A Verdade Nua e Crua


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No século V a.C. eles tinham as lanças. No século XXI d.C. elas têm as comédias românticas. Filhotes da mente criativa de cineastas como Nora Ephron e netos da literatura de Jane Austen, as comédias românticas atendem a uma demanda que exige a transposição do conto de fadas para os dias atuais. Nelas, a figura da mulher é o centro da ação enquanto ao seu redor desenrolam-se etapas previsíveis, mas necessárias de uma espécie de jornada heróica até o inevitável beijo final (e sim, ele sempre vem).

Estreando nessa sexta (18), A Verdade Nua e Crua não foge a regra e apresenta mais um roteiro fundamentado nas comédias que inundam Hollywood nos últimos 25 anos. Estão lá todos os elementos que compreendem esse universo, a começar Abby, uma produtora de televisão com trejeitos de Liz Lemon e gracejos de donzela atrapalhada, interpretada por Katherine Heigl (a Izzie de Grey’s Anatomy[bb]). Ela, inconscientemente uma mulher bonita, bem sucedida e obviamente infeliz, é o ingrediente certo para o começo de qualquer comédia romântica que se preze.

Por um relance do destino (sempre ele!), Abby se depara com o homem que representa a antítese de seu amor ideal, Mike Chadway (interpretado pelo escocês Gerard Butler, o Leonidas de 300[bb]), apresentador de um grosseiro programa para ‘machos’ chamado “A Verdade Nua e Crua”. Não demora muito para que Mike e Abby sejam colocados num mesmo ambiente, forçados a trabalharem juntos em prol da audiência e inevitavelmente reconhecerem, um no outro, tudo aquilo que temiam não aceitar em si mesmos.

É no decorrer desse fiapo de história que se desenrolam todos os rodeios comuns aos romances, desde o desprezo inicial mútuo e a introdução do concorrente que ameaça o amor dos protagonistas, até a transformação da já bela em ainda mais bela e o desfecho com a dança mágica que, desde Cinderela, vem aproximando os casais mais improváveis do tal ‘felizes para sempre’.

Por mais que seja incômodo ver Heigl forçando-se ao pastelão ao fazer cenas em que se pendura em árvores para resgatar seu gatinho ou em que inadvertidamente promove um orgasmo à mesa que deixariam Harry E Sally[bb] envergonhados, o filme cumpre tabela ao divertir sem exigir muito do espectador. Resta entender, nesse previsível e fantasioso mundo das rom-coms (“romantic-comedies” na gíria cinéfila gringa), o papel soberano da mulher até mesmo em suas trapalhadas, que estão lá estrategicamente para reforçar sua imperfeição e humanidade, provocando sua indelével identificação com os espectadores. Quanto a Butler, bem longe do Peloponeso, cabe fazer o papel bidimensional de marrento com coração que eventualmente se desvirtua de suas falsas convicções para tomar seu devido lugar ao lado da parceira de seus sonhos.

Dirigido por Robert Luketic, o mesmo por traz do bom Legalmente Loira[bb](diga o que quiser, Elle Woods é um bom personagem) e do fraco A Sogra, A Verdade Nua e Crua provavelmente não figurará entre os grandes filmes do subgênero, mas certamente tomará seu devido lugar dentre os divertidos, embora esquecíveis, romances do Século XXI.



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