filão: o pensamento conservador. No entanto, não há limites numa guerra de piadas carregadas de ironia e as vítimas caem de todos os lados desse pastiche.

Seja você gay, hétero, israelense, palestino, swinger ou fã de ultimate fighting, sobram ofensas gratuitas numa sucessão de sketches que encadeiam um fiapo de trama: o uber-cool, ultra-hype, gay guru do estilo Brüno, arruína sua carreira como consultor de moda na Áustria e viaja para a América em busca do Santo Graal da modernidade, o status de celebridade.

Tentando de tudo, Brüno enfrenta tapetes vermelhos, estrela seu próprio programa de entrevistas, é entrevistado num talk show popular e mergulha num emaranhado de situações forçosamente gratuitas incluindo aí uma estadia num campo de treinamento militar e uma insuspeita viagem de caça com rednecks não muito amistosos ao comportamento atirado dessa espécie de Zoolander elevado a enésima potência.

Perder-se no não-enredo é fácil e até um tanto cansativo. Para os que estão abertos a cenas gratuitas de sexo explícito ou nudez não estilizada é um prato cheio. Dificilmente categorizado como arte – apesar de o ser em sua plenitude – “Brüno” gera risadas ao mesmo tempo em que gera repulsa.

Para os que entendem a politicagem disfarçada de brincadeira surreal, resta gargalhar das referências e participações especiais. Desde Paula Abdul – que eu particularmente questiono como sendo uma vítima real de Baron Cohen – até Bono, Sting, Snoop Dog e Chris Martin, que toparam gravar um hilário e auto-crítico clipe coletivo. Para os que não encararam as lentes do fashionista, sobram alfinetadas bem pontuais, focadas numa Hollywood que estimula seus artistas a se esconderem nos armários do conservadorismo boçal.

Sem sabermos o que é real e o que foi encenado, “Brüno” nos leva a repensar suas próprias polêmicas e até mesmo pode vir a irritar ativistas e militantes do movimento gay. O personagem por si só é uma construção retrógrada do estereótipo mais conhecido da homossexualidade, que não acrescenta nada – a olhos incautos – às décadas de luta pela igualdade de direitos, incluindo aí o casamento e a adoção. Ainda que sua crítica seja direcionada a vulgaridade superficial das adoções “humanitárias” feitas por celebridades, “Brüno” não presta serviço em desmistificar clichês e falsas representações.

Seguindo uma espécie de “mote-Chacrinha”, Sacha Baron Cohen deixa claro durante todo o filme que “veio aqui para confundir e não para explicar”. Resta a nós, espectadores indefesos, tirar dessa confusão uber-insana uma lição universal: somos todos vítimas desse grande show de horrores que é a Humanidade.



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  • Marcio Claesen

    Não vi ainda, mas mto boa a crítica. A resenha mais bem escrita que li até agora. Abraços.