MIA e Romain Gavras vendem música com tapa na cara da sociedade. Quem compra?


O clipe BORN FREE da cantora anglo-singalesa estreou deixando pessoas atônitas pelas internets ao mostrar ruivos perseguidos e executados por soldados truculentos. Já está sendo considerada por alguns jornalistas como o clipe mais importante do ano. E me pergunto: importante por quê?

M.I.A, Born Free from ROMAIN-GAVRAS on Vimeo.

O autor dessa pérola é Romain Gavras, filho do diretor grego Constantinos Costa-Gavras [de DESAPARECIDO e ATRAIÇOADOS] que já havia feito o não menos contundente STRESS, clipe da dupla francesa Justice – para a qual ele também dirigiu o documentário A CROSS THE UNIVERSE, outro pontuado por cenas fortes mas também por armações no melhor estilo BORAT.

Romainzinho tem em seu currículo vários clipes, a maioria no estilo DENÚNCIA e usando da violência e crueza para fazer uma afirmação e dar tapa na cara da sociedade. E quem mais poderia contratar seus serviços se não a cantora nascida Mathangi “Maya” Arulpragasam, cujo pai lutou pela causa Tamil na guerra civil do Sri Lanka e que faz da militância um pedaço importante de sua arte [ou da arte sua militância]? Quase da mesma forma que fez de seu filho – antes e depois do seu nascimento – um meme.

O clipe de BORN FREE quer nos fazer acordar pra todas as situações de discriminação étnica e opressão governamental apelando pra nossa sensibilidade como seres humanos. Usa o velho recurso da inversão irônica pra afirmar um ponto. Podia ter usado loiras brancas protestantes. Usou ruivos, considerados – acredite se quiser – por algumas culturas como pessoas sem alma. Até aí, uma boa sacada, ainda que o desenho SOUTH PARK já tenha feito essa crítica de uma forma mais esperta com Cartman sendo transformado de Hitler para os ruivos como Hitler dos ruivos contra as outras etnias.

O que pega no clipe de Gavras é a mão pesada. Não confunda com moralismos contra violência estilizada – na ficção ela pode ser, muitas vezes é, bem divertida. Mas quando é usada pra esfregar um argumento na sua cara com sangue e te convencer pelo choque o mais forte e barato possível, eu duvido muito da boa intenção do artista-ativista em questão. É de um sensacionalismo quase tão ridículo quanto os Datenas da vida espumando na TV por indignação com um crime.

Romain tenta fazer do meio a mensagem, mas esvazia a força do argumento pelo exagero estúpido – sobra a sátira. Comparar com o clipe Telephone de Lady Gaga fica ainda mais descabido porque ambos têm discursos diluídos pelo exagero over the top: LG enfia tanto produto na sua cara de forma excessiva que você os rejeita – MIA enfia tanto protesto social na sua cara de forma excessiva que você os rejeita.

BORN FREE acaba mais perto de um anúncio da Benetton – que usa a diversidade étnica para vender roupas – do que campanha pelos direitos dos Tamils, palestinos, dalits ou moradores de favelas brasileiras cujo funk rendeu samples que MIA usou pra fazer o Mundo dançar com suas mensagens políticas.

O que é MIA: artista ou ativista? Militante independente ou vendida pro mainstream? Qual lado se sobressai – o da ativista que usa sua arte para dar o recado ou o da artista que usa um problema pra vender mais discos? É bem possível ela ser ambas as coisas, mas o “meme MIA” levanta a velha e cansada questão da Arte Politizada vs. Arte como Entretenimento, ainda mais com um clipe como esse, quase tão pentelho quanto discussão de DA de faculdade sob uma névoa verde de inércia.


MIA tem feito o que pode pela questão dos tamil refugiados; não é fácil lidar com um governo totalitário – deve ser por isso, tomara que seja, que ela nem pisa mais no Sri Lanka. Nem dá pra comparar com a ajuda de sua colega de gravadora, Lady Gaga, que doou U$ 500 mil pros desabrigados do terremoto no Haiti. Gozado que MIA zoou basicamente a questão musical de Gaga na entrevista recente que deu pra NME, deixando de lado a questão política.

Talvez a cingalesa, ao contrário dos jornalistas, reconheça que ambas as cantoras antes de mais nada são um produto do Pop. Uma usa surrealismo soft pra vender seu peixe, outra o ativismo soft – compra quem quer, seja por acreditar totalmente no conceito ou encará-lo apenas como tempero. E dessa vez nem como tempero eu estou comprando.



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  • http://www.twitter.com/roger_brandao Rogério

    parabéns pelo texto, Hec. só vi o clipe nesta tarde porque ontem eu não tava com cabeça pra encarar os 9 minutos. não deu pra mastigar tanto o vídeo, mas você destacou uns pontos bem interessantes. essa aura “olha como somos politizados” é fódis.

    pior ainda é dizerem que ela ownou o Telephone da Gaga.

  • Maria Helena

    Gostei do seu texto. É provocador.
    Não curto a música do clip da M. I. A , mas o vídeo é interessante sim.
    Tenho um amigo ruivo que se aproximou bastante dos negros em sua cidade natal, quando criança, em virtude das discriminações e preconceito que sofreu.
    Acho super válido ativismo político, (arte e ativismo é importante na minha opinião)..
    Picasso, em sua obra Guernica chegou ao conceito de guerra, consegue “definir” em sua pintura, universalmente, o que significa uma guerra. O modo como ele organizou aquelas pessoas, os animais massacrados, as cores que usou, de forma única. Ele também perguntou: O que vocês acham que um artista é? Um imbecil? Ele é ao mesmo tempo um ser político, constantemente sensível aos acontecimentos que laceram o coração, cuasticantes ou felizes… Não, a pintura não é feita para decorar apartamentos. É um instrumento de guerra para operação de defesa e ataque contra o inimigo. (Picasso, apud Gardner, 1996:146).
    Abraços

  • HectorLima

    interessante ponto de vista, Maria Helena. como falei no texto, MIA deve ter tido lá sua intenção de fazer crítica social no clipe – mas a mão pesada com que a crítica foi feita esvaziou o discurso. sobrou o choque sensacionalista, que serve mais para vender música que para chamar atenção para qualquer desigualdade social.

  • Lecio Rabello

    Sabe quando um clipe vai chocar alguém? Quando for bem careta. Cansou, esgotou. Essa música da MIA é chatíssima e o clipe – colocação hilária e perfeita – soa realmente como uma campanha da Benetton. Mas já já vem coisa pior: o clipe de Judas da Lady Caca como Maria Madalena zzzzzzzzzzzzzzzzzz

  • Anonymous

    não tava sabendo dessa da Gaga como Maria Madalena, mal posso esperar! ¬¬