A REDE SOCIAL quer que você aperte o botão curtir, eu não



Olha só você discutindo em público ou entre quatro paredes o status do seu relacionamento. Esteja solteiro ou em um compromisso enrolado, não importa. O que importa é que suas discussões agora são consultáveis, especialmente por aqueles mais próximos, aqueles que te seguem nas tais redes sociais, redes como… o Facebook. De onde surgiu a brilhante – e aqui podemos deixar um espaço para que você mesmo preencha o adjetivo – idéia de publicar todos os pormenores de nossas relações interpessoais na internet? Certamente não foi Mark Zuckerberg o primeiro a pensar em algo assim, mas como percebemos em “A Rede Social”, foi dele a iniciativa de colocá-la em prática mundialmente.

Como uma versão reencarnada prematuramente do Bill Gates de “Piratas do Vale do Silício”, o Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg) da ficção é um produto preenchido pelos clichês do gênio hollywoodiano. Estão lá tanto o comportamento anti-social que beira uma desordem psicológica quanto a genialidade sem paralelos, que é destacada desde o primeiro diálogo, para entendermos que estamos diante de uma criatura singular, capaz de gabaritar o STA, um dos mais importantes exames americanos. Somando isso ao amontoado de conversas anormalmente velozes – montadas especificamente para distanciar o protagonista do estereótipo do “savant” – e as cenas em que Mark dá as costas para professores ou esnoba figuras de autoridade após ilustrar como todos ao seu redor são menos inteligentes, temos aí um personagem que poderia ser facilmente pareado entre os grandes campeões de audiência da TV americana, estamos acenando para vocês Gregory House, Patrick Jane, Carl Lightman, Sheldon Cooper…

Ao invés de solucionar crimes, interrogar suspeitos ou teorizar sobre física quântica, o personagem Mark Zuckerberg – diferenciado assim por possuir uma contraparte na realidade que pode discordar de sua representação nas telas – aplica seu intelecto de forma mais prática, mas não menos embasbacante. Após uma noite de bebedeira e um truncado término de namoro, Mark criou o Facemash, site ilegal, imediatamente acusado de sexista, que rankeava alunas de Harvard conforme os critérios definidos pelos usuários.


Foi esse o ponto de partida escolhido por Aaron Sorkin, roteirista, e David Fincher, diretor, para contar a história controversa que levou ao Facebook, um dos maiores negócios do mundo, valendo hoje em torno de 25 bilhões de dólares. Mesclando passado e presente, o filme valsa entre os processos sofridos em nome da rede social. Sem maniqueísmos, somos levados a perceber como se construiu a idéia bilionária que não nasceu do dia para o noite e nem foi fruto de uma única mente brilhante, mas foi sim articulada por uma dupla de empreendedores. Parceiro de Mark na tal empreitada, o brasileiro Eduardo Saverin (Andrew Garfield) foi o investidor que acreditou no potencial daquilo que estava sendo desenvolvido nos dormitórios de Harvard, e acabou sendo pivô de uma das maiores batalhas judiciais retratadas no filme.

Apesar de competente e intrigante, “A Rede Social” sofre com o próprio âmago de sua narrativa. Nas palavras do verdadeiro Eduardo em um artigo para a CNBC, o filme não possui a fidelidade de um documentário, mas conta uma história com a qual ele pode se identificar parcialmente. A parte com a qual ele não se identificou ficou de fora do texto, mas podemos tentar especular sobre ela aqui, sem a obrigação de acertarmos, claro.

A verdade é que esse mundo, tal qual roteirizado por Aaron Sorkin, não soa real. Os personagens que nele habitam parecem simplesmente orbitar ao redor de um robótico Mark Zuckerberg, retratado como um jovem anormalmente genial, incompreendido a ponto de lhe faltarem os básicos componentes emocionais capazes de torná-lo uma figura complexa. Até mesmo em seu maior ato de canalhice, isolando Eduardo da companhia, Zuckerberg soa como um eco de ser humano, cercado por pessoas colocadas como saudavelmente gananciosas – afinal, trata-se de uma narrativa neoliberal em toda sua glória -, enquanto ele próprio não recorda muito bem a motivação principal que o levou a tamanha empreitada. Seria a fama ou a fortuna? Queria ele mudar ou dominar o mundo? Foi tudo culpa da garota que o dispensou, com certa razão, nos primeiros cinco minutos da narrativa?

