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Goma recomenda:
A Goma viu: O Exterminador do Futuro 4 – A Salvação

Sabe aquela frase que anda cada vez mais batida nos trailers “Esqueça tudo o que você sabia sobre tal coisa”? Pois então, esqueça essa frase porque em “O Exterminador do Futuro 4 – A Salvação” o importante é lembrar de tudo aquilo que você viu nos vários produtos da série. Desde os clássicos filmões dirigidos por um megalomaníaco (e com razão) James Cameron até os quadrinhos, o mal fadado terceiro filme e a recém cancelada série de televisão.
Ainda que Salvation (chamemos ele assim) pretenda ser um recomeço da franquia, todas as provas apontam-no como um grande somatório de referências das obras anteriores. Como representante da Goma na cabine de imprensa que exibiu o filme uma semana antes do seu lançamento oficial no Brasil, eu estava lá, tenso em rever os personagens de uma mitologia que particularmente adoro.
A parte ruim disso é que vai ser impossível para esse que vos fala fazer uma resenha limpinha e sem spoilers, foram muitas as observações e tô preparado para esmiuçá-las sem tomar qualquer cuidado. Portanto, leia por sua conta e risco (ou espere até ver o filme depois volte aqui pra concordar ou discordar!).
Uma coisa é certa, apenas cinco elementos na saga do Exterminador são constantes: Sarah Connor, Kyle Reese, Skynet, T-800 e John Connor. O resto pode e será drasticamente alterado de filme para filme. Em Salvation, as alterações foram muitas e os fãs tiveram que se agarrar vertiginosamente aos elementos que permaneceram inalterados. Sarah Connor, mesmo não aparecendo, está lá presente tanto em suas gravações (a fita original que ela grava para o John no final do primeiro filme é reproduzida quase na íntegra, e é de cortar o coração dos seus admiradores), quanto na imagem do próprio John Connor. Sabe aquela figurinha patética dos outros filmes? Ele sumiu e foi substituído por sua mãe. John fala como ela, grita como ela e é quase tão obstinado quanto ela. Freud explica!
Transformado em uma espécie de soldado paranóico workaholic que pula de helicópteros em pleno oceano atlântico, John Connor tornou-se uma bomba relógio cuja única preocupação é entender o futuro que lhe fora contado e antever os passos de seu adversário paradoxal: Skynet. A cena específica em que Connor grita com seus superiores (ele agora tem superiores, veja só) que todos irão morrer se não fizerem o que ele pede me lembrou muito a cena da Sarah com o Doutor Silberman em T2.
Para não deixar o espectador novato completamente perdido, o filme introduz em texto um resumo a la 140 caracteres da trama dos filmes anteriores, mas seu maior recurso foi criar o personagem Marcus Wright (Sam Worthington), o exterminador que não sabia que era um exterminador e por isso a história da guerra contra as maquinas precisa ser contada novamente. No entanto, o grande problema do Marcus é justamente sua condição de “perdido”. Seus gritos de horror, choque e violência a cada vinte minutos são completamente desnecessários, ainda assim é ele que nos leva a conhecer finalmente a Skynet (que agora tem um rosto e pasme: é a Helena Bonhan Carter – eu sempre soube que Bellatrix era má, mas nem tanto).
E quanto ao resto dos personagens nesse filme de guerra dirigido pelo diretor videoclíptico McG? Melhor falar logo: quase todos são insignificantes. Kate Connor está lá apenas para não negarmos completamente o T3, mas está descaracterizada como só. Deixou de ser veterinária, virou médica (a necessidade é a mãe de invenção) e aparentemente está grávida de um John Connor Jr., mesmo assim em nenhum ponto do filme ninguém fala dessa gravidez. A mulher é simplesmente colocada de lado. Perderam uma boa chance de fazerem um paralelo com a própria Sarah, uma mãe em guerra.
Os soldados da resistência são coadjuvantes “camisas vermelhas” que servem para morrer ao lado de Connor, a que mais se destaca é Blair Williams que pra mim é uma releitura da Jesse do seriado Sarah Connor Chronicles. Em um dado momento ela desafia Connor exatamente como Jesse fez, até mesmo o físico de Moon Bloodgood lembra remotamente o de Stephanie Jacobsen.
