Buffy – Se a cada geração nasce uma caçadora, quem vai receber a nova de braços abertos?



Não deixe que a moda, tendência ou seja lá a corrente de verbetes que está sendo usada para definir certos padrões te enganar, não é assim tão fácil ser quem você é. Ainda que tipos acadêmicos magricelas se destaquem na sua TV como alegorias engraçadinhas de rapazes obcecados por ficção, ciência e cultura pop, a verdade é que – enquanto personagens reais – não deve ter sido fácil crescer sob o estigma nada elogioso do nerd. Estabelecendo meu lugar de fala, e o único pelo qual posso argumentar, devo reforçar que, independente do que as bancas de camisetas modernosas dizem, não é nada esperto enquadrar esse tal “jeito nerd” como um estilo de vida que se sustente sozinho.

Fato é que quando eu frequentava o colégio, entre 13 e 17 anos, estava longe dos meus planos me estabelecer como um bom aluno ou o queridinho dos professores. Usar óculos não era uma escolha estética e me vestir com símbolos de super-heróis no peito não era um sinal de esperteza e sagacidade cultural. Os ecos do clássico oitentista “A Vingança dos Nerds” ainda faziam sentido e ser associado com esse estereótipo nocivo era sinal de exclusão na certa.

Por essas e tantas outras que durante minha estada no colegial desejei me encaixar em uma infinidade de panelas. Apesar do meu gosto pessoal pelo hardcore punk, minhas habilidades com skate não me garantiam lugar entre skatistas. Mesmo tendo surf como herança genética, o talento pulou minha geração e os surfistas da turma sequer sabiam meu nome. Minha tentativa de entrar para uma banda ficou apenas na imaginação já que o violão e eu não entramos em acordo e nem discutirei os deméritos de ter me inscrito numa aula de Tae Kwon Do, já que ainda não está clara a razão sobrenatural que me levou a isso.

No entanto, entre 1997 e 1998, em meio a minha tentativa desesperada de fugir da nerdice que parecia me cercar tanto na sala de aula quanto nos meus gostos culturais mais enraizados, fui apresentado a uma série nova e extremamente diferente de tudo que assistira até então. Fazendo sua estréia na FOX, “Buffy – A Caça-Vampiros” trazia um grupo de jovens mais ou menos iguais a mim. Suas escolhas estéticas não eram muito relevantes, seu papel social na escola menos ainda, mas de alguma forma o desenvolvimento de suas personalidades falava diretamente comigo. Enquanto Willow Rosenberg (Alyson Hanningan) e Xander Harris (Nicholas Brendon) representavam as duas faces daquilo que me definia – o comportamento sabe-tudo e a insegurança adolescente disfarçada por um senso de humor afiado – o ambiente que os rodeava parecia, de alguma maneira, bastante ligado ao meu (se você considerar os vampiros e demônios como metáforas, né?).

Entretanto, a verdadeira diferença daquela realidade ficcional para a minha era justamente a personagem título, uma bela loira de 16 anos, com o passado popular de uma cheerleader e atitude de líder nata, Buffy Summers (Sarah Michelle Gellar) não era como as garotas que eu conhecia. Apesar de poder se esconder por trás do grupo ao qual pertencia esteticamente, Buffy tinha uma responsabilidade que superava quaisquer problemas escolares preconcebidos: salvar o mundo.

Rebatendo a noção das ‘final girls’, Buffy era a caçadora de monstros que levava os amigos nas mais arriscadas missões, provocando neles a mesma reação que provocou em mim e no resto dos espectadores: qualquer um de nós pode transcender quaisquer rotulamentos. Não apenas os que colocam sobre nossas cabeças, mas principalmente o que nós mesmos estabelecemos sobre a gente.

