Auto-tune seu “American Idol”


Existe uma contradição na definição mais básica de “American Idol”. Após anos insistindo que o programa é a tal “singing competition” (concurso de canto), também se percebeu que o programa é a busca pelo tal “it”. O que é “it”? Talvez seja o “fator X”. Aquela característica que um popstar memorável tem e que até compensa algumas deficiências vocais. Uma mistura de presença, atitude, carisma, “artistry”.

Mesmo assim, saber cantar continua requisito básico de um verdadeiro “American Idol” (embora, como já se provou, não seja um requisito básico de um finalista). É por isso que, sempre que um jurado diz que um candidato “soaria incrível no estúdio”, os fãs dão um sorrisinho irônico e pensam em como teriam que melhorar aquela voz para conseguir um resultado minimamente aceitável.

Pois chegou a hora de descobrir.

Desde a sétima temporada, os finalistas têm a oportunidade de gravar uma versão de estúdio da música escolhida em cada semana. Essas versões trazem a música completa (a apresentação ao vivo é cortada abaixo de 2 minutos) são vendidas no iTunes. E, como qualquer gravação de estúdio, acabam recebendo alguns aprimoramentos.

Neste top 12, há algumas diferenças notáveis. A “Ruby Tuesday” da Lacey Brown é bem mais redondinha no estúdio. O refrão sofrível de “Gimme Shelter” da apresentação do Andrew Garcia produz menos sensações desagradáveis. A “Wild Horses” da Katie Stevens sai mais afinada. Mesmo a “Playing with Fire” da Didi Benami continua uma bela surpresa – e, desta vez, sem as confusões com as letras. E confesso que prefiro ouvir o Big Mike e seus agudos de “Miss You” sem assistir sua movimentação (desesperada, segundo Simon Cowell) no palco.

Há também alguns prejuízos na pasteurização de estúdio. Isso atinge quem mais se destacou na apresentação ao vivo da terça-feira.

A grande vítima aqui é a Siobhan Magnus. A gravação de estúdio não é ruim e tem menos falhas do que a performance ao vivo. O problema é que foi isso o que tivemos na terça-feira: uma performance. A gravação de estúdio remove a iluminação, o figurino, o drama – acentuado pela compressão da música. Ao vivo, existe uma nota inacreditável. No estúdio, existe uma nota competente. O contraste entre o agudo impensável e o final doce foi levado embora. É o mal que atingia Adam Lambert no ano passado.


Extremos: Crystal Bowersox e Tim Urban

Mas o estúdio não altera as grandes verdades da competição. A Crystal Bowersox continua uma vocalista fantástica fazendo uma versão envolvente de “You Can’t Always Get What You Want” com uma energia que não some no estúdio. E com a vantagem de ser uma gravação de 4 minutos – o dobro do tempo de cada candidato no programa. Eu ouviria a Crystal Bowersox por 4 horas.

No outro extremo, a segunda verdade: o Tim Urban não se salva nem ao vivo, nem no auto-tune. Primeiro porque seu maior problema não foi cantar no tom certo (eu poderia comemorar essa melhora, mas aí eu teria que parabenizar todas as pessoas que conseguiram nota 90 cantando “À Francesa” no videokê), já que sua “Under my Thumb” não exigia muitas qualidades vocais. Segundo porque nenhuma mágica de estúdio poderia resolver aquele reggae que ele tentou fazer com a música dos Rolling Stones.

A única macumba capaz de salvar aquele desastre, como se sabe, são os telefones celulares das adolescentes.



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