Se investigarmos mais a fundo a realidade elaborada em “A Rede Social”, passamos a enxergar que tamanha debilidade emocional se alastra pela maioria dos personagens. Enquanto Mark é a própria representação da insignificância, seus amigos e inimigos não deixam de tentar completá-lo, cada um em sua unilateralidade. Não importa que haja três grandes antagonistas representados na figura dos gêmeos Winklevoss (Armie Hammer) e Divya Narendra (Max Minguella), o que importa é que o trio manifesta-se em uníssono através da raiva pela suposta idéia roubada que deu origem ao Facebook. No lado dos aliados, Sean Parker (Justin Timberlake) cumpre o papel do ganancioso paranóico que, mesmo sendo um dos maiores incentivadores do projeto, parece incapaz de estabelecer laços de amizade com qualquer outro ao seu redor. Programado para a mesquinharia, Sean não é lá muito diferente do próprio Mark, apesar da desenvoltura e maneirismos, suas motivações não vão muito além do dinheiro.

Agindo como coração para um filme desprovido dele, Eduardo Saverin faz o que pode para se estabelecer como o personagem que cativa a audiência. No entanto, a realidade que Hollywood não se permitiu adulterar infelizmente tirou a chance de podermos entender a natureza de sua amizade com o notório colega de Harvard. Em sua única cena afastado de Mark, mas ao telefone com ele, tivemos o vislumbre de um rapaz solitário, trabalhador e que tem que lidar com a ironia de ver seu próprio produto sendo usado como ele numa briga de casal.


Justamente após esse momento, fica claro o ponto chave em que a falta de verossimilhança do universo d’”A Rede Social” se configura: o mundo ao redor de Zuckerberg também carece quase completamente de mulheres reais. Erica Albright (Rooney Mara), a namorada que provocou a reação em cadeia, é representada como insensível e irredutível. Uma espécie de reflexo do próprio Mark que o impede de se relacionar com o mundo.

Entre advogadas sem expressão, parceiras que inexplicavelmente sofrem surtos psicóticos, freqüentadoras de festas de fraternidade e jogadoras de videogame sem falas, as mulheres ali representadas permanecem na sombra de um clube tão exclusivo quanto os ‘final clubs‘ para os quais Mark gostaria de ter sido selecionado – apesar de não sabermos o que ele faria ao entrar. Salvo o diálogo final de Marylin Delpy (Rashida Jones) com seu socialmente inepto cliente, “A Rede Social” se configuraria num espetáculo de 120 minutos em que caricaturas masculinas transladam por um mundo de mulheres frívolas enquanto batalham por dinheiro e poder, sem necessariamente compreenderem o que farão quando o conseguirem.

Quando as luzes se acendem e os créditos começam a subir, a dúvida que se abate sobre o espectador é: como um filme que conta a história de pessoas reais que inventaram uma das maiores redes sociais do mundo pode ser tão desprovido de humanidade? Seja na ganância egoísta ou na cumplicidade fraternal, pessoas reais têm razões de ser, dramas particulares a serem solucionados ou mesmo momentos introspectivos em que duvidam de suas decisões. Ao encerrar o filme dando refresh na página da única que pareceu querer lhe estender a mão, o personagem de Mark Zuckerberg permaneceu friamente incapaz se conectar com qualquer outra pessoa, nem mesmo via Facebook.

Se pessoas assim estão por trás da maior rede social do mundo, sugiro desligarmos nossos computadores e sairmos de casa, sem confirmarmos presença em nenhum evento e sem hora para voltar.



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Goma de Mascar no Facebook

  • Artur

    o que você descreve nos seus argumentos é exatamente o que faz esse filme ótimo. você tá ultrapassado! rs

  • http://www.facebook.com/pedro.quera Pedro Quera

    resenha perfeita, fiquei com vontade de deletar o meu face depois do filme,hehe tudo bem que hollywood super-estereotipa mas o tal zukberg deve ter lido o roteiro e se aceitou, deve mesmo ser arrogante e prepotente..