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Com o futuro garantido, “Glee” revisita o passado no final da temporada
Em maio de 2000, uma série de TV chamada “Sports Night” chegava ao fim, após duas temporadas. A dramédia, com Josh Charles (“The Good Wife”), Peter Krause (“Parenthood”) e Felicity Huffman (“Desperate Housewives”), mostrava os bastidores de um noticiário esportivo fictício, exibido no igualmente fictício canal CSC. Nos últimos episódios, enquanto a série real caminhava para o matadouro, o noticiário fictício também se via ameaçado com a venda do CSC. Ao final, “Sports Night”, a série real, acabou – mas “Sports Night”, o noticiário fictício, teve uma nova chance.

A situação de “Glee”, na noite desta terça-feira, era oposta. No colégio fictício William McKinley, o “clube do coral” (como é chamado na dublagem brasileira) New Directions se preparava seu maior desafio: a seleção regional, contra os favoritos do Vocal Adrenaline. A derrota não significava apenas ficar de fora do concurso nacional: o diretor do colégio já havia avisado que o New Directions seria extinto se não vencesse.
Mas, na vida real, “Glee” já está garantida para mais duas temporadas. É um belo feito para uma série musical que estreou com apenas meia temporada encomendada e um elenco de virtuais desconhecidos.

“Glee” chamou a atenção antes mesmo de sua primeira exibição, quando os primeiros comerciais começaram a pipocar nos intervalos da Fox norte-americana para anunciar a exibição do piloto após a final de “American Idol”. A gigante audiência de “Idol” ajuda, mas vale lembrar que nem toda série que estreou nesse horário prosperou. Precisa de um exemplo? “Life on a Stick”. Quer mais um? “New Amsterdam”. “Point Pleasant”. E outros tantos que nem chegaram à TV brasileira…
Mas a reação obtida por “Glee” foi bastante positiva, e os produtores souberam manter a série em evidência durante os três meses de espera até o início real da temporada. O elenco participou dos anúncios do canal, fazendo apresentações. Promos rápidos continuaram na TV e na internet. Na internet, aliás, comunidades e vídeos faziam sua parte para manter a expectativa lá em cima.

Após o sucesso dos primeiros 13 episódios encomendados (concluídos com a conquista dos Sectionals), a série ganhou os 9 episódios que completam uma temporada. O problema é que, de novo, haveria mais quatro meses de espera até que a segunda metade fosse exibida. Mas “Glee” não saiu do noticiário de entretenimento nesses meses todos – com capa de diversas revistas (incluindo a Rolling Stone), vendas poderosas de música e muita informação sendo antecipada aos fãs.
Aliás, as listas de músicas vazam com muita antecedência, e faixas inteiras são disponibilizadas em canais oficiais alguns dias antes dos episódios – mas nem isso parece tirar o fôlego da série. Retornando em abril, nos EUA, “Glee” passou a dar mais audiência do que tinha antes das férias – contanto até com a ajuda de outros seriados do canal, que tiveram episódios especiais.

E parecia que “Glee” simplesmente não errava nunca, com boas histórias (Kurt fazendo o time de futebol americano dançar “Single Ladies”) e bons solos (Rachel cantando “Don’t Rain on My Parade”). A Madonna aprovou um episódio dedicado a seus sucessos. A Lady Gaga se derreteu quando suas músicas e figurinos serviram como inspiração em outra semana. O Neil Patrick Harris marcou participação especial (em episódio dirigido por Joss Whedon, com quem havia trabalhado na websérie “Dr. Horrible’s Sing-Along Blog”). Estrelas da Broadway (e ex-companheiras de palco em “Wicked”), Kristin Chenoweth e Idina Menzel tiveram seus próprios arcos.
Não errava nunca? Até errava. Sue Sylvester encarnando Madonna foi um marco, mas Sue Sylvester duetando com Olivia Newton-John pareceu uma sequência forçada para o sucesso do primeiro número. Mercedes cantando “Beautiful” foi respeitável, mas a história tocando em anorexia foi mais um caso de “anúncio de utilidade pública” que estava saturando a narrativa (inclusão, sexualidade, distúrbios alimentares, garoto paralisado cantando “One”…). O tom caricato de “Glee” também avança no exagero inocente: a “vilã” Sue Sylvester sempre consegue o que quer; o diretor Figgins teve medo da “vampira” Tina. E quantas vezes é preciso fazer o sr. Schuester cantar um rap constrangedor?

Mas o final de temporada resgatou a mágica de “Glee”. O segredo parece ter sido as muitas auto-referências à própria temporada de estréia. Will chorando no carro ecoou com o choro de Emma, nos primeiros episódios – mesmo que por motivos diferentes. A música de Journey, marco do piloto, ganhou destaque novamente. Olivia Newton-John e Josh Groban voltaram a participar (no papel deles mesmos).
A entrada de Finn e Rachel na apresentação dos Regionals era o ressurgimento de “Fichel” e uma evolução da entrada de “Don’t Rain on My Parade”, nos Sectionals. O beijo Will/Emma encerrando mais um ciclo; Sue Sylvester novamente sendo Sue Sylvester, com a auto-biografia “I’m a Winner and You’re Fat” (“Eu sou uma vencedora e você é gordo”). E, principalmente, grandes números musicais – com a bela edição da “Bohemian Rhapsody”, do grupo rival Vocal Adrenaline, intercalado com o nascimento da filha de Quinn.

O resultado, claro, era o esperado. Alcançar o torneio nacional na primeira temporada roubaria histórias e superações da temporada seguinte. O novo triângulo amoroso com Will Schuester, Emma Pillsbury e seu dentista (ainda não apresentado, mas já escalado) também recria obstáculos para a nova temporada. Com mais dois anos garantidos, é possível planejar a história com calma – mas correndo o risco de perder o ritmo outra vez. O risco, aliás, já começa com o comportamento da Sue no finalzinho do episódio…
Mas, nos 44 minutos anteriores, “Glee” mostrou que sabe se recuperar. Que venha John Stamos!
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