Entretanto, o personagem que mais nos interessa fora a dupla principal é mesmo Kyle Reese (Anton Yelchin foi muito bem escolhido para o papel). Os momentos realmente tocantes do filme – o mais tocante que um filme pauleira de ação pode ser – envolvem Kyle, sua inocência libertária e positividade. Os elementos do primeiro filme estão com ele como a falta de habilidade na direção, a vontade de viver e até mesmo a frase assinatura que sempre me arrepia “come with me if you wanna live”. O momento em que John Connor e Kyle Reese se encontram pela primeira vez é de parar qualquer máquina. Não porque seja particularmente meloso, mas porque é cheio de significado para a mitologia da série. Pai e filho juntos, paradoxalmente o filho mais velho do que o próprio pai (toma isso Benjamin Button!).
O climão do filme é com certeza uma referência ao Iraque, a guerra é o foco e o humor foi completamente deixado de lado. É ação, tiros, porrada e gritos para todos os lados e a todo o momento. Chega a ser cansativo, mas o que nos leva até o final é a curiosidade (especificamente o fim do problema chamado Marcus). Aparentemente, ele foi o grande plano malévolo da Skynet. Enquanto os humanos festejam a invenção de uma freqüência sonora que desativa as máquinas (uma espécie de EMP), a Skynet criou o exterminador infiltrador perfeito capaz de se juntar aos humanos porque não sabe que na verdade trabalha para o inimigo. Imediatamente eu pensei: legal, a Skynet assistiu Battlestar Galactica e inventou o Cylon (que não sabe que é Cylon)!
Cá entre nós, Marcus é chato e tudo o que queremos é mais John Connor. A relevância da união dos dois só fica clara quando ambos invadem o quartel general da Skynet. Por acaso, o ambiente da Skynet é uma grande malévola Apple Store, onde tudo é touch screen e clean. E é claro, tudo tem wireless (vide Marcus). È dentro da parte mais industrial da Skynet que o grande ícone T-800 volta a aparecer, sim, ele mesmo o Governator voltou (ele disse que voltaria), mas infelizmente com tanta CG que fica difícil levá-lo a sério. Sabe o Xavier no final de “Wolverine“? É bem por aí!
Toda a seqüência de luta final é muito parecida (senão idêntica) a seqüência final de T2. O metal fundido, o nitrogênio gasoso e choque: a cicatriz de John Connor. Sim, no começo do T2 ele aparece com uma cicatriz very-macho no rosto e em Salvation descobrimos como ele conseguiu isso! Outra semelhança notável com o segundo filme foi a inversão a cena de perseguição, dessa vez os mocinhos estavam no caminhão e as máquinas eram as motos. Brilhante cena!
No final, o filme chega a ser interessante mas não supera nem de longe os longas de James Cameron. Falta algo a história. Seja a falta de humor (Christian Bale está terrivelmente sério, acho que agora entendi seu momento “its fucking distracting”) seja a falta de Sarah Connor ou a omissão daquele que é o mais importante elemento da série: a viagem no tempo.
Pois é! Nada de bolha temporal, nenhuma mençãozinha a viagens para o passado ou futuro! E olha que eu esperei pacientemente que no quartel da Skynet, ou Marcus ou John encontrassem alguma sala obscura no qual robôs pelados desapareciam sem mais nem menos. No entanto, fui embora frustrado e tendo que engolir um certo transplante que salva a vida de um dos heróis.
Então, Denis, mas o filme é bom? Sim, é bom, mas poderia ser muito, muito melhor. Não boto a culpa do McG, mas talvez nos roteiristas que não ousaram mexer com a cabeça do espectador explorando os paradoxos da mitologia. Algo que eu espero sinceramente que seja corrigido nos próximos filmes (e sim, eles virão).
Como últimas observações ficam aqui:
1) Quão inútil foi a personagem Star, que acompanha Kyle Reese? Ela simplesmente distribuía coisas que explodiam para personagens chaves e em momentos chaves. Torci para que ela morresse em algum ponto da trama, mas foi em vão. Derek Reese seria mais útil!
2) Ouvir Guns N’ Roses em 2018 pode despertar desejos homicidas e atrair máquinas até você. Muito cuidado.
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