2010 – O ano em que a lua será o limite


Vasculhando os feeds em busca de notícias interessantes para emplacar na Goma nesse começo de ano, me deparei com duas notas relacionadas ao filme Moon, de Duncan Jones. Numa delas, o próprio Duncan lamenta o fato da Sony Pictures estar boicotando a campanha do Oscar para o pequeno longa estrelado quase que integralmente por Sam Rockwell, num dos poucos papéis capazes de fazer bom uso da imagem desconcertada que o ator parece trazer para quase todos os seus trabalhos.

Na nota sequente, a mais curiosa e 2.0 que já vi, um grupo de fãs incluindo aí Jim Jarmusch e Neil Gaiman assinavam JÁ uma petição em prol da indicação do próprio Rockwell ao Oscar de melhor ator pelo papel de Sam Bell em Moon.

Mesmo tendo dado uma nota sobre o tal filme ainda não tinha sentado e ido atrás dele. No Brasil, não haverá exibição nas salas de cinema já que aparentemente a estratégia da Sony[bb] é atingir alguns poucos interessados, supostamente um público de cinema independente, mais afoito do chamado cinema de arte ou qualquer que seja a classificação mercadológica adequada ao argumento de que Moon seria um filme não merecedor do circuito comercial. Destaque para o fato de que sua bilheteria local, cheia de restrições, já ter pagado o custo da produção.

Com mais do que curiosidade, consegui assisti-lo logo após a virada e devo dizer que apesar de não ter me surpreendido, me comovi. Tanto com a atuação de Rockwell, quanto com o peso a ela dado pelo diretor. São raros os momentos no cinema de Ficção Científica em que os atores realmente se destacam sobre o cenário, muitas vezes fantástico, ao seu redor.

O filme que mantém uma história bem linear é plenamente compreensível, discutindo questões de isolamento, tal qual um Náufrago espacial, e os abusos corporativos plenamente explorados pelo cinema e pela literatura desde que William Gibson ajudou a cunhar o futuro cyberpunk no qual organizações se tornariam os novos Estado-Nações. Com uma trama que se apóia em conquistas cinematográficas anteriores (2001 e Solaris para citar algumas), Moon mantém em seu núcleo uma das questões primordiais de toda a ficção científica: o estabelecimento da identidade do homem frente ao futuro construído para si. E, sim, somente por ter essa como questão central, Moon já se qualifica como um bom exemplar do cinema sci-fi.

O escritor Aldous Huxley, muito antes de todos nós, já havia questionado por meio de um de seus mais controversos personagens, Helmholtz Watson, se seria possível “dizer alguma coisa a respeito do nada”. Ao confrontar-se com um nada admirável mundo em que o pensamento crítico era dificultado por comportamentos predefinidos e públicos preestabelecidos, Helmholtz enxergou nitidamente o sombrio futuro em que o potencial do homem se limitaria a responder às categorizações exteriores.

Desde então, a função social do sci-fi estabeleceu como uma de suas bases explorar livremente o potencial humano para extrapolar limites que lhe seriam impostos pelo futuro. Para todos os que assistiram as adaptações cinematográficas de Phillip K. Dick, isso está além do óbvio. Seja no cine-pipoca de O Vingador do Futuro no qual o protagonista enfrenta o controle comportamental de sua personalidade por meio de implantes de memórias que não lhe pertencem, até o mais cultuado Blade Runner em que questiona-se (abertamente) a identidade humana ou replicante de Rick Deckard, o caçador de andróides que em quase nada se diferenciavam dos homens, a noção de que nossa humanidade reside fora de qualquer tentativa de controle é evidente.

A força simbólica do estabelecimento da identidade na Ficção Científica também se fez visível no clássico moderno Gattaca, dirigido por Andrew Niccol. O personagem de Ethan Hawke é forçado a se travestir com uma identidade geneticamente superior para alcançar a realização de seus sonhos espaciais. O caminho das pedras de Vincent Freeman concluí-se no restabelecimento de sua personalidade com o abandono do planeta (e do futuro) que o fez ser quem não era.

Também na televisão, o paradigma da personalidade esteve presente desde a primeira encarnação de Patrick McGoohan como O Prisioneiro (Ele não era um número, ele era um homem livre) até a minha tão louvada série Dollhouse, na qual Echo, a protagonista da casa de bonecas, consegue resistir a frequentes implantes de personalidade, reconstruindo-se como uma nova pessoa capaz de acessar todas as memórias que lhe foram impostas pela Corporação Rossum.

De volta a Moon, a figura de Sam Bell quando confrontada com a noção de que sua existência beirava o maior grau de descartabilidade possível, resiste ao que lhe fora predestinado com uma singela frase dita ao companheiro artificial Gerty (voz de Kevin Spacey): “Nós não somos programáveis, Gerty. Somos pessoas”.

Por isso, em 2010, mesmo que a Sony Pictures te diga que certos filmes não foram feitos para você, mesmo que os estúdios tenham que incentivar diretores a diminuir o suposto grau de conflito e complexidade de suas histórias, não acredite neles. Acredite que no século XXI noções como “massa” e “alternativo” não podem mais se aplicar a pessoas que hoje se auto-publicam à vontade com ajuda dessa tal rede mundial de computadores[bb] (mesmo que o conceito de classe continue existindo).

Lembre-se que a ficção científica não existe somente para encher os olhos, ainda que fiquemos maravilhados toda vez que ela o faz. Ela existe – em essência – para estimular o seu questionamento e para nos ajudar a entender (às vezes batendo repetidas vezes na mesma tecla) que não existem públicos programáveis e mercados segmentados, existem sobretudo seres humanos, críticos, pensantes e ansiosos por filmes e idéias que os façam perguntar: quem sou eu?



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  • http://diretodocinema.wordpress.com Rafagoom

    O Cinema a serviço do homem. É nisso que acredito e por isso amo tanto a sala escura. Parabéns pelo texto, Denis. Agora sou forçado a procurar um torrent de Moon \o/

  • http://www.redecomics.com Rodrigo Cairo

    Parabéns mesmo, tbm vou catar esse filme, as pessoas precisam ter consciência critica, mto bom!!!!

  • http://hectorlima.com Hector Lima

    já começou 2010 destruindo!

    acredito na arte pela arte e acredito em filmes sem roteiro que encantem apenas pelo visual e\ou pela emoção que evocam. mas quando o roteiro é ruim, muito simplório ou ambas as coisas, puxa tudo pra baixo e só o visual não se sustenta.

    e muito diretor \ roteirista bom vai falar a mesma coisa: se você subestima muito a platéia na esperança de falar pro máximo número de pessoas possível com medo de não ser compreendido, pode parecer que o burro é você.

  • http://twitter.com/diego_medeiros Diegoo

    Moon é foda. Daqueles filmes que você leva dias para digerir.