Diretores conversam sobre seu trabalho em mesa redonda


Numa iniciativa das mais interessantes, o The Hollywood Reporter reuniu em grupos, figuras estelares da indústria cinematográfica responsáveis pelos filmes mais cotados para premiações como Globo de Ouro e o Oscar.

Enquanto Nicholas Cage discutia com Morgan Freeman a importância de se considerar o trabalho de ator como arte, Mo’Nique explicava as colegas Emily Blunt e Robin Wright como encarar uma cena de orgasmo diante de toda a equipe. Entre papos sérios sobre a presença das mulheres no cinema (ainda considerada esparsa pelas convidadas da mesa) e a importância de profissionais que compreendam o processo de cada ator, a mais interessante das mesas foi mesmo a que reuniu, com muito bom humor, os diretores Kathryn Bigelow, Lee Daniels, Peter Jackson, Quentin Tarantino, James Cameron e Jason Reitman.

É bom ver titãs da indústria sendo sinceros sobre suas escolhas cinematográficas e sua metodologia de trabalho. Obviamente, mesmo que o Tarantino se destaque como o mais falante da mesa, seguido bem de perto pelo filho do Ivan Reitman, foi de James Cameron a chance de ensinar aos novatos (ou nem tão novatos assim), as lições de alguém que promete morrer dirigindo.

Entre as curiosidades da entrevista, Cameron assumiu aquilo que já desconfiávamos, seu filão é o mainstream e seu objetivo é sempre fazer filmes para uma audiência global, nada de festivais independentes ou experimentações artísticas que, inclusive, são a causa das maiores inseguranças do diretor quando filma um novo trabalho. Sobre o fator dinheiro, ele defende a incomum hipótese de que fazer um blockbuster milionário pode ser mais simples do que tentar financiar um filme independente.

Assista nos vídeos trechos do debate (em inglês):

Kathryn Bigelow, ex-mulher de James Cameron e diretora do sucesso Guerra ao Terror (que só chegou ao Brasil em dvd), não concorda e nem discorda, mas joga na roda o fato de que independente do orçamento, cabe ao diretor dar o primeiro passo na produção e, muitas vezes, financiá-la ele mesmo.

Quando discutem sobre serem ou não forasteiros no universo hollywoodiano, a visão de Jason Reitman, filho de Ivan Reitman, é quase unânime. Todos ali, em algum ponto, cruzaram os limites geográficos e até mesmo de classe para se tornarem parte daquele mundo. E diz mais, nem sempre ter nascido no coração da indústria garante um lugar ao sol na meca cinematográfica: “O nepotismo fracassou comigo”, diz o cara que cresceu no set de Caça-Fantasmas.

Lee Daniels, diretor do recente sucesso Precious não esconde sua pouca intimidade com os colegas na mesa. Declaradamente de fora, Daniels afirma que por não ter saído do Harlem nunca se sentiu plenamente abraçado por Hollywood.

Embarcando numa discussão sobre a influência dos estúdios, dos produtores e sobre a importância de ter ou não o “corte final”, James Cameron conclui que tudo se resume a uma questão de instinto. Mesmo que hoje sua sólida parceria com a Fox lhe garanta quase que total controle sobre quaisquer produções futuras, Cameron relembra que no seu debut com Exterminador do Futuro precisou ser firme e defender uma história que muitos produtores consideravam confusa demais (sério?).

Matraqueando próximo ao final da entrevista, Tarantino foi polêmico ao afirmar pontualmente que irá se aposentar aos 60 anos, devotando o resto da sua vida a escrever ficção e literatura cinematográfica. Provocativo, o diretor de Kill Bill declarou também que pode desistir do cinema se as produções de 35mm forem substituídas pela projeção digital. Brincando com a situação, James Cameron e Peter Jackson foram categóricos: “Ninguém te contou ainda?”, “Tá acontecendo bem rápido, Quentin”.

Peter Jackson, que confessou suas fraquezas e dificuldades durante as filmagens de O Senhor dos Anéis e Um Olhar do Paraíso, encerrou dizendo que se inspira no método de trabalho de Clint Eastwood e Ridley Scott, esperando reinventar o modo como faz filmes, sem entregar dois ou três anos de sua vida num único projeto.

É bem legal ver figuras tão emblemáticas meio que numa mesa de bar discutindo não apenas sua profissão em seu caráter mais artístico, mas também os bastidores da produção de cultura enquanto mercadoria. E, num nível ainda mais pessoal, é bom vê-los reclamando das múltiplas interferências tanto dos estúdios quanto dos parceiros que volta e meia questionam o certo e o errado na complexa trama de decisões na qual consiste o trabalho de um diretor. Melhor ainda, mesmo sabendo da pressão que os grandes conglomerados que financiam o cinema, agora temos mais uma indicação de que a figura do diretor está ali não apenas para fazer o trabalho, mas para garantir a ele um relevante grau de integridade artística. Valeu aí, diretores!

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  • http://paulogallian.com Pôlo

    Ótima iniciativa, muito legal a conversa. Acho que nunca tinha visto esse tipo de entrevista relaxada com diretores, vale a pena também ler na íntegra a transcrição da entrevista (o link está no começo do post), que possui mais tópicos discutidos no encontro.

    Achei curioso como os cineastas de mais idade (na mesa) estão na ponta da tecnologia, empurrando as barreiras do digital, e o Quentin Tarantino, por exemplo, cutuca as onças com o lance do 35mm. Não é uma crítica a favor ou contra os avanços/retrocessos, só achei interessante observar isso.

  • http://www.twitter.com/roger_brandao rogério

    o James Cameron tá parecendo o Trinity! kkkkkk

    acho que esse encontro dos melhores aconteceu também em 2008 né?

  • http://twitter.com/sagas Guilherme Sagas

    comentei com o hector que parecem colegas de firrma. sentam juntos e já começam a falar mal do chefe.

    devia rolar um talkshow semanal com os diretores contando suas aventuras.