Sobre macacos, homens e seu maior inimigo: o intelecto


Foi apenas em 1969 que o homem chegou à Lua, marcando-a como sua e garantindo simbolicamente a primazia enquanto espécie mais inteligente do universo conhecido. Entretanto, um ano antes, em 1968, a indústria cinematográfica já havia dado a volta ao redor do Sol e chegado muito mais longe do que qualquer foguete construído até então. Num planeta muito similar à Terra, macacos constituíam a espécie dominante, sendo não apenas fisicamente superiores a todas as demais formas de vida, como também intelectualmente superiores a qualquer ser humano sob seu jugo.

Entre homens e macacos, um abismo estava criado, estabelecido sobre um único conceito hegemônico: o de que a racionalidade, por si só, garante uma relação de inexorável conflito entre dominantes e dominados. No entanto, no decorrer de cinco filmes [1], a batalha entre símios e homo sapiens que ultimamente estava fadada a levar ambos a destruição ocultou o verdadeiro vilão por trás de toda e qualquer História (essa, com H maiúsculo): a Inteligência.

Antes de entrarmos nas noções estabelecidas pela série de filmes “Planeta dos Macacos”, faz-se necessário compreender de maneira geral como o conceito de Inteligência é visto por diferentes linhas de pensamento. Culturalmente, o termo “inteligência” pode possuir um número diverso de sinônimos que geralmente estão associados a esperteza, brilhantismo, solução de problemas complexos e principalmente transmissão de cultura e conhecimentos adquiridos através da linguagem.

Portanto, a Inteligência que nos interessa aqui é a que verte sobre duas diferentes correntes seguindo o preceito da “transmissão”. A primeira é a do desenvolvimento através do aprendizado. Tanto o psicólogo suíço Jean Piaget quanto o russo Lev Vygotsky defendem que a Inteligência seja um atributo humano capaz de ser desenvolvido socialmente.

A inteligência para Piaget é o mecanismo de adaptação do organismo a uma situação nova e, como tal, implica a construção contínua de novas estruturas. Esta adaptação refere-se ao mundo exterior, como toda adaptação biológica. Desta forma, os indivíduos se desenvolvem intelectualmente a partir de exercícios e estímulos oferecidos pelo meio que os cercam. O que vale também dizer que a inteligência humana pode ser exercitada, buscando um aperfeiçoamento de potencialidades, que evolui desde o nível mais primitivo da existência, caracterizado por trocas bioquímicas até o nível das trocas simbólicas [2].

Para Vygotsky, por sua vez, a inteligência é um atributo adquirido ao longo da vivência social. É através do desenvolvimento da linguagem que se forma o pensamento lógico e abstrato capaz de dar ao homem os instrumentos que chamamos de Inteligência, ajudando-o a transformar o mundo ao seu redor.

A grande contribuição no campo da inteligência (que por ora nos interessa) é que a mente humana é construída num processo dialético dentro de um contexto social. Ela não é apenas forjada, como num processo passivo, ela também influencia o meio em que está. O individuo é capaz de influenciar o meio em que vive e esse o influenciará num futuro [3].

Entretanto, correntes atuais de estudiosos defendem também que a Inteligência seja um atributo fisiológico do cérebro humano, capaz de construir padrões neurais que nenhuma outra espécie constituiria.

Alguns pesquisadores têm recentemente se dedicado ao estudo do cérebro, como base para novas ideias sobre o que é inteligência e como se deve medi-la. Muitos aspectos da anatomia e fisiologia do cérebro têm sido sugeridos como potencialmente relevantes para a inteligência (…) Avanços nos métodos de investigação, incluindo novas formas de imagens do cérebro, como o PET e ressonância nuclear magnética, certamente irão acrescentar a esta lista. Em um futuro não muito distante, poderá ser possível relacionar alguns aspectos do desempenho do teste de características específicas da função cerebral [4].

Cientes dessas explanações simplificadas do conceito que permeia a série, prosseguiremos agora a uma análise pontual dos enredos que constituem a saga:

O Planeta dos Macacos (1968)

Sinopse: Uma tripulação de astronautas sofre um acidente e cai em um planeta num futuro distante, onde macacos inteligentes capazes de falar são a espécie dominante, e os seres humanos são oprimidos e escravizados.