Provando que atletas, roqueiros, cheerleaders e nerds poderiam trocar de papéis e crescer enquanto personagens, “Buffy” desafiou as convenções das séries adolescentes antecedentes que limitavam seu elenco a soluções fáceis ou ao aprisionamento no nicho. David Silver (Brian Austin Green), de “Beverly Hills 90210” seria um eterno excluído caso não tivesse perdido o melhor amigo para um trágico suicídio – consequentemente se desvencilhando dele – e começado um namoro com Donna Martin (Tori Spelling), uma das mais notórias alunas do West Beverly High. Em “Buffy”, o relacionamento entre Xander e a líder de torcida Cordelia Chase (Charisma Carpenter) durante a 3a temporada não trouxe benefícios ao rapaz marginalizado pela maior parte do colégio, mas ajudou a desenvolver a personagem da qual ninguém esperava grande envolvimento emocional. Ainda que Cordelia tenha se tornado um ser superior em seus anos em “Angel”, Xander ganhou o respeito dos colegas fazendo o que Buffy havia lhe ensinado, conduzindo-os em batalha contra o grande Big Bad da vez.

Paralelamente, a geek Willow deixou a timidez intelectual de lado tomando parte da ação para si, sendo responsável por alguns dos mais marcantes momentos da série, como a restauração da alma do Angel ou até a ressurreição da Caça-Vampiros em pessoa. Evoluindo ao ponto de assumir um lugar como antagonista na 6a temporada, a personagem representa muito bem um dos elementos cruciais que diferenciam “Buffy” da maioria dos programas voltados para adolescentes até então. Feito peças de dominó sendo empurradas por uma força em comum e inercial, os coadjuvantes foram forçados a se afastar de seus lugares fixos graças a influência de uma personagem que não era apenas uma heroína e símbolo de empoderamento feminino – na falta de uma tradução menos constrangedora de women empowerment – mas também um elemento transformador que impulsionou todos ao seu redor a tomarem decisões ousadas, tornando-os gradativamente criaturas esféricas e tão heróicas quanto aquela que os influenciara.

Há pouco menos de uma semana, a Warner Bros anunciou o remake cinematográfico de “Buffy” colocando a jovem atriz e roteirista Whit Anderson como única encarregada pela reminaginação da caçadora. Por fora das movimentações e motivações do estúdio – especuladas como puramente financeiras – Joss Whedon, responsável pelo roteiro da primeira adaptação para o cinema de 1992, estrelada por Kristy Swanson e Luke Perry, e pela bem sucedida empreitada televisiva, declarou publicamente seu descontentamento com a WB, apesar de estar plenamente ciente de que não existe nada que possa fazer referente aos direitos dos personagens. Entretanto, o próprio Joss compreende – usando aí de uma boa dose de sarcasmo – que certos frutos da imaginação não se limitam somente às boas adaptações. Recentemente, o Hollywood Reporter noticiou que Whedon pode ter passado a chance de participar no remake quando procurado pela Warner há um ano, o que não foi confirmado pelo diretor/roteirista.

Ainda que a base de fãs esteja descrente – e eu me coloco aí lado a lado com os espectadores que tiveram suas vidas transformadas por esse seriado – fica no ar a esperança de que, se a cada nova geração surge uma caçadora, talvez aqueles que não puderam acompanhar numa era pré-torrent as aventuras de Buffy Summers na Boca do Inferno tenham a chance de serem transformados pelas duas maiores contribuições que a personagem nos deu: a noção de que tipos sociais são apenas pontos de partida ao invés de limitações estereotipadas e de que boas ideias serão reinventadas ad eternum porque superam até mesmo seu criador.

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  • Alonsowarlock

    Cara, tira os spoilers da willow e o texto fica perfeito. POR FAVOR… muito spoiler.

  • http://twitter.com/highwayagain Vitor

    Os novos produtores esqueceram de alguns detalhes: Buffy não se trata de vampiros, se trata de pessoas, jovens, da vida, das dificuldades e desafios que precisam ser enfrentados, e as consequências da vitória ou da perda. O sobrenatural é só um plano de fundo pra isso. Então, basicamente, a Caçadora só será revivida por que a coisa do vampirismo tá na moda, desde que uma tal franquia de sanguessugas de mármore que brilham no sol veio à tona. E a Buffy 2.0 só será uma super-heroína sexy e loira, sem nenhuma mensagem a passar, nenhum encorajamento, nada do que todos viram e veem até hoje em sete (depois oito, daqui a pouco nove) temporadas. Buffy nunca ensinou ninguém a se vestir de vampiro e sair por aí sugando sangue ou ficar deprimido pelos cantos. Ensinou coragem, nos fez sentir o peso do mundo que ela sentiu. E fazer isso desaparecer, ver as pessoas se esquecerem disso é foda.

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