Em breve num cinema [estranho] perto de você! A Goma entrevista Ebbëto


É sempre bom quando temos a chance de noticiar iniciativas corajosas do cinema nacional. Semana passada conhecemos ANALOG, um dos primeiros curtas de ficção científica feitos no Brasil sobre uma máquina que viaja pelo espaço preservando um organismo vivo e entra em conflito com sua missão. Essa semana falamos com o homem por trás da ousadia cinematográfica, o ilustrador e apaixonado pela 7ª arte, Ebbëto.

Formado em Ilustração e Comunicação pela Académie Royale des Beaux-Arts da Bélgica e em Artes Plásticas pela FAAP de São Paulo, Ebbëto atuou em publicidade como Diretor de Arte e, após passar por algumas agências, decidiu trabalhar freelance como Ilustrador, Storyboards Artist e Video-Maker. Atualmente vive e trabalha em seu próprio estúdio em São Paulo, onde tem planos de produzir um longa-metragem.

Goma de Mascar: Uma questão intrigante para mim, e imagino para todos que amam o gênero, é: Porque, apesar de todo este background em ilustração e artes plásticas, o interesse em fazer cinema?

Ebbëto: Na verdade, o Cinema sempre foi o meu grande interesse. Minha meta. O desenho, de certa maneira, me veio naturalmente, intuitivamente, daí a escola de Belas Artes, a Ilustração, etc… Mas sempre soube que a única maneira de fazer a minha arte adquirir vida própria e chegar à sua plenitude, seria dotá-la de movimento e som. Para mim, a 7ª Arte consegue sintetizar todas as Artes.

G: São raras as iniciativas no Brasil de se produzir ficção científica. Geralmente filmes com temática futurista servem de veículos para celebridades ampliarem sua presença [vide "Acquaria", produzido pela FOX no Brasil]. O que te fez optar por esse gênero para seu segundo curta?

E: A Ficção Fantástica sempre foi o meu gênero preferido por ser mais insólita e abrangente. Nada mais natural passar para à Ficção Cientifica que é, talvez, o seu segmento mais expressivo, sem nunca esquecer o Terror – que permeia estes dois mundos – representando o medo do desconhecido. ANALOG é um exemplo da ligação umbilical que existe entre estas duas formas de expressão artística. A idéia para o filme surgiu no dia que, estando num bar, percebi um homem de cabeça raspada, olhando fixamente, friamente – para o nada, com os olhos mais negros, frios e inexpressivos que já havia visto. Naquela hora o filme se concretizou.

G: A trilha sonora no sci-fi sempre foi crucial para ambientar a audiência no universo representado na tela. Temas inesqueciveis tornaram-se sinônimos dos próprios filmes [a exemplo de Vangelis em "Blade Runner"]. O que o levou até Gilles Rossire e Gengivas Negras?

E: Há tempos a música eletrônica compõe a minha trilha sonora do dia-a-dia. Não falo do Techno e estilos semelhantes, em geral digitais e ritmados, mas do som mecânico, orgânico, das infinitas possibilidades dos sintetizadores analógicos, do som de máquinas, metais, elétrica, distorções de som e voz. Há um universo para se criar com esses elementos, verdadeiras “sinfonias”. Foi o que tentei explorar em ANALOG.

Gilles, ou, se preferir, Oil 10, no começo da década era a minha trilha sonora pessoal, a que me acompanhava à cada esquina que ia. A música “Passagen”, do incrível disco “Blocks”, era a minha preferida. Hipnótica. Eu a escutava em loop. Quando ANALOG saiu dos storyboards que desenhei e o processo da produção do filme começou, eu sabia que essa era a música para a seqüência do filme que chamo de “Construção” (trailer). Escrevi para o Gilles, que não me conhecia, pedindo permissão para usar a música e mandei um link para o meu 1º filme “Lagartija Nika”, que estava no site do festival japonês Con-Can, de Tóquio. Ele viu, gostou, e disse que poderia usa-la à vontade. Foi um dia incrível e desde então nos tornamos grandes amigos. Inclusive, recentemente, ele me pediu para usar cenas projetadas de ANALOG em sua apresentação no mega-festival alemão de música eletrônica Elektroanschlag.