Humilhado, o astronauta George Taylor (Charlton Heston) revela sua condição ao casal de macacos Cornelius (Roddy McDowall) e Zira (Kim Hunter). Tentando se justificar, Cornelius utiliza a base argumentativa que todos os demais macacos naquele futuro pós-apocalíptico conheciam muito bem: pensávamos que os humanos eram inferiores.

Desprovidos de fala, arrastados sem roupa por campos desérticos e escravizados pelos seus mestres macacos, os humanos de “O Planeta dos Macacos” não possuíam noção de sua história. Ainda que seu cérebro não tivesse padecido de qualquer regressão evolutiva, sua capacidade de aprendizagem havia sido reduzida a praticamente zero, deixando lugar apenas para os instintos de sobrevivência. Entretanto, com a introdução do astronauta vindo de um passado no qual a humanidade permanecia no topo hegemônico da intelectualidade, é possível notar que o comportamento de alguns dos personagens escravizados, em destaque a humana libertada Nova (Linda Harrison), reforça a noção previamente estabelecida nesse artigo de que a Inteligência seria fruto da vivência social – fato que seria comprovado na sequência em 1970.

Ainda assim, o ponto crítico que define a racionalidade tanto dos homens quanto dos macacos como ponto de discórdia se dá na aproximação entre Cornelius e George. Ainda que ambos reconhecessem um no outros os instrumentos necessários para se estabelecer a trégua, a rivalidade dogmática entre espécies não permite que ambos sigam o mesmo caminho. Seus intelectos e conceitos morais são responsáveis pela cisão final que coloca George ao lado de Nova, rumando para a Zona Proibida.

De volta ao Planeta dos Macacos (1970)

Sinopse: O astronauta Brent (James Franciscus) é enviado para resgatar Taylor, mas sofre um acidente no Planeta dos Macacos exatamente como Taylor, que desapareceu na Zona Proibida. Juntos, Brent e Nova tentam encontrá-lo e nessa jornada, descobrem uma seita de seres humanos que temem o poder militar dos macacos. Conforme a tensão cresce, ambas as espécies ameaçam novamente entrar em Guerra.

Em meio ao fanatismo religioso dos humanos falantes que sobreviveram aos anos de opressão e holocausto nuclear, Nova permanece, agora ao lado de Brent, caminhando lentamente rumo à racionalidade. Apesar de um enredo que acrescenta poucas, mas importantes, novidades sobre o cenário futurista, “De volta ao Planeta dos Macacos” comprova próximo do final qual é a visão de seus criadores sobre o desenvolvimento e importância da Inteligência.

Temendo pela vida do homem com quem fugira da escravidão, Nova é forçada a enunciar sua primeira palavra (“Taylor”), desprendendo-se do silêncio que caracterizava sua inferioridade. Entretanto, tal desprendimento prenuncia apenas mais um ato de violência entre homens e símios. A noção de que uma humana poderia se tornar consciente de si a ponto de aprender a falar afasta os personagens do consenso e os leva à destruição final.

Fuga do Planeta dos Macacos (1971)

Sinopse: O mundo está chocado com a aparição de dois chimpanzés capazes de falar. A dupla que chegou misteriosamente em uma nave espacial dos EUA tornam-se o novo frenesi global, mas um homem acredita que eles sejam uma ameaça para a raça humana.

Após escaparem da destruição de seu planeta, Cornelius e Zira testemunham o apogeu do intelecto humano na Los Angeles dos dias atuais (anos 70). Sofrendo com a inversão de hegemonia, ambos se tornam ao mesmo tempo sensações da mídia e ameaça velada olhada com desconfiança por cientistas e militares. Oprimidos como jamais imaginaram ser possível, a dupla percebe que seu poder racional não os levará a uma saída pacífica, padecendo nas mãos de humanos que se provam tão ou mais intolerantes quanto os macacos da sociedade futura.

Em sua fuga desenfreada, o casal deixa no presente um herdeiro, Caesar, um macaco que, graças ao ensinamento de seus pais, aprendeu a falar ainda criança. Reforçando a noção de que a Inteligência não é uma atribuição apenas evolutiva, mas social, “Fuga do Planeta dos Macacos” prepara o cenário que conheceremos melhor na sequência de 1972.

