Cherchez la femme: Nikita volta à televisão querendo vingança


Ela não tem a fortuna da Modesty Blaise, o passado militar de Natasha Romanoff ou o apelo pop art de Emma Peel, mas “La Femme Nikita” possui algo que suas predecessoras na literatura, quadrinhos ou televisão não têm: nada a perder. Criada por Luc Besson em 1990, Nikita detém o mais humilde dos pontos de partida no mundo da espionagem. Desprezada por seus pais, a jovem adolescente marginalizada pela sociedade se entrega ao mundo dos pequenos crimes e das más companhias até se meter numa enrascada sem saída aparente.

Sob efeito de drogas, Nikita assassina um policial durante o assalto a uma farmácia, sendo imediatamente presa e considerada culpada. Sem opções, a personagem que não possuía parentes para lhe defender ou amigos que intercedessem em seu nome sucumbe ao esquecimento numa cela de prisão até acordar em… Outra cela. Escolhida por sua falta de laços e passado violento, Nikita recebe a opção de morrer aprisionada ou ser libertada para matar em nome de seu país.

Seja interpretada pela bela Anne Parillaud no filme original ou por Bridget Fonda em “Point of No Return” de 1993 (cujo maior defeito foi renomear Nikita como Maggie Hayward, posteriormente Nina), a espiã tornou-se um ícone instantâneo no hall de personagens femininas fortes. Em suas encarnações cinematográficas, o mundo ao redor é predominantemente masculino com apenas uma exceção, Amanda, a perigosa conselheira que orienta jovens agentes a utilizarem seus dotes de sedução como arma letal.

Apresentada a um mundo onde todas as escolhas foram feitas em seu nome, restava a Nikita obedecer às regras de um jogo perigoso que terminaria numa bifurcação soturna: aceitar ou rebelar-se.

Ainda que nas versões de Besson e John Badham (“Os Embalos de Sábado a Noite”) a espiã tenha optado pela rebelião ao vislumbrar a chance de uma vida normal ao lado de um homem que nada sabia sobre seu passado, foi somente na série do USA Network criada em 1997 que a agente, agora interpretada por Peta Wilson, teve a chance de compreender que o mundo poderia ser muito mais complicado do que parecia. Além do elenco e da ambientação singulares, a série LFN fez da organização de contra-espionagem seu grande personagem principal. Nos corredores da Section 1, Nikita – que era inocente da acusação de assassinato, portanto diferente de suas contrapartes – foi capaz de formular a questão norteadora da nova encarnação: seria melhor um mundo com ou sem a Section?

Somando elementos de suas três versões, a CW fez uma aposta que pode se mostrar certeira: trazer Nikita de volta. Sem estar ligada aos filmes ou a série que a precedeu com sucesso, a nova Nikita interpretada por Maggie Q combina elementos de todas elas sem necessariamente repeti-las. Com uma história similar a do original, a ex-agente da organização americana chamada Division não tem pais, possui um passado violento e pode ou não ser culpada de assassinato. Entretanto, seu ponto de partida não é sua chegada ao círculo dos espiões, mas sim seu retorno vingativo. Após o assassinato do noivo, Nikita desapareceu por aproximadamente três anos, estruturou um complexo plano de vingança e retornou ao centro do jogo de agentes secretos para implementá-lo violentamente.

Estão lá Amanda (Melinda Clarke), remanescente dos filmes, o analista Birkoff (Aaron Stanford) e seu mentor Michael (Shane West), ligados diretamente a série do USA. Para facilitar a introdução de novos fãs à mitologia da série foi incluída no piloto a personagem Alex (Lyndsy Fonseca), uma jovem com passado demasiadamente similar ao de Nikita, que deverá ser treinada pela Division para substituir a agente que agora joga no time oposto.

Apesar das boas cenas de ação e do potencial carismático que Maggie Q poderá conferir ao papel, o “Nikita” da CW ainda sofre com os clichês de um gênero que – lado a lado com o dos vampiros – continua muito explorado. Após anos de ALIAS, a audiência ainda não teve tempo de esquecer as agruras de uma agente que se descobre trabalhando para uma organização duvidosa; ainda assim, com os pés firmes em suas versões anteriores, “Nikita” pode-se considerar protegida por trazer uma bagagem acumulada nos anos 90 ao mundo pós-Jason Bourne.

Outro ponto fraco do piloto é obviamente Shane West em sua interpretação de Michael. Não tanto por sua falta de talento artístico (Shane West provou que sabe atuar em sua passagem por “ER”), mas sim pela comparação com o trabalho de Roy Dupuis, o Michael de LFN. Enquanto personagem, a figura do mentor de Nikita não teve o mesmo peso nos filmes (seja em Rico de Marc Duret ou em Bob de Gabriel Byrne), quanto nas cinco temporadas da série. Dúbio, sádico e ultra-romântico – no sentido literário -, o Michael de Dupuis selou sua participação na série com, literalmente, uma lágrima de sangue. Portanto, preencher esse espaço não será um trabalho fácil para West, mas disso ele já sabia, não é?

Resta aos roteiristas confiarem que o público da CW, com séries voltadas para adolescentes, poderá amadurecer com a nova versão de “Nikita” e se deixar surpreender pelas ambigüidades do universo da espionagem, em que nada é simples e nem mesmo a mais confiável das protagonistas está isenta de tomar decisões difíceis e impopulares. Como no tiro dado em Michael à queima-roupa ao final do piloto, a nova Nikita deverá ser brutal em sua vingança, mas jamais deverá deixar de lado a noção herdada de que saídas fáceis não existem.



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  • Marquim

    Adoro os filmes e a série com a Peta, então eu tava cheio de preconceito por essa série. Mas agora me deu curiosidade pra assistir e até uma empolgação. Parece que vai ser boa.

  • Cíntia

    Assisti o primeiro episódio, e foi melhor do que esperava, apesar de eu achar a primeira série superior:http://singularpqu.blogspot.com/2010/09/nova-nikita.html

  • Paloma

    Estou prestes a assistir o primeiro episódio, e para ser sincera não ponho muita fé na nova versao, da minha parte por ser fã da série La Femme Nikita com a Peta Wilson, na verdade dizer que eu sou fã é pouco, a serie fez parte da minha infancia, acompanhei tds os episódios pela A&E, tenho a série completa no meu netbook, o que talvez me faça muito exigente, porque que realmente me atraiu na série foram os dilemas da personagem principal, sobre os fins justificam os meios, o amor dela pelo Michael X a obrigaçao, o honra da promesa que ela fez ao pai dela, o bem maior, sem falar que eu me apaixonei pela peta nesse papel, pra mim ela é e sempre será a definitiva NIKITA!