Já para outra seqüência do filme, que chamo de “Desconstrução”, eu precisava de algo de extrema violência. Outra facção da música eletrônica que adoro: o estilo Noise-Industrial. Existem muitas bandas no mundo que seguem esse estilo, especialmente de países do norte e leste europeu, mas eu queria uma banda brasileira à qualquer custo, até mesmo por uma questão de orgulho. Pesquisando, me deparei com Gengivas Negras. Quando escutei e vi o clip deles “Homem Elefante”, me veio um sorriso sinistro… Não havia dúvida! Não somente eram brasileiros, como davam de dez em qualquer banda estrangeira do estilo. Os Gengivas Negras destroem tudo pela frente, mas com um detalhe: de uma elegância única. São Maestros do Caos. O filme contou também com a brilhante participação do músico e compositor paulista Renato Jaw, Editor Sonoro do filme que, embora sons abstratos eletrônicos não sejam a sua praia, conseguiu mergulhar de cabeça no mundo de ANALOG e compôs arranjos incríveis.

G: O trailer de ANALOG foi lançado na plataforma Vimeo com uma ficha técnica voltada para uma audiência internacional. Veremos o filme inteiro em festivais brasileiros?

E: Espero que sim. REALMENTE! Tem uns festivais alternativos brasileiros que agora estão a caminho e espero ter a oportunidade de apresentar e de ver a reação do público brasileiro. É o que o eu mais gostaria! O problema com os festivais tradicionais brasileiros é que são muito fechados conceitualmente. Parecem sempre procurar a velha fórmula do “draminha-a-dois” ou temas nacionais ou regionais de cunho social. Não bastasse isso, impõem, sem nenhuma flexibilidade, um limite de tempo ridículo, em média 15-20 minutos e ainda pedem o formato de exibição em 35mm… Francamente!

G: A união entre religião e a ficção cientifica já se provou bem sucedida antes [O universo de Frank Herbert em "Duna" é centralizado em guerras religiosas], qual a importância das ‘analogias bíblicas’ na trama futurista de ANALOG?

E: De total importância – é a essência filme. Embora dentro de uma visão pessoal-ficcional, sem querer ofender ninguém. Mas não posso revelar nada no momento. Estragaria a surpresa. “EM BREVE, NUM CINEMA (estranho) PERTO DE VOCÊ”…

G: Uma pequena equipe colaborou com a realização de ANALOG, existem planos de ampliar os esforços e dirigir um longa-metragem mantendo essa temática?

E: Com certeza. A minha equipe foi maravilhosa, única, e espero tê-la sempre ao meu lado. Estou nesse momento escrevendo o roteiro de um longa-metragem. Depois começa o processo da captação de recursos necessários para um projeto desta amplitude, o que, como você sabe, é difícil no Brasil; acrescente a isto a dificuldade de encontrar apoio para esta minha linguagem. Se conseguir, será maravilhoso; se não, vendo o carro, o cachorro… e retorno à guerrilha, onde não precisa de muito, basta “um cérebro positrônico na cabeça e uma câmera na mão”.

G: Estaremos no Brasil prontos para abraçar o cinema de ficção científica?

E: Sempre houve espaço para a ficção científica e fantástica no Brasil. Desde os anos ’30 encontramos na literatura algumas aventuras nesse gênero, inclusive do Mestre Érico Veríssimo; nos anos ’40-’50 os seriados de Flash Gordon e Buck Rogers que nossos pais tanto adoravam; nos anos ’60- ’70, também na literatura, temos a Magazine de Ficção Científica da Revista do Globo, inclusive com grandes escritores brasileiros; há décadas vemos reprises dos carismáticos Kirk e Spock na TV, sem falar no sucesso das sagas de Guerra nas Estrelas, Terminator, Matrix, as mega-productions do Spielberg, etc… Uma questão intrigante para mim, e imagino para todos que amam o gênero, é: Porque, apesar de todo este background, nós não temos filmes significativos de ficção científica, já que, claramente, existe um público cativo e entusiasta para este gênero de filmes no Brasil?



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  • http://hectorlima.com Hector Lima

    demais, Denis, parabéns! quero ver logo esse filme pronto.

  • Pedro Veiga

    ótima entrevista. vi o trailer e também estou ansioso para ver o filme pronto. parabéns!

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