“American Idol” repensa (mas não reinventa) a canção do vencedor


As letras falam sobre obstáculos e superação. A música é uma balada emocional: uma estrofe lenta com piano, um arranjo de cordas que cresce aos poucos, uma transição (bridge) que leva o vocal a explodir no refrão – para, em seguida, voltar ao tom comedido do início. Você já ouviu isso antes? Claro que sim.

É assim que funciona uma “coronation song” – a canção do vencedor em reality-shows como “American Idol”. A receita de bolo é tão disseminada que foi exposta em “The Winner’s Song”, o single da fictícia Geraldine McQueen, personagem de uma sátira produzida pela TV britânica em 2008 (a música foi assinada pelo comediante Peter Kay e pelo cantor Gary Barlow, do Take That).

Em “Idol”, a tal “coronation song” costuma ser escrita especialmente para aquele momento em que papel picotado prateado cai do céu sobre do vencedor (uma exceção foi “Flying without Wings”, na segunda temporada – sim, fizeram o pobre Ruben Studdard cantar um cover de Westlife!). Kelly Clarkson mal pode acreditar que tudo isso está acontecendo com ela, e é coroada a primeira vencedora. Jordin Sparks canta que chegou o momento dela, soluça o último verso e leva o título da sexta temporada.

Kris Allen vence American Idol, em 2009

Mas a receita de bolo ganhou mais chantilly no ano passado, quando a jurada Kara DioGuardi co-autorou com Cathy Dennis e Mitch Allan a música “No Boundaries”.

Vamos abrir parênteses aqui:
(É divertido gongar a Kara, mas ela tem composições melhores como “Walk Away” (Kelly Clarkson) e “Terrified” (Katharine McPhee). A Cathy Dennis também tem o dedinho em músicas pop geniais como “Toxic” (Britney Spears) e “Once” (Diana Vickers). E o Mitch Allan já colaborou com a banda Daughtry, Faith Hill e Backstreet Boys. Para completar, “No Boundaries” foi produzida por Emanuel Kiriakou – por quem eu tenho admiração especial por causa do disco “One Too Many: Live From New York”, gravado com o new kid on the block Joey McIntyre.)

Pois finalmente um time de comprovada experiência e competência pop foi escalado para escrever o single da vitória. E o resultado foi a maior chuva de clichês da história da música.

With every step you climb another mountain
Every breath, it’s harder to believe
You’ll make it through the pain, weather the hurricanes
To get to that one thing.
Just when you think the road is going nowhere
Just when you almost gave up on your dreams
They take you by the hand and show you that you can
There are no boundaries.

A canção é tão constrangedora que acabou sendo cortada do repertório do idol Kris Allen na turnê com os dez finalistas da oitava temporada. Talvez para evitar uma nova saia-justa, nesta nona temporada Crystal Bowersox e Lee DeWyze não ganharam músicas inéditas especiais para serem lançadas como o single da vitória.

O uso de músicas já conhecidas (em vez de “coronation songs” originais) é costume em “The X Factor”, o outro concurso de talentos de Simon Cowell. Leona Lewis reciclou “A Moment Like This”, de Kelly Clarkson. Alexandra Burke foi mais uma intérprete de “Hallelujah”. E Joe McElderry teve que se contentar com “The Climb”, de Miley Cyrus (pois é – usar músicas já existentes não livra ninguém de cantar clichês sobre superação).

Em “Idol”, Crystal e Lee puderam escolher – provavelmente dentro de uma lista – qual será seu primeiro single após o programa. Faz sentido, já que ninguém pretende ouvir um disco inteiro de canções motivacionais com nenhum dos dois finalistas. Como resultado, Crystal cantou “Up to the Mountain” (música de Patty Griffin regravada recentemente pela Susan Boyle – mas mas que teve uma versão linda de Kelly Clarkson em uma das edições de “Idol Gives Back”) e Lee ficou com “Beautiful Day” (aquela do U2).

Este não é o momento de analisar se algum dos dois acertou mais que o outro, ou de tentar adivinhar se algum dos dois singles fará algum sucesso no mundo real.

Mas, se faz sentido trocar a música temática por uma música de verdade, não faria ainda mais sentido ter deixado Crystal e Lee cantarem suas próprias composições?
Lee e Crystal cantam, tocam e escrevem
Crystal se assumiu como compositora há muito tempo, chegando a lamentar a impossibilidade de cantar suas músicas nas semifinais. Quando visitou sua cidade de origem, fez questão de cantar sua “Holy Toledo”, e se emocionou quando os produtores utilizaram a canção na edição do vídeo.

Lee também tem um passado de músico: apesar das inúmeras referências de Ryan Seacrest a seu emprego na loja de tintas, ele chegou a lançar dois discos antes de participar de “Idol”. E não faria feio cantando “Annabelle” ou “Princess” no palco da final.

Afinal, idols bem-sucedidos como Kelly Clarkson e Carrie Underwood se envolvem cada vez mais na composição de suas músicas. Os dois finalistas do ano passado, Kris Allen e Adam Lambert, já têm créditos em algumas faixas de seus trabalhos pós-Idol. O mesmo vale para David Cook, que já era um cantor experiente antes de participar do programa.

Com o überpop “The X Factor” na esquina, não seria uma saída para “American Idol” apostar nessa tendência?



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