Extra! Extra! Homem Aranha é derrotado pelo(s) Abutre(s)


E enquanto roda o mundo a notícia de que a Sony Pictures arranjou o pato perfeito para levar adiante seus planos de reiniciar a franquia Homem-Aranha nos cinemas, passa pela minha cabeça o verdadeiro sentido que tramita na polêmica envolvendo a saída de Sam Raimi e Tobey Maguire.

Quando foi criado por Stan Lee e Steve Ditko tarde da noite num dos escritórios daquela que se tornaria uma das maiores empresas de entretenimento do mundo, o jovem Peter Parker estava destinado a se tornar mais do que um adolescente prestes a entrar na vida adulta. Já em sua origem o Homem-Aranha[bb] fora planejado para se tornar a representação ficcional de uma faixa etária desprovida de símbolos no qual poderiam se espelhar. Em 1962, época em que os super-heróis já estavam consolidados, era difícil fugir da fórmula mercadológica do personagem adulto, bem sucedido e que dividia seu tempo entre uma vida ordinária e o manto heróico. Lutando contra as estatísticas, Lee e Ditko tiveram que apostar tudo para convencer seus superiores de que seria possível sim um jovem como super-herói.

E como fizeram isso? Num mundo em que Batman e Superman sabiam exatamente o que queriam da vida, o jeito foi forçar o recém criado Peter a seguir o rumo oposto. Sem saber exatamente qual seu papel no mundo após o colégio, ele representaria de forma verossímil os jovens de 18 a 25 anos, hoje estratificados como pós-adolescentes, e tomaria os quadrinhos de assalto.

Não demorou muito para que a idéia ousada emplacasse e, destronando Robin e Billy Batson (que precisava se transformar num homem adulto para virar o Capitão Marvel[bb]), o jovem Homem-Aranha surgiu tecendo suas teias num espetáculo solo, firmando pouco a pouco as principais características que resultariam no sucesso do personagem até hoje. Não era o fato de ser órfão, nem de poder levantar toneladas com facilidade que o diferenciavam dos outros, mas sim, o fato de Peter ter contas a pagar, um chefe abusivo, dificuldade em acompanhar os estudos e, principalmente, a incapacidade de estar presente na vida daqueles que amava.

Nas mais diversas encarnações, desde o bizarro tokusatsu japonês, na qual o reimaginado Takuya Yamashiro era uma versão jovial e cheia de responsabilidades que enfrentava bandidos com seu robô[bb] gigante até em seu mais infantil desenho animado – e meu favorito! – “Spider-man and His Amazing Friends”, Peter era sempre representado como um jovem adulto que, no caso do desenho, dividia as contas de casa com Bobby Drake (Homem de Gelo) e Angelica Jones (Flama) enquanto cursavam juntos a mesma faculdade e enfrentavam os mais obscuros vilões com a companhia de Miss Lion, um lhasa apso adotado por Angelica.

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Lembrou?

Quando Sam Raimi[bb] fez a transposição do Aranha para as telas sua principal preocupação foi justamente apegar-se ao que se concretizou como essência do personagem. Mantendo as cenas do colégio num mínimo e focando na chamada vida adulta de um Peter que sofre com as mazelas da realidade, Raimi uniu realismo e fidelidade numa mesma página.

Se a Sony desgostava dos vilões, Raimi prestou o serviço de relacioná-los a trama sempre com uma ligação direta com a vida pessoal de Parker, criando assim a justificativa e a metáfora necessárias para dar o mínimo de coerência em suas tramas. Atingindo o ápice no segundo filme, o diretor contou a melhor das histórias unindo a idéia de desilusão amorosa, típica dessa tal pós-adolescência[bb] – não por acaso, foco do (500) Dias com ela, de Marc Webb – com a construção de um vilão quase impossível de ser detido.

Mesmo para aqueles que não gostaram dos abusos do terceiro filme defendo aqui a cena final em que Peter reconhece seus erros e procura Mary Jane para uma dança de reconciliação[bb] quase sem trocarem palavras. Ainda que os múltiplos vilões tenham sido um erro, ainda que a franja estivesse descabida, Sam Raimi nos deu em cinco minutos o toque de realidade indispensável a um personagem que está num crescente processo de amadurecimento.

Processo esse que não se encaixa em nada com a idéia da Sony de deixá-lo voltar a adolescência, enjaulando-o num colegial quase eterno, somente para garantir uma platéia continuamente reciclada. Se laçar a geração Crepúsculo[bb] é a proposta desse chamado reboot, devemos avisar os executivos que Peter Parker não é um vampiro e tão pouco tem a intenção de permanecer preso nos corredores de algum colégio no Queens.

Ainda que Brian M. Bendis tenha sido bem sucedido com seu Ultimate Spider-Man[bb], sua história permanece e permanecerá sempre uma recriação paralela do amigo da vizinhança que conhecemos. Já na continuidade oficial do aracnídeo, não é surpresa para ninguém que seus piores inimigos sejam mesmo os editores. Nenhum de nós esqueceu a recente bagunça feita por Joe Quesada ao forçar Peter a entregar as memórias do amor de sua vida para Mefisto – o demônio da Marvel – e consequentemente anular seus quase 25 anos de casamento. Tudo em busca do obrigatório rejuvenescimento do personagem.

Sendo um fã moderado de quadrinhos, especificamente do Homem-Aranha (os únicos que conseguiram escapar intactos dos anos de faxina alheia), eu entendo que a mecânica de reiniciar personagens faça parte do próprio cerne da indústria, mas deixo aqui registrado que até mesmo nos quadrinhos cumpre-se um ciclo de amadurecimento até que novas histórias precisem ser contadas. É lamentável que por um desentendimento dentro do estúdio, motivado (entre outras coisas) por remover Raimi e Maguire da divisão de lucros da bilheteria, não veremos esse ciclo sendo fechado nos cinemas.

Boa sorte a Marc Webb e seu repertório de videoclipes muito bem dirigidos, pois não será fácil – e nunca é – debater rumos de roteiro com grupos de acionistas que defendem suas decisões na base da planilha financeira. Acionistas que, veja você, ficaram extremamente ofendidos com a decisão de Raimi em manter o Abutre, um poderoso executivo que persegue fortuna e juventude[bb] eterna, como o principal vilão do amigo da vizinhança…



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  • http://twitter.com/laconics Naomi

    Denis, você matou a PAU neste texto, mesmo discordando com você de spidey 3 (que continuo achando que poderia ser um excelente curta, não é fluido, pontos negativos superam os positivos). Mas it’s a good point! Gostei muito! Thanks!

  • Barão Fenrir

    Disse tudo.

    E que viadagem é essa?

    “Your comment was a bit too short. Please go back and try again.”

  • Denis Pacheco

    Putz, Fenrir nem sabia q rolava essa msg nos comentários, vamos dar uma olhada nisso, rs