Avatar: James Cameron, eu te adoro, mas assim você me deprime


Avatar

E lá estava eu, por quase quarenta minutos de pé, aguardando numa fila de entusiastas que se reuniam ali parte pelo 3D, parte pelo hype (palavra tão hypada que me surpreende não ter perdido o significado ainda) e parte pelo homem que deu ao mundo o Exterminador, uma das minhas franquias favoritas.

Acrescento que escrevo em 1a pessoa não apenas porque a Goma permite e encoraja opiniões pessoais, mas também porque preciso definir meu lugar de fala antes de continuar essa tentativa de resenha: aos 11 anos assisti o primeiro Exterminador do Futuro e fui jogado no universo cameroniano. O Segredo do Abismo ainda é um dos mais fascinantes roteiros que eu já vi, Aliens é a mais bem executada seqüência lado a lado com a parte 2 de O Poderoso Chefão e nem preciso dizer o quanto sou fã da química entre Helen e Harry Tasker de True Lies. Para me posicionar definitivamente como um fã desse diretor brilhante vou aqui confessar algo que apenas alguns familiares sabem sobre meu passado nebuloso: assisti Titanic[bb] duas vezes no cinema e, sim, chorei em pelo menos uma dessas vezes (eu era jovem e impressionável, me deixa…).

Constatado quem sou eu no quesito filmografia de James Cameron (nem falamos de Dark Angel, sua incursão televisiva e uma das minhas séries favoritas de todos os tempos), devo agora quebrar esse elo de fanzoquice para perguntar: o que demônios ele estava pensando quando filmou “Avatar”?

Enquanto a crítica internacional louva a conquista cinematográfica materializada nos fenomenais efeitos especiais, uma abafada parcela de vozes sussurra o pequeno detalhe que inviabiliza quase todo o propósito de Avatar: não há história. Ou melhor, devo extrapolar, há história, a mesma que já nos foi contada em outras obras, o velho mito do homem branco sendo introduzido na cultura estrangeira, redescobrindo seu valor e posicionando-se contra sua própria cultura.

Se você assistiu Dança com Lobos, Pocahontas[bb] e O Último dos Moicanos já assistiu Avatar. No entanto, diferente do apelo emocional dos filmes citados, não há qualquer tentativa de profundidade no universo criado por James Cameron, a começar pelo cansativo mote ambiental que até mesmo Al Gore soube trabalhar de forma mais convincente (e eu jamais pensei que elogiaria uma conquista cinematográfica de Al Gore. Olha o que você me fez fazer, Cameron!).

Desperdiçado, Giovanni Ribisi interpreta um pau mandado corporativo que lembra remotamente Paul Reiser em Aliens[bb]. No entanto, a poderosa Weyland-Yutani daquele universo não é nem de longe tão mal construída quanto a corporação que invade impiedosamente as terras dos Na’vi’s. A preguiça roteirística foi tanta que não há sequer um nome para a organização vilanesca da vez. Os marines que marcham por Pandora são quase todos unidimensionais, com exceção (ou não) da personagem de Michelle Rodriguez, a nova Vasquez, que sem quaisquer motivos troca de lado e passa a massacrar humanos em nome dos novos colegas azuis que não estabelecem relação alguma com sua “defensora”.

Sam Worthington está longe de ser um mau ator, no entanto, seu Jake Sully não é nenhuma Ellen Ripley, suas motivações são circunstanciais e seu amor clichê por Neytiri (Zoe Saldana) surge do convívio semi-forçado. É difícil realmente se importar com o destino do casal num contexto de relações tão estereotipadas. E, falando nisso, o que dizer sobre os Na’Vi’s? A fusão de índios[bb] com inspirações africanas beira o patético. Por que criar um idioma alienígena complexo se a tradução geográfica do planeta evocará nomes banais como: Árvore-Lar e Floresta das Almas? Sem contar a própria motivação dos terráqueos com a invasão de Pandora: obter o ‘Unobtainium’. James Cameron (ATUALIZADO)brinca com o latim e cria se utiliza de um dos mais sem graças MacGuffins da história do cinema.

Ainda que defendam uma fraca história em prol de uma alta qualidade em efeitos visuais, devo dizer que esses também não me impressionaram o suficiente. “Agora você está sendo apenas chato, Denis”. Culpem o trailer de Alice[bb] em 3D, algo que foi de longe mais invasivo e surpreendente do que as mais de 2h30 de Avatar, cuja tecnologia 3D se resumia ao cair de folhas, labaredas de fogo, e uma legenda dançante que se escondia na profundidade.

Why So Serious?Como um entusiasta de ficção cientifica saí do cinema arrasado (e no pior dos sentidos). O enredo batido, personagens planos (o que dizer do estereótipo do Magical Negro sendo novamente ressuscitado?) e efeitos visuais que ficariam lindos num videogame, Avatar foi para mim a decepção final de 2009. Fruto de anos de expectativas se esvaindo por um ralo em três dimensões. Algo que me fez pensar: teria James Cameron perdido a mão por completo? Ou estaria ele rindo de nós, seus fãs, ao lançar duas horas de testes de efeitos especiais sem qualquer compromisso com um enredo envolvente e personagens verdadeiramente carismáticos? George Lucas feelings?

Para o Avatar de James Cameron tenho apenas três palavras: Pixar faz melhor.

Obs: Me abstive de fazer comparações com Distrito 9, meu filme favorito em 2009 porque representa o completo oposto do que concluí acima.

Obs2: Uma garota dormiu na cadeira ao meu lado durante o filme, acordou num dado momento e perguntou em voz alta: “isso ainda não acabou?” Ou seja, sei que pelo menos mais alguém ficou tão pouco impressionado quanto eu. Dormirei em paz esta noite.



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Goma de Mascar no Facebook

  • http://percepcaoenergetica.blogspot.com/ Fernanda Paro

    O filme é lindo e a história é o “clichê” mais real que existe, vivenciamos este “clichê” todos os dias.
    Nunca é demais relembrarmos nossa historinha hipócrita e devastadora, não é mesmo?
    Acho que vc tem que tentar ser menos “raso”, ok? Chega de superficialidade, cara pálida!
    Não é a toa que foi indicado a 9 Oscars, ou será que você e mais meia dúzia de “cri-críticos” de plantão que entendem bem de filmes e não acharam graça no filme?
    Acredito que não entenderem mesmo…
    Um bjo e boa sorte.

  • Fabrício

    Excelente crítica!

    Fico feliz de saber que mais pessoas pensam como eu.

    Quase dormi na metade do filme e só não saí porque estava acompanhado. Legítimo filme “sem ‘por que?’ nem ‘pra que?’”.

    Nem vou entrar em detalhes mas não entendi, dentre outras cenas bizarras, por que uma estrutura robótica elétro-hidráulica, em 2154, sonho de todo engenheiro de mecatrônica, tinha uma faca “do Rambo” em substituição da metralhadora que se quebrou após bater pela terceira vez numa pedra.

    Nunca saí de uma sessão de cinema tão decepcionado. E viva a cultura das (para as) massas!!

  • Mario

    O interessante é que as pessoas que vem com o papinho “isso é filme para as massas” são as que fazem comentários menos pertinentes. Fabricio, uma faca seria útil porque não importa o avanço tecnológico; em algum momento, a munição sempre acaba. Ou você acha que os soldados atuais, apesar de terem à disposição tantos armamentos, carregam facas para quê? Só para cortar o bife?

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