A Conquista do Planeta dos Macacos (1972)

Sinopse: Filho de Cornelius e Zira, o macaco Caesar (Roddy McDowall) leva seus irmãos à revolução nesta quarta parte da saga. Após a extinção de cães e gatos em detrimento de uma praga, macacos assumem seu lugar juntos aos homens como animais de estimação domésticos. Multiplicando-se em número e em papel social, os macacos de estimação passam a conviver ainda mais com a humanidade, tornando-se veladamente seus escravos. Percebendo isso, Caesar, o único macaco dotado de inteligência, assume seu lugar como líder contra opressão.

Sendo a mais violenta continuação da série, “A Conquista do Planeta dos Macacos” não mede esforços para colocar homens e símios como antagonistas cruéis. Ainda que sejam estabelecidas relações de respeito e parceria entre ambas as espécies, (MacDonald-Caesar sendo a mais notória delas), a guerra motivada pelo despertar de consciência dos macacos ganha sustentação superficial num paradoxo: Caesar, apesar de ter nascido no presente, foi educado por pais vindos de um futuro distante, capazes de transmitir o conhecimento adquirido numa terra em que homens atuavam em submissão.

É a partir dele que outros macacos descobrem o poder da fala e consequentemente sua inteligência; entretanto, pela linha seguida desde o começo da saga, é possível teorizar que a proximidade com os homens (e absorção de sua cultura hegemônica) pelos macacos domésticos seria igualmente responsável por produzir uma geração de símios conscientes num futuro distante. E seria através dessa mesma consciência que ambas as espécies novamente rivalizariam intelectualmente.

Batalha do Planeta dos Macacos (1973)

Sinopse: Depois de dominar os homens opressores em “A Conquista do Planeta dos Macacos”, Caesar deve agora manter a paz entre os seres humanos e macacos. Entretanto, outras raças símias passam a discordar do tratamento dado a humanos nas novas cidades conquistadas, iniciando aí uma possível Guerra Civil entre macacos. Aproveitando-se das discordâncias, homens sobreviventes decidem retomar sua civilização perdida.

No derradeiro fechamento da saga que instituiria o Planeta dos Macacos, a “Batalha” se encerra dúbia. De um lado, o idealismo de Caesar parece tendencioso a estabelecer um diálogo entre espécies; entretanto, o racionalismo militar de seus inimigos supera sua passionalidade criando definitivamente um precipício intelectual entre os sobreviventes do pós-Guerra. Sombrio, “Batalha do Planeta dos Macacos” reforça que o conhecimento transmitido carrega consigo – dentro desse universo fechado – ramificações bélicas fatais.

Não há vitória em Homens vs Macacos

Após cinco longas metragens que oscilam o papel superficial da vilania e do heroísmo entre humanos e símios, tendo o terceiro deles um ponto de partida apocalíptico, fica claro que a mitologia estabelecida dentro dessa dicotomia de espécies é a de que estamos diante de um embate sem vencedores.

Indo contra a noção de que a linguagem permitiria diálogos, a saga do Planeta dos Macacos reitera que é através da própria linguagem que se estabelecem relações de dominação, e que seus usos diferenciados sempre abrirão margem para a discórdia, caminhando inevitavelmente para a extinção não apenas do pensamento racional, mas da vida por completo.

Numa trama que talvez não esteja consciente de seu neo-luddismo naturalista, a saga “Planeta dos Macacos” é possivelmente uma das declarações mais sombrias sobre o futuro da humanidade.

[1] Excluímos deste texto o remake de 2001 dirigido por Tim Burton e o filme estrelado por James Franco
[2] CHIABAI, Isa Maria. A influência do meio rural no processo de cognição de crianças da pré-escola: uma interpretação fundamentada na teoria do conhecimento de Jean Piaget. São Paulo, 1990. Tese (Doutorado), Instituto de Psicologia, USP. 165 p.
[3] REGO, Tereza C. – Vygotsky: uma perspectiva histórico-cultural da educação. Editora Vozes.1995
[4] NEISSER, Ulric – Intelligence: Knowns and Unknowns. American Psychological Association. 1996

[PUBLICADO ORIGINALMENTE NO MATÉRIA OBSCURA. Reproduzido sob permissão]



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